DONA NENÉM (Yolanda de Almeida Andrade)

 

São 92 anos devidamente completados em 19 de março de 2017. Yolanda de Almeida Andrade, a Dona Neném, ou ainda Tia Neném, para os portelenses, é dessas personagens que povoam a rica vida dos quintais de subúrbio, lugares que carregam, em seu corpo, em sua história, aquilo que Ferreira Gullar certa vez disse, com respeito à sua poesia, e que podemos estender à magia que ronda a vida dessa ilustre tia portelense: “A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas”.

Cada um de nós possui um quintal particular, que frequentamos desde a infância, e nesse quintal habitamos para sempre, pois ele nos acompanha, onde quer que estejamos. O chão desse quintal é a memória e as árvores frutíferas que o enfeitam carregam como frutos inúmeras histórias, amores, paixões. Em seu quintal, Dona Neném guarda um tesouro de memórias. Ela própria é a memória, ela é guardiã. Tia Neném faz parte dessa linha do matriarcado do samba, que tem origem em Tia Ciata e que teve continuidade nos terrenos de Oswaldo Cruz e Madureira, local mítico onde se construiu uma outra história do samba, que tem como norte a Portela.

Já se vão muitas décadas, desde 19 de março de 1925, quando essa Tia portelense nasceu. Ela desde cedo foi apelidada de Neném, pelo irmão Lincoln ((Lincoln Washington Pereira de Almeida, 1915-1987). Desde criança, a menina conviveu com a música dos intérpretes e compositores da Portela, como Paulo da Portela, com quem seu Lincoln costumava tocar violão em seu quintal, inclusive compondo sambas em parceria (Cf. verbete “Lincoln”, em nosso Majestosos). Dona Neném foi esposa de Manaceia (Manacé José de Andrade), cunhada de Mijinha (José Augusto de Andrade, nascido como Bonifácio José de Andrade) e Aniceto (Aniceto José de Andrade, mais conhecido como Aniceto da Portela). É mãe de Áurea Maria (Áurea Maria de Almeida Andrade). Deste modo, sua vida não poderia ser diferente: cercada de samba por todos os lados, ela fez de sua casa um celeiro de bambas, desde aqueles imemoriais, até os mais recentes sambistas que movimentam o trem da história portelense e do subúrbio.

Para além das comidas excelentemente preparadas, dos quitutes e da recepção calorosa, Dona Neném é uma mulher de fibra, que com sua força doce fez valer a tradição de amparo ao samba; que fez prosperar e crescer, no acolhimento, essa arte incomum e tão vilipendiada ao longo da história.

Uma palavra da moda na crítica filosófica de hoje é “afeto”, no sentido de afetar e deixar ser afetado. Zeca Pagodinho conta que foi afetado pela “gente boa” Dona Neném, cujo quintal frequentou, e onde aprendeu a arte do abraço, da amizade e do excelente samba azul e branco, com seu particular canto de terreiro, cujas donas são as tias portelenses. Alexandre Medeiros (2004, p. 79) diz, em seu excelente livro Batuque na cozinha, que Dona Neném é a alma do quintal. Seu chão remonta ao início dos anos 1930, quando sua mãe comprou um terreno em Oswaldo Cruz, com o dinheiro de um montepio, por conta da morte do pai de Dona Neném.

A menina de seis anos testemunhou a amizade de seu irmão Lincoln com Aniceto, irmão de Manacéia, que ela conheceria mais tarde – ela, aos dez anos, e Manaceia aos catorze anos. O namoro começou quando Dona Neném tinha 18 anos. O casamento se deu em 1951, e durou 44 anos, até a morte de Manaceia, em 1995.

No quintal da antiga Rua Dutra e Melo 58, hoje Rua Manacéa, foram criadas muitas das mais belas canções portelenses. É o caso de “Volta, meu amor”, composição que a filha Áurea Maria teve a “audácia” de mostrar ao pai, com uma segunda parte escrita pela filha debutante para uma antiga primeira parte feita pelo pai famoso.

O quintal de Dona Neném abrigou os ensaios da Velha Guarda da Portela e foi frequentado por Sérgio Cabral, Vicentina, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e, é claro, os bambas da Portela. Também em seu quintal foi filmado em parte o curta-metragem Partido-alto, de Leon Hirszman, além de ter abrigado o lançamento do primeiro disco da grande Dona Ivone Lara e dos “novos”, como Marquinhos de Oswaldo Cruz, cujo lançamento do CD contou com a participação dos bambas portelenses e de muita gente da Mangueira. Quanto a isso, Dona Neném nos dá uma aula de acolhimento: “É uma casa portelense, mas todos os amigos são bem-vindos” (MEDEIROS, 2004, p. 92). Esse é o espírito do afeto, da hospitalidade, da alma do quintal.

A idade, e com ela o cansaço, vão chegando e, é claro, Dona Neném já não dispõe do vigor de outrora. Mas deixemos com ela as últimas palavras dessa nossa homenagem a uma majestosa portelense, pronunciadas lá se vão mais de dez anos. E nós só temos o que admirar, agradecer e festejar: “Eu já estou cansada de fazer comida para tanta gente, mas a Áurea gosta muito e eu vou junto. Um bom pagode, sem comida, não tem graça. Comida e bebida. Não pode faltar. Enquanto tiver esse prazer de estar junto e Deus me der forças, eu continuo”.

Como se vê, só podemos agradecer a essa senhorinha iluminada, por sua passagem pela Portela, por Oswaldo Cruz, Madureira e pelo mundo.

Bibliografia consultada:
MEDEIROS, Alexandre. Batuque na cozinha: as receitas e as histórias das tias da Portela. Rio de Janeiro: Casa da Palavra; Senac Rio, 2004.

VARGENS, João Baptista M; MONTE, Carlos. A velha guarda da Portela. 2. ed. Rio de Janeiro: Manati, 2004.