O que adianta fazer regulamento? Então não faz

Por Luis Fernando Reis

 

Esse anúncio do não descenso da Grande Rio e do Império Serrano nos causa uma estranheza muito grande. Uma estranheza e um desânimo também muito grande com o Carnaval carioca. Eu acho que uma festa como a nossa precisa, antes de tudo, ter credibilidade.

 

 

 

E no momento em que, mais uma vez, pelo segundo ano consecutivo, o regulamento é rasgado, é totalmente desprezado, a gente cria aquela situação de impotência, de perplexidade mesmo pelo que está acontecendo.

 

Será que os dirigentes não estão percebendo que é um tiro do pé atrás do outro? Ano passado, não desceu ninguém; primeiro tiro no pé. Depois, a vitória da Mocidade; o segundo tiro no pé. E agora mais esse terceiro tiro no pé, que eu já acho até que é um tiro de canhão no pé.

 

Então, o samba começa a perder aficcionados. As pessoas que gostam começam a se desmotivar, a perder a empolgação com o Carnaval. Se esse ano nós tivemos 90% de lotação no sambódromo, eu não duvido que ano que vem nós temos 80%, 70%, ou seja, o interesse do grande público começa a desaparecer.

 

Um quarto tiro no pé foi não ter ensaio técnico. A Liesa e as escolas como um todo não estão sabendo administrar, gerir o Carnaval carioca. Elas têm um produto maravilhoso, que o mundo todo admira, que nós todos admiramos, e elas estão relegando esse produto a um segundo plano. Decidem o que eles querem, a hora que eles querem. E o que nos magoa muito é a gente perceber, por exemplo: se caísse o Império Serrano e a São Clemente? Se caísse Império Serrano e União da Ilha? Ou União da Ilha e São Clemente? Nada disso estaria acontecendo. As escolas teriam ido para a Série A, sem nenhum comentário, sem nada demais.

 

Esse corporativismo das escolas de samba está levando-as para o buraco. Como um investidor, por exemplo, um empresário, vai ter interesse em investir num Carnaval que acaba em pizza? Que é tudo na verdade uma grande brincadeira…

 

E a figura do julgador, que tem um trabalho, tem uma responsabilidade, estuda tudo aquilo, pega um calhamaço de um livro abre-alas que é gigantesco… e ele vai, julga com seriedade, tentando fazer a diferenciação entre as escolas e, no final, não cai ninguém.

É um erro em cima de erro.

 

Estava vendo as escolas e a Liesa muito quietinhas, muito caladas. Imaginei que nós teríamos, finalmente, o cumprimento do regulamento. Mas, infelizmente, ele foi jogado, mais uma vez, no lixo.

 

Uma situação que me incomoda muito: imaginemos a cabeça do julgador. Ele está presenciando o que está acontecendo. E na cabeça dele, já rola o seguinte: peraí, eles não derrubam escola grande. A escola do esquema deles, eles não derrubam. Então, ano que vem, se esse julgador estiver julgando, por exemplo, a Grande Rio, ele vai lembrar que a escola não desceu esse ano por um corporativismo da Liesa e das escolas. E o julgador, em vez de dar um 9,8, de repente ele dá um 9,9 ou 10, porque ele sabe que essa escola é imexível. Ou seja, você cria um círculo vicioso perigosíssimo para todo o Carnaval.

 

É triste, fico muito desanimado. A gente luta tanto por isso, pela seriedade, pelo regulamento. O que adianta fazer regulamento? Então não faz.

A gente vê a situação que deve ser conversada daqui para frente da ordem dos desfiles. A Viradouro está lá com o mérito próprio, a São Clemente ficou por mérito próprio no Grupo Especial e, de repente, a São Clemente abre em um dia e a Viradouro em outro dia. E as duas que não desceram, que estão, digamos, “por favor”, elas vão poder escolher de repente o dia. Eu não gosto deste rasgar regulamento. Já rasgou uma vez, vamos rasgar de vez.

 

Então, sinceramente, é desalentador. A gente perde a vontade, perde o pique, fica desanimado. Inclusive nós, que fazemos parte da mídia carnavalesca, ficamos muito tristes porque as pessoas são incapazes de ouvir o que a gente fala. A gente serve para que? Para premiar, nos desgastar, ficar quatro dias na Avenida, cinco dias com o Sábado das Campeãs, analisando, debatendo o Carnaval, trocando informações e eles depois mudam tudo o que a gente falou. Não adiantou nada a gente falar, analisar. Eles acabaram com tudo isso.

 

Eu fico muito triste, muito desanimado. Espero que um dia as escolas percebam as bobagens que elas vêm fazendo direto. É um tiro no pé atrás de outro. Só que esse tiro está pegando em alguém, que é no público que gosta, que é apaixonado pelas escolas de samba. Lamento profundamente esta decisão da Liesa e vejo que o nosso Carnaval que a gente gosta tanto está cada vez mais perdendo credibilidade.

Fonte.:  SRZD