Uma história para não esquecer

Para a “Dona China”, minha avó, benzedeira e portelense (In memoriam)

 

Dizemos sempre que o brasileiro não tem memória, e no mundo do samba, a memória não é só fundamental, ela nutre canções, histórias, com H ou h, lembranças, saudades, nostalgias. Mas a memória é uma musa vilã, pois a experiência é algo que se foi para sempre, e o que resgatamos, de certa forma, também é uma espécie de ficção. Costumamos dizer, “sim, é verdade, eu estive lá”. Mas estar lá não faz do relato uma verdade, nem restitui o fato, apenas faz com que um fragmento daquilo, filtrado por nossa vivência venha ao presente como espécie de testemunho incerto. Sempre me emociono ao ver e ler os depoimentos de nossos baluartes sobre o passado de glória da Portela e é isso que constrói uma história afetiva, mais do que a em certos episódios. Acho difícil alguém se emocionar ao ler nos livros de história o que aconteceu na chacina da Guerra do Paraguai, mas o relato dos que lá estiveram são páginas de grande carga emocional e afetiva e podem dar a dimensão do fato, tanto mais do que o genocídio pátrio contra aquele país. Na história do samba, muito se romantizou, em todas as agremiações, mas fatos também são essenciais para se construir um presente pelo olhar de volta ao passado. Na Portela, são 21 títulos, um heptacampeonato, histórias de vitórias e derrotas, como 30 anos sem títulos, e tudo isso vai compondo o drama encenado que, como a vida, é composto de altos e baixos. Nesta coluna, falamos de várias derrotas recentes, assim como tratamos das páginas belas de nossa escola, e assim será. A ideia de uma crônica se dá ao sabor dos acontecimentos, mas também da memória que exige uma resposta a uma inquietação do cronista. Ao escrever uma homenagem a Dona Dodô, imediatamente me veio à cabeça uma experiência que tive no carnaval de 2012, quando Madureira subia o Pelô para fazer um desfile que tinha tudo para ser memorável.
Tínhamos um enredo maravilhoso, um samba antológico, inovador, casamento de letra e música perfeitos, contando magistralmente uma história, como pouco se vê, hoje em dia nos nossos sambas de enredo. Havia um clima de euforia na escola, a atmosfera era a de que, naquele ano, a Portela faria um dos seus mais belos carnavais, após os recentes episódios de desfiles desastrosos e do incêndio no barracão. Resolvi desfilar pela escola, pois, além de tudo isso, havia mais uma homenagem, desta vez muito especial, a Clara Nunes. E Bahia é sempre Bahia, poucos temas nos inspiram tanto. A fantasia de ala comercial era muito bonita e tudo conspirava, não sabíamos se para um título, pelo menos para um desfile que enchesse o portelense de orgulho. Na Sapucaí, entretanto, o que se viu foi um misto de emoções cruzadas.
Já ressabiados com o barracão do “seu Nilo”, esperávamos, como até então, que a Fênix ressurgisse, naquele dia de desfile. A decepção se iniciava com a águia, e ia aumentando à medida que repassávamos os carros na concentração. Bem, mas havia as luzes, os efeitos, tudo poderia mudar na avenida. Mas não. Mais uma vez, e desta vez, a última, eu e os componentes de nossa torcida nos rendemos à evidência de que mais uma vez seríamos coadjuvantes da festa, o que realmente aconteceu, com o sexto lugar e um frustrante desfile nas campeãs. Ao escrever sobre Dona Dodô, pensei em como aqueles tempos idos devem ter refletido nos corações portelenses. E em como deveriam reagir nossos baluartes aos tempos atuais, pensando especialmente em Dona Dodô. Suas palavras de amor ricocheteiam neste cronista e produzem uma saudade do que nunca vi nem vivi, mas que procuro imaginar. Pensei que não era aquela a história que aprendi, menino, em minha casa de Turiaçu, quando nos reuníamos nas casas de vizinhos mais abastados e que tinham televisão, para ver a Portela desfilar. Ou quando, um pouco melhorados de grana, acordávamos de madrugada, a hora que fosse, para ver a passar a águia, que isso carnaval para nós não havia. Eram madrugadas com café, bolo, crianças que éramos, com os adultos em volta, extasiados. Lembro de minha avó dizendo, por conta de um campeonato perdido: “Nós ganhamos muito, deixa um pouco as outras ganharem”. Esbanjávamos campeonatos, ostentávamos um orgulho e até podíamos nos dar ao luxo da ternura para com as coirmãs. Mais do que isso, a escola era um espelho daquilo que queríamos para nossa vida: sucesso, alegria, vitória do bem contra o mal, ou seja, todo esse romantismo com que construímos nossos castelos de areia.
Minha avó e Dona Dodô, duas lembranças que me vinham, quando uma outra, bem mais recente, dolorida, me sacudiu. No aludido carnaval de 2012, diante da frustração com nosso barracão, esbarrei com um colega de há muitos anos e torcedor da Portela, que perguntou o que achava do que via. Disse que, afora o enredo e o samba, além de nossa magnífica bateria, teríamos que torcer muito para voltar entre as campeãs, já que plasticamente eu achava que a escola estava um horror. Diante de minha resposta, misto de decepção e revolta, ele ficou visivelmente aborrecido, ao que retrucou: “Não está tão ruim assim, já estivemos pior”. A frase me calou fundo e desde então me acompanha. Pois a Portela de minha avó, que poderia se dar ao luxo de perder um carnaval visto que seu passado era de tantas glórias e títulos, agora se contentava em não estar “tão ruim”? E a Portela de Dona Dodô, que ao empunhar a gloriosa bandeira dava seu sangue e suor para ajudar a escola a conquistar um campeonato, havia se transformado nessa caricatura, que, estando ruim, se conformava em não estar pior? Não entendi o que se passava ali, apenas pronunciei uma frase igualmente lacônica: “A que ponto chegamos, não, meu amigo? Nos contentando com isso”. E o desfile se fez, o samba na garganta e a plenos pulmões, na batida da bateria nota 10, Estandarte de Ouro naquele mesmo ano. Chão maravilhoso, samba inigualável, desfile perfeito, evolução, harmonia, o portelense como sempre dando seu show de amor pela escola. No abrir dos envelopes, o barracão ia sepultando, nota a nota, nossas alegrias e as transformava em frustrações.
Ao escrever a homenagem a Dona Dodô, perguntava sobre as lições que poderíamos tirar de sua vida de entrega a nossa escola. Ao escrever essa crônica, puxo da memória os antigos portelenses que, a seu modo, traduziam a história de nossa Portela de outrora, com suas alegrias, muitas, suas vitórias, 21, com suas derrotas, sempre dignas, mas que por outro lado, na frase de meu amigo, desenhava uma Portela que eu me recusava a aceitar. Não, não é problema perder um carnaval; não é vergonha passar por atribulações, a vida é assim: mas o espírito altaneiro cujo símbolo é a águia altaneira não poderia se resumir a se conformar com o menos ruim. Lembro, então dos versos do samba de Candeia e Casquinha, que em uma determinada passagem diz assim:

