VENTURA

Boaventura dos Santos, o Ventura, é um desses sujeitos icônicos que foram responsáveis por mais uma belíssima página da história da Portela. Nascido em 14 de julho de 1908, Ventura trabalhou como carpinteiro (profissão que também era a de Paulo da Portela) na fábrica da General Electric, em Maria da Graça. Sua voz também foi esculpida pelos deuses do samba em uma carpintaria divina. Carlos Monte e João Baptista M. Vargens nos contam que, junto com Alcides Malandro Histórico e João da Gente (João Rodrigues de Souza), Ventura foi um dos três “gogós de ouro da Portela”. Mas não só. O carpinteiro do ritmo foi responsável pelos sambas-enredo da Portela, em 1932 (“Carnaval da vitória”), 1945 (“Motivos patrióticos”), 1946 (“Alvorada do Novo Mundo”) e 1947 (“Honra ao Mérito”), sendo estes três últimos, parte do mítico heptacampeonato da azul e branco.

Ventura participou das primeiras apresentações da Velha Guarda da Portela. É dele o samba “Se tu fores na Portela”, cujos versos nos dizem: “Se tu fores na Portela/ Tudo encontrarás/ Alegria, tudo de bom, amor/ Ouvirás as nossas poesias/ E um turbilhão de melodias/ Desaparecem tuas mágoas, linda flor/ Ora, vem comigo, amor”. Ventura se apresentou com a Velha Guarda em outubro de 1970, na inauguração da filial da Livraria Diálogo, em Niterói, liderados por Paulinho da Viola, nesta que é tida como a estreia do grupo. Ventura participou das comemorações do cinquentenário da Semana de Arte Moderna de 22, em abril de 1972.

Sua morte, em 06 de maio de 1974, encerrou a participação breve no nascente grupo. Breve, porém, marcante, já que a Velha Guarda portelense é hoje reconhecida como uma das joias do carnaval carioca, da cultura e música popular brasileira.

A vida de Ventura, como a de tantos outros gigantes esquecidos da cultura carioca, foi pontuada por dificuldades financeira, tristezas e alegrias, mas essa é a aventura humana e, como todos nós, esse grande compositor e cantor imprimiu sua marca no mundo, a seu modo e a seu tempo. Pai de sete filhos, cantou o amor à escola do coração, as dores da vitória, da derrota e as vicissitudes da vida. Wilson Moreira, em “Portela e seus encantos”, interpreta emocionado: “Dá gosto a gente ouvir/ Faz lembrar os bons tempos da Jaqueira/ João da Gente cantava bem alto/ Tenho recordação do velho Ventura/ Paulo da Portela, Rufino, Caetano e seu Alcides já falavam/ Essa escola vai vencer”. Essa mesma escola representou o esplendor cantado por Ventura foi e é um lugar onde as mágoas de dor desaparecem: “Tudo na Portela é esplendor”, escreveu e entoou o poeta.

Ventura registrou no tempo e na história um período em que, para a Portela, vitória era “banalidade”, título de um de seus sambas, em parceria com Barbosa e registrado no álbum A vitoriosa escola de samba Portela: “Portela/ É despida de vaidade/ Vitória/ Pra Portela é banalidade/ É banalidade/ É banalidade/ É banalidade/ Vai na academia/ Procure rever a história/ Vais encontrar a Portela/ Com sete anos de gloria”.

Lindo passado de glória. Salve nosso Ventura, salve sua carpintaria refinada e sua voz de ouro, para sempre gravada em nossa história.

 

Fontes: Materiais diversos recolhidos em livros e na Internet
VARGENS, João Baptista M; MONTE, Carlos Monte. A Velha Guarda da Portela. 2. ed. Rio de Janeiro: Manati, 2004.