Sérgio Procópio

Sergio Procópio da Silva, mais conhecido pelo nome artístico, Serginho Procópio, nasceu em 1967, no Rio de Janeiro e é o atual Presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Candidato da oposição eleito em 2013, desde então, Serginho Procópio vem conciliando sua carreira de artista com a missão de liderar uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro. Músico, cantor, compositor, com inúmeros sambas gravados, por ele mesmo e por outros sambistas e membro da tradicionalíssima Velha Guarda da Portela, Serginho nos honrou com essa entrevista, na quadra-sede da Portela.

Portelamor: Serginho, em primeiro lugar, em meu nome e em nome da Torcida Portelamor eu gostaria de te agradecer por essa honra, por esse privilégio de conversar com você. 

Serginho Procópio: O prazer é todo meu, estou aqui à disposição e vamos lá, conversar. 

Portelamor: Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer um pouco mais da sua biografia, da sua história, onde você nasceu, onde viveu sua infância, como foi sua chegada na Portela. 

Serginho Procópio: Nasci em Jacarepaguá, mas fui morador de Marechal Hermes, no subúrbio, ali na Rua Alexandre Gasparoni. Minha infância, minha juventude foi toda lá. Só saí de Marechal Hermes quando casei, e hoje em dia moro em Bangu. Meu vínculo com a Portela vem de muito pequeno, “se bobear”, acho que antes de eu nascer. Estava predestinado: “aquele ali vai ser portelense, vai lá que você vai nascer portelense”, diziam. E assim foi. Meu pai já tocava na Portela, era o cavaquinho da escola e também foi convidado pelo Paulinho da Viola a integrar a Velha Guarda, era o cavaquinista da Velha Guarda. Meu convívio com a Portela vem desde pequeno, ouvindo os compositores que frequentavam minha casa, até mesmo para fazer fita, porque não eram tantas as pessoas que tocavam cavaquinho naquela época. E eu cresci vendo, desde pequeno, seu Alvaiade, que era meu vizinho, em Marechal Hermes, ele sempre passava lá, sempre chamando meu pai. Então, meu convívio com a raiz da escola vem desde pequeno. Minha infância foi praticamente “regada” a isso. Meu pai também tocava com Candeia, que era compositor da escola. A gente ficava, eu e meus irmãos, praticamente, sempre na casa do Candeia. Meu primeiro cavaquinho eu ganhei das mãos do Candeia. Não que seja um ótimo cavaquinho, aquilo era para mim mais uma brincadeira, não era aquela coisa profissional. Hoje em dia quando falo disso, as pessoas dizem: “você ganhou um cavaquinho do Candeia!” Para a gente naquela época era uma coisa tão normal, o convívio com essas pessoas. A gente não sabia o que no futuro o Candeia viria a simbolizar, o que viria a significar. Meu avô por parte de pai também era compositor de chorinho, andava com Pixinguinha, com aquele pessoal da Velha Guarda do Choro. Ele tem choro gravado, inclusive um dele, muito famoso, gravado, que é o “Gadu namorando”. E o meu avô por parte de mãe também era músico, por incrível que pareça. Ele tocava violão, cavaquinho. Ele era de Miguel Pereira, a família de minha mãe era de lá, e meu avô era responsável pela Folia de Reis [1]. Minha mãe dizia que o pessoal falava: “vem a Folia do Tião Costa aí”. As pessoas tinham muito respeito pela Folia de Reis do meu avô. E assim foi minha vida. Eu tenho esses dois elos, da parte da minha mãe e da parte de meu pai. Eu tenho outros irmãos, um que é compositor, outro que arranha o cavaquinho, mas acho que esse dom acabou ficando para mim. E também eu gosto, não é só um dom, porque se você não manifestar isso, o dom acaba ficando quieto num lugar. E eu manifestei isso desde pequeno, desde pequeno eu sempre gostei de música, sempre, sempre. Me lembro de sempre ter um cavaquinho na minha vida. Daí vem a minha linhagem musical.

Portelamor: O seu contato com a música vem desde há muito. O seu avô, Laudelino Procópio, seu pai, o grande Osmar do Cavaco, foram figuras históricas no mundo do samba, do choro. Como você vê o seu trabalho de músico e compositor e qual a herança que recebeu desses mestres?

