Habemus Samba!

Com o Carnaval chegando e os sambas de cada agremiação definidos, começa a se desenhar na paisagem carioca mais um período de muita (e boa) discussão sobre o repertório de 2014, o que finalmente se sacramenta com o lançamento do CD das Escolas de Samba. Como o futebol, o carnaval é arena de paixões, de polêmicas, e também de muito fanatismo, obsessões, tudo, é claro, no bom sentido e dentro dos limites da cordial convivência, o que não descarta as rivalidades, claro.

Essas rivalidades já começam dentro das quadras, no momento dos cortes de samba-enredo, com as torcidas e suas preferências por esta ou aquela obra. A rivalidade sai das quadras para as ruas quando, já lançados em CD, os sambas inevitavelmente ganham o mundo e começam a ser comparados. Nas quadras, a fumacinha branca que anuncia o vencedor é precedida de muita apreensão, que logo depois dá vez à alegria de uns – os vencedores – e a tristeza e/ou indignação de outros: nas paixões, a unanimidade é uma impossibilidade, mas como disse o grande Nélson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. Passado o luto, ouvidos os sambas gravados, as discussões ganham as ruas – hoje, elas, na verdade, ganham as páginas da Internet. O julgamento dos ouvintes, como se sabe, extrapola a qualidade do material apresentado, para o bem ou para o mal, e vai mesmo se estendendo a outras áreas, como é próprio dos amores cegos, e o amor por uma escola de samba nos cega, realmente. Há quem diga, por exemplo, que samba não ganha carnaval. Pode ser verdade, pois se ganhasse, a Portela raramente ficaria de fora dos títulos.

Para não ferir suscetibilidades, nem mesmo as da própria agremiação a que pertenço, me escuso de falar dos sambas individualmente, mas procuro vê-los no conjunto. Assim, minha primeira impressão/audição me faz crer que temos uma safra muito fraca, pouco inspirada, de forma geral. Se no ano passado, por exemplo, dois sambas rivalizavam por conta de sua excepcionalidade – os de Portela e Vila Isabel – esse ano não podemos dizer que há uma obra-prima na praça, ou ao menos um samba de qualidade indiscutível e incomparável, daqueles que colocamos nos altares da história. Claro que tudo isso de que se trata aqui passa pelo crivo pessoal, pois há sempre uma dose de subjetividade em nossos julgamentos do objeto artístico. Como não se trata de um trabalho acadêmico, a crônica de samba nos permite certos arrazoados, que para o bem do debate, podemos trazer aqui, sem grandes sustos.