Portela
A luta é teu ideal
O que se passou, passou
Não te podem deter
Teu destino é lutar e vence
Oh! Minha Portela
Por ti darei minha vida
Ò Portela querida

E em outra, que complementa o espírito altaneiro com um altruísmo herdado de Paulo da Portela e de Dodô:

Eu quisera ter outrora
Idade de encantos mil
Pra trilhar contigo passo a passo
No sucesso ou no fracasso
Pela glória do samba do Brasil

Então, penso que aí estão algumas lições, algumas respostas, que podem ser buscadas em nossas memórias, históricas e afetivas, nas palavras de Dodô, ou nas de minha avó, e mesmo na frase de meu colega de coração azul e branco, amante como eu desta escola emocionante: nossa história é de felicidade e drama. Somos dramáticos, os portelenses. Choramos, só de lembrar das muitas histórias de nossa agremiação; sorrimos só de vê-la passar, carregando em suas alas, bandeiras, componentes, bateria, um passado que a história ratifica, mas que só o rio da memória afetiva pode dar conta, quando se trata da emoção de pertencer a essa coisa intangível, imaginária, romântica, inexplicável, que é a paixão por algo que só se materializa enquanto sentimento, e o sentimento não mora somente no que se toca. Pois é, sentimento se sente.
Um novo tempo se anuncia para a Portela, em 2014. Que sejamos bafejados pelos ventos do passado e que o presente se anime com a força de Dodô, para que nosso futuro seja como deve ser: futuro de glórias.