Serginho Procópio: Olha, do meu avô, recebi a herança física, pois eu me pareço muito com ele, e a composição. Meu pai não era compositor, era músico, tem poucas músicas feitas, praticamente não era compositor. Mas na maneira de tocar, e de tocar a vida, também, eu acho que me assemelho muito a meu pai.

Portelamor: Fale um pouco da sua carreira como músico e compositor.

Serginho Procópio: Como compositor eu tenho mais de 200 músicas gravadas, com grandes nomes da MPB: Agepê, Zeca Pagodinho, toquei com Agepê durante muito tempo, já gravei músicas com Beth Carvalho, com o próprio Zeca Pagodinho, Neguinho da Beija-Flor, Fundo de Quintal, Reinaldo, por aí vai... Com um montão de gente e grupos. Como compositor eu comecei a fazer música desde pequeno, mas sem pretensão, só brincando. Depois de algum tempo é que eu fui me mantendo mais profissionalmente nisso, fui perdendo a timidez, de mostrar minha música para alguém. Minha primeira música foi gravada pelo Zeca Pagodinho, em parceria com ele. E aí foi... A música sempre me pegou desde cedo, estava sempre com um cavaquinho. Eu fui seminarista, estudei para ser padre, dois anos e meio no seminário, e onde eu estava tinha uma violinha espanhola. Eu tirei umas quatro cordas dela e fiz um cavaquinho. Até nas missas de Ação de Graças eu cantava. Lembro que cantava um samba de Luiz Carlos da Vila, que foi inclusive enredo da Viradouro [Cantarola um trecho], “um dia meus olhos ainda hão de ver / na luz do olhar do amanhecer” [Trata-se do samba “Por um dia de graça”]. Quando saí do seminário, freqüentei as rodas de samba junto com meu pai, já arranhando o cavaquinho. Meu pai dizia: “Meu filho vai tocar”, e eu ficava sem graça. Ele me botava para tocar e às vezes eu não sabia a música e ficava sem graça. Mas ali fui surgindo. Depois eu tive oportunidade de estudar música, com Paulão 7 Cordas, maestro da banda do Zeca, que nunca me cobrou um tostão para me dar aulas. Eu tenho o Paulão dentro do meu coração, com o maior carinho. Pessoa importantíssima no mundo do samba e na minha vida, principalmente. Eu, garoto de subúrbio, pobre, queria aprender, não sabia como e não tinha como pagar e ele me deu aula, de graça, foi o primeiro professor que eu tive. Uma pessoa muito generosa. Paulão é assim, grandão, forte, um coração muito grande. Depois tive oportunidade de estudar em outros lugares. Comecei a tocar, fazia parte da Banda Mistura Brasileira, do Agepê. Depois foram aparecendo outros lugares para tocar, as pessoas foram me chamando. Assim, o músico Serginho Procópio começou a aparecer, antes do compositor. Depois, como tive essa facilidade de tocar, foram aparecendo oportunidades de mostrar minhas músicas, também. Comecei com Zeca Pagodinho, com “Mafuá de Iaiá”, primeira música que eu gravei; depois o “Talarico”, a segunda música que eu gravei, que foi um sucesso [as duas foram e são um sucesso]. Apareceram outras oportunidades de eu mostrar músicas, pessoas pedindo músicas, como a Jovelina [Pérola Negra], com quem tive oportunidade de gravar a música “Antes do fim”, no último disco dela. Eu falava muito com ela, no telefone. Um dia antes de ela falecer, eu liguei para ela e ela falou que queria fazer uma música, é até engraçado, chamada “Coxinha de galinha sem varizes”, nunca mais esqueci disso. No dia seguinte estou vendo a jornal e anunciaram o falecimento dela. Foi triste para mim e para todo mundo, aliás. E assim fui seguindo a minha vida, o compositor aparecendo mais do que o músico. O samba teve uma época de auge e as pessoas foram me pedindo músicas, fui gravando e fazendo, tendo mais parceiros, até de fora do samba, como o Ronaldo Bastos [parceiro de Milton Nascimento], que tem uma história com o “Clube da Esquina”, de que eu também sou muito fã. Durante a minha juventude assisti muito show do Beto Guedes, Lô Borges, Flávio Venturini, 14 Bis, sou fã até hoje. Mesmo porque na época em que frequentava a igreja católica, a gente tocava muito essas músicas no violão, frequentava o show desses artistas, quando vinham para o Rio. Além de gostar de samba, sempre gostei de ouvir todo tipo de música. Vou ao show deles até hoje. Assim, minha carreira musical foi surgindo, naturalmente.

