Marquinhos de Oswaldo Cruz

“Ventos que sopravam as velas pelo oceano. Ventos que empurraram os negros, vielas acima.Ventos que sopraram pelas correntezas dos trilhos aos longínquos subúrbios. Ventos que sopram minha alma, minha cultura, minha memória.”


Hoje percebo a contemporaneidade da diáspora africana. Ouço o grito guardado em minha alma-memória:- É campeã! – para minha querida Portela. Revejo a imagem de Candeia entrando na recém inaugurada sede da Portela, com seu olhar onipresente, em 1972, com todos os olhares voltados para ele.

Quantas lágrimas derramo em meu peito de saudades das “aulas” matinais na padaria com Argemiro e Monarco; das aulas de Manacéia, que deixou de ser freguês da loja de meu pai,ao saber que ele não queria que eu me tornasse sambista . São eles, heróis de uma história de quase um século, transmitida pela cultura milenar da oralidade. Carregam em seus sambas alegria, sonhos e lágrimas de um povo. Assim, conseguiram resistir às várias formas de silenciar o samba como expressão da cultura negra brasileira. Silenciamento simbolizado na pancada da polícia ou ainda nos tempos áureos do rádio em que o samba era ouvido, mas com uma batucada sussurrante e nunca cantado com nossa voz . Como foi difícil para um jovem militante conseguir entender que os ídolos de seus pais que, as vezes, ainda passam anônimos em suas comunidades , construíram a história de resistência mais poética da nossa cultura.
Logo eu, tão certo de possuir a verdade e que me considerava um profundo conhecedor de todas as formas possíveis de organização… Logo eu, que não reconheci a importância poética/pedagógica das rodas de samba, em 1997, sob os Arcos da Lapa, que fizeram reviver os seus bons tempos de ocupação do espaço público… Foi assim, sob o poder de melodias, letras e pela magia da batucada, que me fiz sambista.

Citando Candeia: “cego e quem vê só aonde a vista alcança”. Hoje, posso enxergar além das grades desta prisão cultural unitária. Prisão esta que nos condena a pena de não podermos olhar para o espelho, e vermos o quanto bonitos nós somos. Prisão esta, que veda nossos olhos para que não possamos enxergar, que não só a escola formal é produtora de conhecimento e que muitos saberes estão exilados de nós, nos botequins, esquinas e nas calçadas.Busco, todos os dias, construir a minha identidade de sambista. Retrato em meu corpo, a minha alma. Ecoa em minha voz, o sussurro de meus ancestrais.

Faço da ética e dos meus princípios os pilares centrais da minha carreira, mesmo que receba, às vezes, a solidão como recompensa. Também tenho um sonho. Quero poder cantar para os descendentes dos que construíram (e continuam a construir até hoje) a minha arte. Cantar para lembrar aos moradores dos morros e subúrbios do etnocídio a que somos submetidos diariamente pelos detentores e defensores do pensamento hegemônico.

 

fonte: Blog Marquinhos de Oswaldo Cruz
http://www.marquinhosdeoswaldocruz.com