Sem direito de errar: Madureira vai chorar de dor, senhor Nilo?

Paulo Oliveira

A crônica requer daquele que escreve uma responsabilidade enorme, pois sua escrita é irremediavelmente e tendenciosamente subjetiva, pessoal. Se pudéssemos definir essa atividade de difícil conceituação, ao menos de forma mais poética, diríamos que o trabalho do cronista envolve quatro ações básicas: olhar, caminhar, pensar e escrever. Diante dessas quatro atividades, alia-se o tempo – a crônica tem data e hora marcadas – e a possibilidade de errar: falar do presente, mais especificamente do agora, envolve uma carga emocional e pessoal que torna a atividade, além de racional, sanguínea. A maturidade vem depois, quando o texto é lançado no papel, reescrito, várias vezes, corrigido, cortado, mutilado, exposto à reflexão: essa, mais serena, sem o calor da hora, sem a paixão do momento da observação. E crônicas ligadas a atividades de paixão, irracionais, como as do mundo do samba, das escolas de samba, tanto quanto no futebol, são sempre permeadas por sentimentos difusos. Errar, então, é mais que humano, é da natureza do torcedor, e esse se manifesta, de alguma forma, naquilo que pensa, escreve, observa, enquanto caminha por esse mundo vibrante e apaixonante, de sons e ritmos e corações. Então, nos encontramos em uma encruzilhada, no momento em que temos que tomar a decisão de matar ou não o Rei: mata-se o algoz, mas sacrifica-se o povo? Salva-se o povo, mantendo o tirano? Escolha de Sophia. Portanto, esta crônica trata dessa dualidade em luta, naquele que escreve. Escrever por amor? Escrever e pensar? Ou escrever com a razão? Em se tratando de Portela, embaralhadas estão as emoções. Sem um horizonte nítido à frente, tratemos, inicialmente, de olhar e caminhar.


Quem passou pela rua, em Madureira, no dia 13 de janeiro de 2013, e viu o belo coral, o mar de romeiros, traduzindo no pé e nos braços, no sorriso dos componentes da comunidade e no de última hora, cantando o belo samba portelense, compreende que ali a pulsão de vida é tão forte a ponto de chegarmos a uma conclusão apaixonada: há escola, há samba, há chão, há história, há alegria, há sangue correndo nas veias, o jardim está florido, flores negras, brancas, mulatas, mestiças, flores de aço. Que emoção é essa que enche o olhar de lágrimas e se alimenta desse tropel, nessa belissimamente procissão – ecos de Clara Nunes, de Paulo César Pinheiro, gloriosos, gloriosa Escola, gloriosos tempos – imortalizados nos versos do samba, hino não-oficial da Escola: “É a procissão do samba abençoando / a festa do divino carnaval”. Falar desse cotidiano, tão ali manifesto, por tantas vozes, em tanta cantoria de cortejo, faz da vida e do instante uma “onda que cobre a avenida de espumas” e nos “arrasta a sambar”.


E então, nós, que tanto temos criticado o carnaval portelense de 2013, publicamente, nas redes sociais, neste site, nas conversas, rodas de amigos, nos vemos nessa encruzilhada de Laios. Edipianos, amamos nossa mãe-águia, nossa azul e branco, e por isso nos chamamos Portelamor. Queremos morrer de amor nos braços dessa “deusa do samba” que “o passado revela”. Mas, conforme nos ensina nossa amada Velha Guarda, nos sentimos um pouco sentinelas. E arrogantes que somos, queremos a verdade, mas Pilatos já perguntara antes a Cristo: “Mas o que é a verdade”?


A Portela tem talvez o samba mais importante do ano, mais interessante, como forma, mais empolgante como música e melodia, poético e singelo como letra; um enredo do tipo “trem de luxo”; uma comunidade apaixonada; sangue quente; torcedores no Brasil inteiro e que não se importam com o péssimo carnaval de barracão – a paixão é cega, Édipo se cegou, estamos todos nessa maldição da cegueira, destino humano. Enfim, tudo se anuncia como um futuro promissor. Mas eis que vem a bofetada da vida.


Este cronista lê recortes de jornal, enviados pela amiga Ednéia, imperiana que não vai ao Império Serrano, pois acha que na Portela há mais amizade, e por isso é uma portelamorense por amor e amizade. Ela própria é uma personagem sambotrágica – não se larga a escola de coração, mas o coração trai a gente, não, Ednéia? Por isso, a Portela é amante de Ednéia. E peço a ela, que lê os jornais que não leio, a quem recorro, para saber o que a imprensa, digamos, mais “popular”, diz. E o que a imprensa diz joga o cronista na tristeza. Desfaz-se a bela imagem da escola cantando e sambando pelas ruas de Madureira como se não houvesse amanhã e em seu lugar surge uma paisagem triste.


No dia 07 de janeiro de 2013, seis dias antes daquela beleza de ensaio de rua, o que se lê, quase que diariamente, no jornal Extra é desolador: “Portela: nenhum dos oito carros está pronto”; jornal Extra do dia 08 de janeiro de 2013: “Tijuca, Beija-Flor e até a novata Inocentes mostram à Portela como se faz desfile” (viu que vexame, Sr. Nilo?); jornal Extra, dia 10 de janeiro de 2013: “Seca na Portela não é só de campeonatos” (falta luz, falta água, e vergonha, não falta?); jornal Extra, dia 11 de janeiro de 2013, a dois dias do ensaio de rua magistral: “Faltando pouco mais de um mês para o desfile, a Portela ainda tinha quase todos os seus carros apenas com a estrutura em ferro”.

Contra a paixão, o real. Com quais dos dois ficar, nessa encruzilhada? O cronista, cabisbaixo, caminha pela multidão e pensa. E vai escrever, mas como? Com paixão? Mas a cara está dolorida pela bofetada das matérias de jornal. E então, o cronista se vê na encruzilhada e para, e pensa, e resolve: ao invés de matar o Rei, propõe um desafio: Senhor Nilo, como no samba, Madureira vai chorar de dor? Vossa Inadimplência atestará sua ineficiência administrativa mais uma vez, diante de uma comunidade apaixonada que espera do senhor apenas que faça seu trabalho com um mínimo de competência? Será a Inocentes (tão inocente, novata, virgem de campeonato de grupo especial) que vai lhe ensinar como gerenciar uma escola de samba? Ou, surpresa das surpresas, o senhor nos fará calar a boca, entregando a essa comunidade maravilhosa um desfile magistral, apresentando, em um lance de última hora, no apagar das luzes (a da quadra já apagou, não vale) uma carta escondida na manga, uma surpresa aos 50 minutos do segundo tempo?


E, como Édipos apaixonados pela mãe Portela, estamos prontos a lançar por terra nossa espada. Faça-nos calar, pedir perdão, reconsiderar os insultos que proferimos. Apresente um desfile digno de Madureira, da comunidade orgulho suburbano, que respeite o chão da campeoníssima de 21 carnavais. Faça-nos engolir, palavra por palavra. Na quarta-feira de cinzas, estaremos prontos a escrever uma coluna dizendo: mea culpa, mea maxima culpa. Ajoelhados, diremos, humildes, que o reino está a salvo, pois o povo não sofrerá com a peste.

Estamos aguardando. Prontos a nos penitenciar. Este é o desafio.

Avante, Portela!!!