Portelamor: Em uma entrevista concedida à Torcida Portelamor, em 2014, a cantora Dorina nos disse que a Portela tinha o privilégio de ter um Presidente de Honra como Monarco e um Presidente como Serginho Procópio, principalmente por ambos serem, além de portelenses de coração, grandes sambistas. Como você concilia essas duas funções?

Serginho Procópio: Primeiramente, é uma honra ser citado pela Dorina, grande cantora da MPB. Agora, num primeiro momento não foi fácil. Muita coisa para organizar, estávamos formando uma equipe. A música, no primeiro momento, ficou mais de lado. Mas depois da equipe praticamente formada ficou mais fácil para a gente trabalhar, eu fiquei mais livre. Eu nunca deixei de ser músico, nunca deixei de ser compositor, continuo cantando, tenho um CD, sou cantor também, não posso deixar de fazer isso, isso é minha vida. Eu estou Presidente, mas um dia não serei mais. E tenho que tocar minha vida, minha carreira. Agora já estamos no segundo ano para o terceiro, a gente já sabe das peças que aqui estão, uma ou outra peça da escola a gente troca, mas a essência está ali.

Portelamor: Em que momento você cogitou disputar a presidência da Portela? Pode nos contar como foi esse processo?

Serginho Procópio: Eu não gosto muito de falar de outras gestões. Mas, praticamente, na gestão do Nilo Figueiredo foi uma época em que a Portela mais se afundou. A parte mais triste da escola foi nessa época. Primeiro, os sambas tinham sempre uma “armação” para serem escolhidos. Eu era compositor da escola, concorria com samba com a quadra inteira esperando dar um resultado e dava outro resultado. Isso aconteceu até mesmo comigo [Nesse momento, pergunto se posso transcrever essas passagens e Serginho autoriza]. Um dos sambas que eu fiz aqui, a quadra toda queria o samba, a escola toda queria e veio outro resultado. Daí eu falei que não mais competiria, achei que havia muita falta de respeito. E eu tive a oportunidade de dizer isso a ele [Nilo Figueiredo], diretamente, estavam sentados na mesa o Nilo, Falcon [Marcos Falcon, atual Vice-Presidente da escola], Marcelo Jacob, o Alex Wagner e eu mesmo. Falei que o que ele estava fazendo com a escola era uma vergonha. Daí, já não participei mais. Eu acho que fui um dos últimos a aderir à campanha de oposição, mas sempre protestava no Orkut. E eu fazia parte da Velha Guarda quando ela decidiu se afastar da Feijoada [tradicional festa mensal portelense, que acontece no primeiro sábado de cada mês], pois ali estava havendo também falta de respeito. Decidimos parar com a feijoada. Hoje em dia, a feijoada é um espetáculo para o Rio de Janeiro. Nós começamos isso, a Velha Guarda, com Marquinhos de Oswaldo Cruz, ainda na época do Carlinhos Maracanã. Logo no início, quem viesse com a camisa da Portela não pagava entrada, para chamar os portelenses de volta.

Portelamor: Desculpe te cortar, mas lá no campinho [famosas feijoadas mensais de domingo que aconteceram em 2013, organizada por Marcos Falcon e sua equipe, que costurou o movimento de oposição e congregou diversos portelenses descontentes com o rumo da escola,] isso foi um pouco reeditado.

Serginho Procópio: É verdade. E assim foi. No último carnaval da gestão do Nilo, o Falcon me ligou. Na realidade eu não queria ser Presidente. Algumas pessoas não quiseram ser e nós propusemos ao Monarco ser o Presidente, mas ele disse que já estava com idade, tinha a carreira dele, não poderia ficar ali direto, então nós o convidamos para ser nosso Presidente de Honra. Até que Falcon se reuniu com a equipe formada eles me convidaram para ser candidato à Presidente. Eu fiquei meio reticente. Não entendia de administração, tocava minha vida através da música, através da Portela, que é uma paixão que eu não sei de onde vem. Tocava minha vida moldada nisso, mas sempre com muita dignidade. Mas cheguei à conclusão de que se a gente quisesse mudar alguma coisa teria que ser naquele momento. E eu não podia dizer não a nossa nação portelense. Aceitei, fomos para a campanha, batalhamos e conseguimos chegar. Agora, nunca estive sozinho, graças a Deus. Muita coisa estou aprendendo. Na realidade, sou músico e compositor, administrativamente estou aprendendo, mas tenho pessoas competentes do meu lado e isso é importante, o que faltou à outra administração: ter pessoas com a cabeça voltada para o que é certo. A gente sabe que a Portela quase acabou, naquela época.

