Benício da Rocha (Mestre-sala)

O destino nos apanha na contramão, nos surpreende e nos levanta do chão. Esse majestoso bailarino negro não seria homenageado por agora, mas quis o destino que ele fosse, hoje, bailar no céu azul e branco, levando consigo sua arte, imortalizada na dança mais emblemática do carnaval, aquela que guarda com orgulho o pavilhão da escola. 06 de dezembro de 2017 marca a despedida de Benício da Rocha, o lendário Mestre-Sala Benício da Portela, cujo bailado, ao lado de Vilma Nascimento, riscou o chão das passarelas e ajudou a perpetuar essa forma única de arte.

Benício da Rocha nasceu em 15 de julho de 1933, dois anos antes, portanto, do primeiro campeonato da Portela, em 1935. Sua carreira se iniciou no G. R. E. S. Unidos da Congonha, escola hoje extinta e que foi berço de muitos bambas, que inclusive ajudaram a formar a vizinha Império Serrano, onde Benício dançou como Mestre-Sala, já na década de 1950.

É de se destacar que Vilma, então Porta-Bandeira da União de Vaz Lobo, havia convidado o primo, à época Mestre-Sala do Império Serrano, para participar, no início dos anos 50, de um concurso de Mestres-Salas e Porta-Bandeiras no programa do famoso radialista Zé da Zilda, no qual a dupla se sagrou campeã por algumas vezes.

Mas foi a partir da década de 1960 que Benício brilhou. Levado para a Portela pelas mãos de Natal, foi dançar com sua prima, Vilma Nascimento, formando uma das parcerias mais importantes e famosas do carnaval carioca. Nas décadas de 60 e 70, Benício e Vilma brilharam. Foi a pedido da prima que Natal trouxe para Portela o “Domício”, como o chamava, confundindo o nome de Benício, nos conta Aydano André Motta (2013, p. 88). Formaram uma dupla campeã, vitoriosa nos anos 1962, 1964, 1966. Benício e Vilma dançaram juntos também em 1977, 1978 e 1979.

Segundo as palavras de sua eterna companheira de dança, Vilma Nascimento, Benício “foi um excelente mestre-sala, meu grande parceiro. Cortejava a porta-bandeira com muita classe e elegância. A gente se conhecia pelo olhar. E o melhor: era da minha altura. Foi o único que arrumei que tinha mais ou menos a minha altura. Todo mundo na Portela gostava dele. Era uma pessoa brincalhona e muito divertida. Além de ser meu primo, foi criado comigo. Depois, foi muito amigo do meu marido (Mazinho, filho de Natal). É uma grande perda! Mas quero lembrar dele sempre com alegria", lamentou a Porta-Bandeira.

Segundo a família, Benício morreu dormindo. Nos últimos tempos, vinha tendo problemas de saúde, por conta da diabetes.

Benício figura na galeria dos grandes majestosos e sua memória deve ser honrada por futuras gerações de sambistas e dançarinos. Essa arte única, Benício a defendeu com maestria. Viva o mestre, e que esteja agora bailando em paz, no eterno descanso.

Bibliografia consultada:

DINIZ, André. Almanaque do carnaval: a história do carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Prefácio de Hermano Vianna. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

______. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 2. ed. rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2017/12/06/morre-o-lendario-mestre-sala-benicio-parceiro-de-vilma-nascimento/

MOTTA, Aydano André. Porta-Bandeiras: onze mulheres incríveis do carnaval carioca. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2013.