Sem me esquivar das polêmicas, arrisco dizer que este ano nós, portelenses, temos um samba que se destaca, dentre os demais, e de forma quase que solitária. E sem medo da polêmica interna, o chamado fogo amigo, direi também que, embora bom, o samba da Portela deste ano, nem de longe supera os antecessores, de 2013 e 2012. Se aqueles eram excepcionais, o deste ano é, sem risco de cometer injustiças, correto, com grandes momentos alternando-se com outros de menor escopo. Possui um refrão imbatível (“Vou de mar a mar, mareia / Vou de mar a mar, mareia, mareou / Iluminai o tambor do meu terreiro / Ô, santo padroeiro / O axé da Portela chegou”), uma bela e sofisticada costura que encadeia os temas do enredo, trabalho que credito ao excelente Toninho Nascimento, além de momentos de grande inspiração. Entretanto, algumas passagens, como “Sou carioca, meu jeito é de quem / Vem com sorriso do samba que a gente tem”, não está à altura de outras passagens, como vemos nos excepcionais refrões; ou em versos como “O teatro da vida não sai de cartaz”; ou, ainda, “O Rio sai da roda de jongo e vai desaguar / Na Glória de São Sebastião”, em que o jogo polissêmico entre Glória, o bairro, e a glória divina, a de São Sebastião, nos lembra dos tempos de antes do Aterro do Flamengo, nos recorda o romance Lucíola, de José de Alencar, na célebre cena descrita, a das águas batendo no paredão da Igreja da Glória, que, acredito, todos lemos no ensino médio e que é tão sublime quanto esses dois versos maravilhosos. Além disso, esses dois versos traçam pontes entre a geografia da cidade, simbolizada na Avenida Rio Branco, grande inspiradora do enredo, e os conteúdos religiosos, culturais, históricos, essenciais à própria compreensão do que seja um samba-enredo, do que caracteriza a ideia da festa carnavalesca, e a torna profana e religiosa, ao mesmo tempo, espécie de reza e ritual, o que Paulo César Pinheiro imortalizou na letra e na música que acabou sendo o segundo hino da Portela: “Portela na avenida”. Por tudo isso, sambas-enredo pensados, poetizados, talhados pelas mãos do grande letrista, extrapolam sua condição de música para desfiles de carnaval e se configuram verdadeiros mananciais de análise, estudo, de importância tamanha que, inclusive, podem ser levados aos bancos escolares dada a sua importância para a língua, a cultura e a pesquisa. E esse samba da Portela investe em tudo isso, possui essas qualidades. Ao invés do enfileiramento quase aleatório de frases que, infelizmente, vem marcando as produções atuais, a presença de uma voz, de um fio condutor, faz a diferença nos sambas portelenses dos últimos três anos.
Entretanto, se comparado com 2012 e 2013, como se disse, nosso hino se enfraquece. O recurso dos refrões, tão decantado, soa meio déja vu, e soluções poéticas admiráveis, que neste ano são de grande qualidade, no entanto, não são encontradas no todo da letra, ao contrário dos anos anteriores. E se a comparação deve ser realmente um parâmetro, por outro lado, os leitores podem argumentar que o cronista deveria se ater ao que hoje se apresenta, que passado é passado, mas no caso da Portela, escola de compositores extraordinários, a cobrança é sempre alta, o que considero uma força de nossa azul e branco. Pois se no quesito campeonato estamos há três décadas sem título, no mundo do samba somos indiscutivelmente a vanguarda, o manancial, encarnação do espírito da arte popular que emana das quadras do subúrbio e das zonas mais carentes de nossa cidade. Essa amálgama de cultura e tradição, de pesquisa poética e espontaneidade, talvez seja o samba o estilo musical que, com a maior dignidade, a resguarda, falando especificamente no caso do Rio de Janeiro, para não soarmos bairristas.

Voltando ao assunto, novamente sem querer criar polêmicas e já criando, se na comparação interna nosso samba fica em desvantagem, na safra que ora se apresenta se sobressai, e muito. É a única obra a manter acesas as chamas de Cartola, Paulo da Portela, Zé Kéti, Silas de Oliveira, Paulinho da Viola e de tantos outros artesãos do ritmo. Sem desrespeitar os compositores das escolas coirmãs, a busca por uma letra e uma melodia de grandes qualidades não invalida o caráter popular nem a performance da escola na avenida, vide os maiores clássicos do gênero, como “Aquarela Brasileira” (Silas de Oliveira); “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite” (Davi Corrêa e Jorge Macedo), “A lenda das sereias” (Vicente Mattos, Dinoel e Arlindo Velloso), dentre tantos outros. O que faz os sambas da Portela transcenderem o desfile é justamente esse caráter de procura da poesia e da melodia perfeitas, essa vontade de criar uma obra a partir de um casamento entre o que é popular e o que, ao mesmo tempo, faça justiça àquilo que o povo brasileiro e carioca, na sua sabedoria, criou de mais importante e sublime na esfera da arte, seja ela nacional ou popular: o samba. Isso mostra que as distinções feitas entre popular e erudito são falsas, pois a beleza de uma frase não está no gênero em que ela é apreendida, mas na qualidade e sinceridade daquilo que ela, como objeto, encaminha. O resto, podemos deixar para a posteridade, chamemos a isso de crítica, historiografia, opinião, paixão ou religião.
Habemus Samba! E que venha o Carnaval 2014, pois nossa largada foi muito bem dada. E que as musas de Oswaldo Cruz e Madureira continuem abençoando nossos compositores, iluminando os tambores de nosso terreiro. Muito Axé!

Avante, Portela!!!