Portelamor: Nesses dois anos sob nova direção, a escola se transformou. Que principais avanços você destaca e quais os maiores desafios enfrentados?

Serginho Procópio: Os maiores desafios foram as dívidas. Todo mundo sabe que herdamos uma herança maldita de quase 14 milhões de Reais, ou mais, desde salários de funcionários, barracão, tudo. Acho que se a gente não conseguisse entrar nessa gestão a Portela desceria e não teria condições de subir. Devia o maior fornecedor de material do Carnaval, o Babado da Folia, 900 mil Reais. Não é fácil. Para a gente conseguir fazer um carnaval, tornar a escola competitiva e pagando as dívidas custou muitas noites de sono, pensando no que fazer, parcela daqui, parcela dali, e os credores entenderam que era melhor receber “pingado”, sabendo que vai receber, do que não receber nada. E foram esses acordos que fizemos. E apareciam também pessoas cobrando coisas que não eram comprovadas. Então, dizíamos, “comprovem”. Não iríamos pagar nada que não fosse comprovado. Trabalhos muito. Num primeiro momento, nosso pensamento sempre foi reerguer a escola e torná-la competitiva. E eu acho que nesse primeiro ano conseguimos mostrar já que a Portela estava mudando, chegamos em terceiro lugar...

Portelamor: E brigando pelo primeiro...

Serginho Procópio: Isso, brigando pelo primeiro, de forma muito honesta. Com os recursos que chegavam pagávamos uma conta e investíamos no carnaval. Não sei como era feito antes, não posso falar, o que eu sei é que ficou um rombo grande, mas da nossa maneira pagamos nossas contas, que não herdamos, e fizemos nosso carnaval com tudo pago. Não vencemos, mas mostramos que a Portela mudou, que a Portela agora é competitiva. O portelense passou a acreditar. Nesse segundo ano, tentamos de tudo, investimos pesado nesse carnaval, o portelense aderindo mais à escola, vendo as mudanças, as obras, as coisas que a gente fez, justamente para abrilhantá-la. A escola estava triste, mal pintada, e agora a escola parece que está sorrindo. Colocamos uma águia aqui na porta, uma coisa tão simples, mas que dá vida à escola, como uma pintura na parede. É o carinho que se tem. Nesse segundo ano perdemos para nós mesmos, mas são coisas que acontecem na hora, não temos como prever. A nossa Águia arrebentou, quando se falar do carnaval 2015 vão lembrar da águia da Portela, vai ficar um marco, eterno, vão falar da Águia Redentora... Dos paraquedistas. Só a Portela mesmo. Impactante. [Em nome da Torcida, parebenizo o entrevistado pelo desfile].

Portelamor: O que ainda falta realizar, além, claro, do tão esperado campeonato?

Serginho Procópio: Queremos o campeonato, nossa capela está quase pronta. Queremos colocar mais eventos que façam o portelense mais feliz e que a gente possa com eles arrecadar fundos para a escola, para que possamos pagar as coisas e investir melhor no carnaval. É esse nosso pensamento, ter projetos que sejam os melhores para escola, tudo o que for melhor para a escola. Não nos desfazendo de outros carnavalescos, tivemos o Alexandre Louzada, que nesses dois anos foi maravilhoso, também [Serginho se adianta em relação à próxima pergunta]. Este ano estamos com o Paulo Barros, que é também um ótimo carnavalesco. Muita gente falou que ele não tinha muita coisa a ver com a Portela, que é uma escola muito tradicional, e o Paulo Barros é moderno, mas esquecem que a Portela foi a que mais modernizou o carnaval, conceito de alegoria, comissão de frente. O Paulo Barros está na escola certa, tem tudo a ver com isso aí.

