“Tá legal, eu aceito o argumento”


Paulo Oliveira

 

 

No sambaço “Argumento”, Paulinho da Viola, no álbum homônimo de 1975, entoava os versos que dão título a este pequeno texto. E esses versos, atualíssimos, pois nós humanos estamos sempre a nos repetir, como comédia, tragédia ou farsa, motivam esta crônica. Como é chegado o carnaval, sempre é bom falar da festa que nos emociona e da escola que nos irmana, a Portela – orgulhosamente a Portela, que tem em Paulinho um de seus faróis.

O carnaval é uma festa e o substantivo diz tudo: festa popular, festa da raça, das tribos, do prazer, da dança, da música, do batuque, da alegria, da libertação, festa dos sentidos. Nenhuma festa se dá sem uma organização qualquer, mínima que seja, é fato. Uma roda de samba acontece do nada, mas há sempre um que traz a carne, outro o arroz, a farofa, a cerveja a cargo de cada um. Mesmo na desordem há um tantinho de organização. Mas imaginemos um samba organizado à suíça! Não dá, não é mesmo? Samba com convite, traje esporte fino, hora pra acabar? Os desfiles oficiais estão nessa armadura oficial, mas sempre há uma saudável transgressão. Que não prejudique a escola do coração, é claro, pois, ao final, título é título e todos querem um. Sobra aos foliões alguma liberdade nas ruas, nos blocos, nas calçadas dos bares e nas barraquinhas que fazem nossa alegria. Mas isso é papo para outro dia. Interessa-nos lembrar o que Paulinho da Viola anunciava naquele ano de 1975: a modernidade vem, mas é saudável também alguma resistência a ela.

Sábio, Paulinho dizia que estava tudo certo, argumento aceito, mas uma certa preservação da essência do samba também era saudável, necessária. Se seu samba pedia um cavaco, um pandeiro e um tamborim, não era por mania passado. Vejamos hoje. Será que o modelo de gestão do Sambódromo, bom para o carnaval do turista, não poderia ter outra configuração nos ensaios técnicos? Havia, até este ano de 2015, ambulantes miúdos defendendo seu troco, seja com o biscoito Globo ou com a cervejinha gelada e barata, e com isso uma certa desorganização, claro, mas que tornava o evento mais espontâneo, mais “povão”. A cervejinha, agora bem mais cara, a pseudo-organização dos ensaios, das arquibancadas e até das torcidas fazem parte da política do “choque de ordem” alardeado. Em contrapartida, o tal “choque” passa longe quando se trata dos ônibus que vão para a Zona Norte e as periferias, cada vez mais escassos, ruins, sem controle de horário. O que dizer do metrô, que só funciona até às 23hs, e do trem, que às 21hs encerra seus serviços? Organização para o trabalhador informal, mas quando se trata da Prefeitura... Aquilo que o povão já sabe: é o que tem para hoje. O samba crítico do nosso Paulinho, mais do que reclamar das modernidades excessivas em detrimento da tradição, alertava para essa modernidade decorativa, vazia. Malandro, o sambista marinheiro sabe que, durante o nevoeiro, o melhor é navegar devagarzinho, no sapatinho, como se diz na gíria.

A modernidade de fachada e essa capinha de autoridade não se refletem nos bons serviços públicos para a massa que prestigia os desfiles técnicos. Refletem-se, isso sim, no baixo comparecimento do público, como alertou um perplexo Mestre Ciça, da União da Ilha. Que a Portela tenha melhor sorte dia 17 de janeiro de 2016, e que aprendamos, com o samba de Paulinho, que nem tudo que reluz é ouro, e que, conforme o provérbio chinês, organizar é destruir.

Entre o ouro de tolo e a organização de fachada, fiquemos com a arte autêntica de nossos irmãos de samba. E o povão sabe do que estamos falando. Quanto a isso, está aceito o argumento.

Avante, Portela!!!