CANDEIA

Antônio Candeia Filho, filho de Antonio Candeia e Dona Maria, veio ao mundo em 17 de agosto 1935 e dele se despediu prematuramente, aos 43 anos, em 16 de novembro de 1978, por conta de uma infecção renal. Candeia nasceu e morreu no Rio de Janeiro, onde imprimiu sua marca como um dos maiores compositores e defensores do samba. Seu pai era flautista, tipógrafo e integrou comissões de frente de escolas de samba. Candeia cresceu em meio às rodas de samba que seu pai promovia e que eram frequentadas por Paulo da Portela, Claudionor e João da Gente, dentre muitos outros. Candeia cedo aprendeu a tocar cavaquinho e violão. Nas rodas de samba em casa de Dona Ester, no mítico bairro de Oswaldo Cruz, travou amizade com vários compositores. Frequentava os terreiros de Candomblé e rodas de capoeira. Aos 13 anos, o menino já compunha, e pouco tempo depois via seu primeiro samba-enredo, “Seis datas Magnas”, em parceria com Altair Moreno, levar a Portela ao campeonato de 1953, quando contava apenas com 18 anos. O samba, que levou nota máxima, acompanhou o restante dos quesitos e a escola não perdeu um ponto sequer naquele desfile.

A vida de Candeia se bifurca quando entra para a Polícia Civil, aos 22 anos, em 1957. Lá, cumpriu a função de investigador e dividiu suas atenções entre o samba e o trabalho policial. Ficou paralítico por conta de cinco tiros que quase lhe tiraram a vida, em 1965, e o afastaram da profissão. Logo depois, Candeia se dedica somente à composição, ao samba, tornando-se não só o artista genial de tantas obras, mas também um incansável defensor da cultura popular, da negritude e do ritmo que o consagrou. Além disso, abraçou as lutas de sua gente humilde, especialmente as de seus irmãos de cor e de samba. Escreveu, em parceria com Isnard, a importante obra Escola de Samba: a árvore que esqueceu a raiz. Na apresentação da obra, Sérgio Cabral dizia que a vontade de Candeia de “contribuir com sua gente ultrapassa até os limites do grande compositor que é”. Sábias palavras, pois Candeia foi um lutador, um dos fundadores do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, junto com Nei Lopes, Wilson Moreira e Mestre Darcy do Jongo, em 08 de dezembro de 1975, escola que tinha a resistência cultural como bandeira.

Candeia foi tema de dois documentários de longa-metragem, Eu sou o povo!, de Bruno Barcellar, Luís Fernando Couto e Regina Rocha e É Candeia, dirigido por Márcia Waltzl. Sua vida foi levada ao palco do Centro Cultural Banco do Brasil, em 2008, com a peça É samba na veia, é Candeia, de Eduardo Rieche, atraindo um público de mais de 5 mil pessoas.

Em 2011 foi finalizado o documentário "Candeia - Sangue, Suor e Lágrimas", dirigido por Felipe Nepomuceno. Neste mesmo ano, sua filha Selma Candeia (Presidente do Grêmio Recreativo de Artes Negras Quilombo) deu início à pesquisa de um livro sobre o compositor, trabalho no qual vários familiares e amigos prestaram entrevistas sobre o sambista.

A obra de Candeia pode ser conferida a partir do álbum Candeia (1970), seu primeiro trabalho. Neste trabalho, Candeia homenageia a Portela com o samba “Dia da Graça”, considerado uma das grandes homenagens à escola de Oswaldo Cruz e Madureira, cujos versos dizem: “Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)/ As escolas vão desfilar (garbosamente)/ Aquela gente de cor com a imponência de um rei/ Vai pisar na passarela (salve a Portela)/ Vamos esquecer os desenganos (que passamos)/ Viver a alegria que sonhamos (durante o ano)/ Damos o nosso coração, alegria e amor/ A todos sem distinção de cor/ Mas depois da ilusão, coitado/ Negro volta ao humilde barracão/ Negro acorda, é hora de acordar/ Não negue a raça/ Torne toda manhã dia de graça”. Era Candeia no seu melhor momento, cantando sua escola e o povo sofrido, aos poucos relegados à coadjuvante nas escolas, nos desfiles e na vida da nação.

Em 1971, Candeia lança seu segundo álbum, Raiz. Em 1975, com Samba de roda, apresenta seu terceiro trabalho. No mesmo ano, participou de Partido em 5, álbum dedicado ao partido-alto, arte que Candeia dominou como poucos. O ano de 1975 também marcaria o desacordo de Candeia com os caminhos da Portela. Criticando duramente a então direção da escola, ele apresentou propostas para que a agremiação não se desviasse de seus objetivos iniciais, o que sequer foi discutido pela direção da Azul e Branco. Por conta disso, Candeia funda, com outros sambistas, a Escola de Samba Quilombo, voltada para as raízes culturais brasileiras. Inegavelmente, Candeia foi um dos maiores compositores da Portela e uma das figuras mais expressivas da escola, de todos os tempos.

O álbum Quatro grandes do samba, de 1977, reuniu Candeia, Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Elton Medeiros em gravação memorável. Luz da inspiração, quarto trabalho solo, foi lançado também em 1977 e foi entrecortado por canções que tinham como tema a identidade cultural do negro no Brasil. Neste produtivo ano, Candeia pretendia escrever o livro Escola de Samba: árvore que esqueceu a raiz com Paulinho da Viola, mas o projeto só seria levado adiante com Isnard de Araújo e a obra, hoje, é um clássico.
Por conta de sua paralisia, Candeia foi internado em 1978 com problemas nos rins, mas se recusou a continuar o tratamento. Naquele ano, lança finalmente o livro com Isnard e finaliza a gravação de Axé: gente amiga do samba, seu quinto e último álbum. Candeia morre em uma manhã de quinta-feira do dia 14 de novembro de 1978, sem ver o lançamento do álbum que foi aclamado como dos mais importantes da história do samba.

Candeia é mais um destes personagens míticos, que marcou profundamente a constelação portelense, o mundo do samba e a cultura das áreas periféricas, especialmente dos subúrbios. Candeia teve uma vida de momentos marcantes, de mudanças radicais e espetaculares, pontuada pela luta em favor da cultura ameaçada das escolas de samba e das matrizes negras do Brasil. Candeia permanece até hoje (e permanecerá) como uma dos maiores baluartes da Portela e sua história ainda está para ser descoberta e/ou reavaliada e revigorada pelas atuais e futuras gerações.