Portelamor: A Portela tem tido uma mídia excepcional, tem sido notícia no mundo do samba e, neste momento, ela volta ao noticiário com a entrada do carnavalesco Paulo Barros, substituindo Alexandre Louzada. Como você avalia o trabalho feito pelo Louzada e quais as suas expectativas em relação à entrada do Paulo Barros?

Serginho Procópio: O trabalho do Louzada foi maravilhoso, muito bem feito e a gente agradece muito a ele, todo portelense sabe, foi visto. Mas o Louzada segue a vida dele e a Portela segue a vida dela. E o nosso novo carnavalesco é o Paulo Barros, de quem a gente espera que faça um carnaval também competitivo, bonito. As duas coisas estão unidas ali: a tradição da Portela e essa jovialidade do carnavalesco Paulo Barros, de enxergar as coisas de uma outra maneira. São coisas que se encaixaram bem. E sou fã do “cara” e só tenho a torcer para dar tudo certo, todos nós estamos esperando isso.

Portelamor: Serginho, o que é a Portela hoje? Como você avalia a estrutura atual da escola, os projetos, presentes e futuros, a saúde financeira da agremiação?

Serginho Procópio: É nossa obrigação deixar uma escola competitiva, quando terminar nossa gestão, quando sairmos. Deixar para essa rapaziada nova que está surgindo uma escola bonita e competitiva, que saiba tratar bem os que por ela passaram, mas que tenha um olhar para o futuro, um olhar de águia, de lutar por aquilo ali. Queremos deixar uma boa estrutura para os que virão, para os que vão nascer ainda. Um dia isso tudo vai ser falado. A gente passa e a escola fica. Passaram outros, passou Natal, passou Paulo da Portela, passou Candeia, tanta gente boa já passou e nós vamos passar, mas o que nós fizermos de bom vai ser lembrado, de bom ou ruim, e a gente quer ser lembrado da melhor maneira possível, por tudo que a gente criou de bom. Queremos deixar um bom legado para o futuro, para que as pessoas que virão assumir a escola saibam assumi-la de coração, porque a Portela é muito mais amor do que outra coisa.

Portelamor: Quais os maiores desafios no dia a dia da administração da escola?

Serginho Procópio: Nosso desafio é pagar todas as contas que nos foram deixadas, nosso dia a dia é saldar isso que a gente herdou. Fazer a escola ser campeã novamente e sanar essa dívida, que não é nossa, mas é dívida da escola. É tudo que a gente quer para ver a Portela sorrir melhor. Sorrindo ela já está, mas queremos vê-la sorrir melhor, é o nosso desafio.

Portelamor: Serginho, aproveitando que você é um artista do samba, gostaríamos de saber como avaliou nosso samba-enredo de 2015.

Serginho Procópio: [Sorrindo] Pôxa! Essa resposta você via pela final do samba aqui na quadra, foi uma coisa avassaladora, não há o que falar. De 40 julgadores, 39 votos a favor. A escola queria esse samba. Todos nós estamos muito felizes com esse samba, samba que realmente impulsionou a Portela [Pergunto se ele assinaria esse samba e ele sorri e diz que sim, se tivesse feito, assinaria]. Sou até suspeito. Quando eu concorria a samba-enredo, fiz parte dessa parceria, com Charlles André e o Celso Lopes. Aí entrou o Noca, que quando acerta na veia não tem jeito e com a jovialidade do Celso e dos outros parceiros, que são garotos novos que chegaram, acho que deu tudo certo. Eu digo que é uma pena não ter ganho esse carnaval com esse samba [Nesse momento, há uma digressão, não colocada aqui, mas que está no áudio e no vídeo]. E a gente quer contar muito, não só com esses compositores, mas com todos os compositores que escrevem aqui na escola, para esse carnaval de 2016. Vamos escrever bem, fazer bem...

Portelamor: Temos conseguido, nos últimos quatro anos, notas dez para samba-enredo, de todos os julgadores. Há um temor de que os enredos do Paulo Barros possam causar problemas para os compositores. O que você pensa a esse respeito?

