Ensaio técnico de luz e som é marcado por protestos e muita vibração

André Camargo
Jornalista do Grupo Portelamor

“Eu não tenho marca de chicotes nas minhas costas, eu posso falar. Não tirem mais os ensaios
técnicos do povo carioca. Não nos prive de uma das poucas alegrias que esse Rio triste pode nos
proporcionar”. A fala de Alcione, primeira artista a falar – e protestar – contra a situação do carnaval
carioca na era Crivella, deu o tom da festa, que contou com emocionada interpretação da cantora
para um de seus maiores sucessos, “Não deixe o samba morrer”. O povo reagiu com vaias à
Prefeitura e em seguida acompanhou a cantora no samba-lamento.


A tradicional lavagem da pista ficou entre o solene e o alegre, conforme o clima da noite. As baianas
deram o tom religioso, de rememoração e respeito pela ancestralidade afro-brasileira, de que o
samba é herdeiro. As homenagens a São Sebastião, padroeiro do combalido Rio de Janeiro, foi um
dos pontos altos da lavagem.

O aspecto geral do Sambódromo traz a impressão de abandono e atraso nas obras. Setor de frisa
inteiro sem nenhuma cadeira podia ser visto do setor 7, que aliás, estava imundo. Banheiros
igualmente malcuidados e um banheiro feminino às escuras podiam ser vistos no setor. Antes do
início do ensaio da Mocidade, o som já apresentava defeitos, o que motivou um atraso de meia hora
no início do desfile. Ao anunciar ao público as falhas no som como motivo do atraso, o vice-
presidente da Mocidade, Rodrigo Pacheco, motivou mais uma sonora onda de xingamentos
impublicáveis ao prefeito Marcelo Crivella. O ensaio da Mocidade se deu sem maiores problemas, a
não ser pelo do som da avenida, que seguia péssimo, para os ouvintes e para a escola.

Em seguida, a Portela entrou na avenida, já dizendo a que veio. Com suas apaixonadas torcidas, seis
ao todo, que ocupavam os setores 2, 3, 4, 5, 6 e 7, teve seu desfile consagrado pelo canto das
arquibancadas e frisas. A escola abraçou o samba, cantando a plenos pulmões. Gilsinho, intérprete
oficial da Azul e Branco, deu conta do recado e se mostrou restabelecido do acidente sofrido. A
evolução da escola foi perfeita e dois grandes destaques foram o casal de Mestre-Sala e Porta-
Bandeira e a bateria, com suas bossas impecáveis. Lucinha Nobre e Marlon Lamar bailaram
impecavelmente na avenida. Já a bateria de Mestre Nilo Sérgio, Estandarte de Ouro em 2010, 2012 e
2013, mostrou a que veio, com suas bossas impecáveis, deixando algumas surpresas para o dia do
desfile oficial.

Com o peso de sua tradição e o aval das 22 estrelas conquistadas, a Portela mostrou que veio para
brigar pelo bicampeonato. Comandando seu barracão, a carnavalesca Rosa Magalhães, sete vezes
campeã, promete surpreender no desfile oficial. Era presença ilustre na avenida. Além do ensaio
impecável, a escola prestou homenagem aos sambistas das demais escolas que não puderam ensaiar
devido ao cancelamento dos ensaios técnicos. Cada elemento que representava as alegorias
portelenses trazia o pavilhão das escolas do grupo especial que ficaram de fora dos ensaios.
Suas apaixonadas torcidas deram um show à parte e o Grupo Portelamor esteve presente, como
sempre, acompanhando e torcendo por sua escola. Ao final do desfile, a sensação era de dever
cumprido, apesar de, até o fim da noite, o som da Marquês de Sapucaí ter torturado o ouvido dos
presentes.

Fonte.:  Portelamor