De samba, resistência e intolerância: teste ao samba

Paulo Oliveira

A Kailane Campos e a todos os que resistiram e ainda resistem

Em tempos de pedradas e intolerância, nunca é demais lembrar a história do samba, marcada pela luta, persistência e pelo direito ao reconhecimento de uma cultura forjada na dor e na verdade de um povo. Vem dos batuques ancestrais da África o som e o canto daqueles que foram vilipendiados pela barbárie da escravidão perpetrada pelos “civilizados” e “cristãos”. Esse canto se enovelou nos destinos das cidades e gentes deste país. O samba é um desses elementos de memória que testemunham a odiosa diáspora, lembrando dia a dia o que não pode se repetir na odiosa roda da história de dominações.

O percurso glorioso de nossa azul e branco em sua luta pela consagração do samba fez de Paulo Benjamin de Oliveira, nosso Paulo da Portela, “um traço de união entre duas culturas”, feliz definição de Marília Barbosa e Lygia Santos. Paulo combinou a herança negra e sua nobreza com a realidade da cultura “civilizada” em nosso solo de tantas contradições. 

Outrora, os cânticos negros ecoavam nas senzalas, em forma de lamento, no banzo a evocar o desterro, a saudade da terra para sempre perdida, espécie de melancolia que fez o branco mais preto deste país versar: “Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não”. Essa tristeza perdura na desigualdade das relações sociais e econômicas, que os versos de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, infelizmente, ainda traduzem: “Esse canto que devia / Ser um canto de alegria / Soa apenas / Como um soluçar de dor”. 

O samba, ao contrário do que pensam alguns desinformados, jamais pregou uma união e cordialidade falsas. O samba expressa, sim, a consciência de que aquele passado está para sempre perdido, barrado que foi, mas resiste, no presente, nas reminiscências de uma cultura massacrada a ferro e fogo que, para sobreviver e fazer perdurar sua história, forjou na Terra Papagalli uma memória que precisamos resgatar e reconstruir. 

Homens como Paulo da Portela intuíram essa história como parte de um continuum e viram no bom combate uma forma de derrotar a opressão. Com sagacidade, sem desconhecer a imensa herança ancestral de que dispunha, Paulo fez muito, não só por nossa escola, mas pelo mundo do samba. Não se trata aqui de romantizar a história deste que é a grande estrela de nossa constelação, mas sim de aprender com a lição do mestre. Homem humano que foi, errou e acertou. Como um verdadeiro líder, negociou sem se curvar. Soube ouvir e soube falar. E, claro, também errou. Entretanto, persistiu. Diante das intempéries de uma sociedade racista e classista, jamais deixou sua paixão pela causa do samba esmorecer. Ao lado de seus grandes companheiros escreveu as muitas “páginas belas” de que nossa Portela é herdeira privilegiada. 

Em tempos de intolerância contra as matrizes negras de nossa cultura, precisamos, irmãos de samba que somos, estudar a lição Paulo e de tantos outros que, como ele, abafaram com seu canto de libertação os latidos de ódio e discriminação. Seu Osmar do Cavaco, pai de nosso atual Presidente, fez para Paulo da Portela os seguintes versos: 

Paulo da Portela Desapareceu, mas ficou na história
[...]
Jamais será esquecido
Aquele grande amigo da paz
Vai em nossas orações
As unções celestiais
Aquele líder do samba
Em qualquer situação
Foi primeiro sem segundo
A achar nós todos irmãos. 

Nesses tempos de pedradas e intolerância, fica a lição maior de nosso professor: que esse traço de união entre duas culturas desapareça e, utopicamente, dê lugar a uma única cultura, uma só (talvez tenha sido esse o sonho maior de Paulo), uma cultura humana, dos belos e elegantes homens de bem, amorosos, e que amam o amor, conforme a epígrafe da nossa então nascente Torcida Portelamor, nas palavras de Fernando Pessoa: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”.

Páginas belas só são escritas pelos que não calam diante da intolerância. Lição dada por Paulo da Portela é lição aprendida, e quem melhor para repeti-la do que nosso poetinha, Vinícius de Moraes: “Não és um só, és tantos / Como o meu Brasil de todos os santos”. A benção meu samba! E viva a herança de teu povo! Saravá!

Avante, Portela!!!