Lembrar e agradecer

 

(Aos nossos baluartes, com carinho e respeito, por existirem em nossas vidas)

É bom ter amigos. É bom ter amigos de samba. É bom ter amigos que vivem e gostam de samba. E se esses amigos são portelenses, aí é festa no céu! O tema dessa crônica me foi sugerido pelo amigo portelamorense Jorge Anselmo, mas a ideia original veio de um post de Cláudio Fabiano, que Jorge leu no site Galeria do Samba. Nele, Cláudio chamava a atenção para um comercial do Jeep, em que se recitava versos de Candeia. Trata-se da linda canção “Preciso me encontrar”, que ficou famosa na voz de Cartola e, mais tarde, se tornou estrondoso sucesso, com Marisa Monte. Cláudio Fabiano advertia que muitos acreditam ser de Cartola o samba que, na verdade, foi composto por Candeia. Cartola e Candeia são dessas entidades que, confundidas, não oferecem problemas: é como se confundíssemos o sublime com o divinal. Mas não é bem disso que Jorge falava. O que ele apontava, instigado pelo que Cláudio escreveu, vai muito além dessa relação entre poetas geniais. Ele chamava a atenção para o esquecimento nosso de cada dia, que corrói nosso passado e nos arremessa em uma espécie de Alzheimer nacional. E por isso é tão importante o trabalho do Galeria do Samba, da Portelamor, da Portelaweb (que completa este mês 16 anos de serviços prestados à Majestade do Samba), e de tantos outros sítios dedicados a agradecer e lembrar. E é por isso também que, mesmo com todo o amor que dedicamos ao mestre Cartola, precisamos reafirmar que “Preciso me encontrar” é composição de Candeia. É importante ainda ressaltar que é de Candeia porque são versos forjados por uma história pessoal dolorosa e estão relacionados à sua tragédia pessoal, assim como “A vida é um moinho” traduzia um momento dolorido da vida de Cartola. Como se trata aqui de agradecer e lembrar, nunca é excessivo reproduzir os versos do mestre portelense: “Deixe-me ir preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar/ Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar/ Eu quero nascer, quero viver/ Se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Depois que me encontrar”.

Candeia estava em uma cadeira de rodas, lutando para se erguer das sombras, após um tiro que o deixaria paralisado por toda a vida. Candeia chorou sua dor cantando. Era preciso ir, andar, rir para não chorar, nascer outra vez, e para isso era preciso que ele se reencontrasse. Esse reencontro nos deu algumas das mais belas páginas de vida e arte da história do samba. Em outra composição, “De qualquer maneira”, Candeia mais uma vez cantochorava: “Sentado em trono de rei/ Ou aqui nesta cadeira/ Eu já disse, já falei/ Que eu canto de qualquer maneira/ Quem é bamba não bambeia/ Digo com convicção/ Enquanto houver sangue nas veias/ Empunharei meu violão”. E é aí que, a partir da conversa com Jorge, um apaixonado pelo samba e, principalmente, pela Portela, me pus a pensar no quanto somos devedores desses sujeitos imensos, tantas vezes preteridos em nome de uma ideia torta de que carnaval é somente o desfile, os títulos e as glórias. Neste momento, esquecemos, perigosamente, de nosso terreno, de nosso chão, que também foi semeado com essas histórias de derrotas e fracassos.

Será que os nomes de Davi Corrêa e Jorge Macedo ainda nos lembram de algo? Sabemos quem é Dedé da Portela e Norival Reis? Estamos a lembrar de Candeia, mas quem se recorda de Althair Prego? Pois bem. De David Corrêa e Jorge Macedo, cantamos até hoje, afiados e afinados: “E lá vou eu, pela imensidão do mar/ Essa onda que borda a avenida de espuma/ Me arrasta a sambar”. Com Dedé da Portela e Norival Reis, batemos no peito, na entrada da avenida, com orgulho portelense: “Okê-okê Oxossi/ Faz nossa gente sambar/ Okê-okê, Natal/ Portela é canto no ar”. Nas “Seis datas Magnas, nos idos de 1953, Althair Prego e esse mesmo Candeia nos alçavam à condição de potência dos sambas-enredo: “Foi Tiradentes o Inconfidente/ E foi condenado à morte/ Trinta anos depois o Brasil tornou-se independente/ Era o ideal de formar um país livre e forte/ Independência ou morte”. No entanto, o brilho da festa, a luz dos holofotes, o luxo dos carros, o delírio dos carnavalescos e as pirotecnias – essenciais, magistrais, não duvidamos – por vezes nos fazem esquecer dessas tão belas páginas, que nossa escola e tantas outras coirmãs escreveram e escrevem, por meio dessas figuras anônimas e, no entanto, absolutamente imprescindíveis.

No filme francês A família Bélier, conta-se a história de uma menina, filha de pais surdos e  irmã de um adolescente, também surdo. Ela nasce com uma belíssima voz e, a contragosto dos pais, resolve sair da fazenda no interior, onde ela cuida da família e de seus negócios, para ir a Paris realizar seu sonho de cantar. Já bem no fim do filme, inesperadamente, seus pais adentram a sala onde ela está prestes a se apresentar e se acomodam na plateia, para a surpresa da jovem. Quando ela inicia o canto, o diretor suspende o som do filme, e então, no cinema, somos magicamente colocados no lugar dos pais da menina, que assistem orgulhosos a filha sem, no entanto, poder ouvir a beleza de seu canto. Imaginemos, da mesma forma, um desfile de escolas de samba somente com as imagens, a plasticidade tão valorizada, a alegria dos componentes, sambando e evoluindo, porém sem as letras e melodias magistrais de nossos mestres poetas.

O samba é confluência de mundos, pororoca de sentimentos e artes, multiplicidade de energias que convergem para um todo, misto de beleza e técnica. Não lembrar nossos grandes compositores é muito grave, está para além da perdoável confusão entre Cartola e Candeia, pois ambos são deuses do panteão do samba; ambos corrigiram a amargura da vida pela beleza da palavra e do canto. Esquecer nossos mestres compositores é como desfilar em bela e luxuosa fantasia, no foco das luzes de um rico e caríssimo desfile, entretanto, sob os acordes do silêncio. Precisamos lembrar que o samba está além dos campeonatos e que sua história só foi possível porque esses homens e mulheres magníficos passaram pela Terra, mantendo sempre acesa a chama desta arte que se recusa a morrer.

Disso, nos recordam o Cláudio Fabiano, o Jorge, o Rogério e o Fábio da Portelaweb, a rapaziada do Galeria do Samba, da Portelamor, que com suas memória fabulosa e com seus olhares críticos e agudos nos ajudam a pensar nosso passado e nosso lugar. E é em homenagem a eles que por meio dessas poucas linhas mando um emocionado abraço azul e branco.

Avante, Portela!