Serginho Procópio: Como compositor, não vejo esse “grande desafio”. Vejo que é sempre um desafio escrever um bom samba. O compositor sempre tem que tentar fazer o melhor. Vai ser dada uma sinopse a ele e ele vai ler, agora o desafio é fazem um bom samba, sempre, sempre. É um desafio para a parceria vencedora, para qualquer parceria, para qualquer um que faça samba, é um desafio. Não tem esse temor, não, porque é o Paulo Barros. A dinâmica é a mesma: temos que fazer o melhor, visando a ganhar com o melhor, visando à escola. Uma coisa que eu e meus parceiros conversávamos sempre que compúnhamos samba é que ali há um filho. Para a gente não tem quem é o melhor, quem fez isso ou aquilo, tem os compositores que fizeram o samba. Quando a música nasce é um filho para a gente. Então esse filho tem que ser muito bem embalado, muito bem criado, muito bem feito, porque ninguém quer filho feio. Todo compositor tem que pensar assim, que tem que fazer o melhor, e agora, com o desafio de ter um carnavalesco como o Paulo Barros, que tem essa inventividade dinâmica na cabeça dele. É um desafio maior ainda, eu tenho que fazer melhor, mostrar que sou bom, que tenho condições, essa é a minha visão de compositor: vamos fazer o melhor samba, assim que sair o enredo, assim que sair a sinopse, fazer o que o carnavalesco está pedindo.

Portelamor: O que a Portela vai manter e o que será modificado na fase Paulo Barros?

Serginho Procópio: A essência da Portela não vai mudar, vai continuar, só que com a inventividade do Paulo Barros. A essência está aí, no coração do Paulo Barros. Na feijoada ele já viu como o portelense já o abraçou, a Portela já está na veia dele, ele já é um portelense. Trata-se da maior escola com maior título dos carnavais. É um desafio para ele, também. É um desafio para todos nós.

Portelamor: Serginho, o que te dá mais prazer, hoje, no mundo do samba?

Serginho Procópio: Uma coisa que me dá muito prazer é quando subo nesse palco aí [da quadra], tocando com a Velha Guarda. É um prazer enorme, pois a música está na minha vida. Outra coisa que sempre me emociona é quando o Mestre-Sala e a Porta-Bandeira dançam, apresentam a bandeira. Isso me arrepia, é uma coisa que não sei te explicar de onde vem, mas ver nossa bandeira sendo empunhada lá na frente, é lindo. É muito bonito.

Portelamor: E o que te dá menos prazer, hoje, no mundo do samba?

Serginho Procópio: Fofoca. Fofoca, mentira, essas coisas, não gosto. Acho que ninguém gosta. Infelizmente, em todo lugar tem.

Portelamor: Dona Dodô, infelizmente falecida este ano, dizia que a Portela era uma religião. O que você acha dessa afirmação?

Serginho Procópio: Concordo com ela, Portela é uma religião. Para todos nós que somos portelenses, é assim, dessa maneira, “é feito uma reza, um ritual / é a procissão do samba / abençoando a festa do divino carnaval”. E eu só tenho que concordar. Tia Dodô era sábia à maneira dela, ela falava coisas para a gente e eu ficava pensando depois e ela tinha razão, porque ela viveu isso tudo aí, ela viu todos os campeonatos da escola, então, o que ela falava para gente era lei.

Portelamor: E é um ano de perdas para a escola, Dona Dodô, Tia Eunice...

Serginho Procópio: Tia Eunice... Ela estava bem “dodói”. Era um doce de pessoa, que doce de pessoa. Eu tive a oportunidade de em alguns momentos da minha vida deparar com Tia Eunice. Quando pequeno, quando eu via os ensaios da Velha Guarda, com meu pai, a Tia Eunice cantando, sempre aquela vozinha bonita, e aquele carinho, junto com a Tia Doca, com a Tia Surica. Primeiro foi Tia Vicentina, depois ela faleceu e colocaram a Tia Doca e a Tia Eunice, depois chegou a Tia Surica. A Tia Eunice era sempre aquele doce de pessoa. Muito triste, a morte dela. Você perder ente querido é muito triste. Mas ela deixou uma história bonita. Eu ultimamente, nesses quinze ou dezesseis anos de Velha Guarda, tenho tido muitas perdas, desde o início: Argemiro, Jair do Cavaquinho, Tia Doca, Tia Eunice, Casemiro. As pessoas infelizmente têm que partir para que outras nasçam. E assim a Velha Guarda está sendo substituída. É o ciclo da vida. Só não pode deixar perder a essência que a Velha Guarda tem.

Portelamor: Estamos quase encerrando nossa conversa, e nesse momento eu gostaria de tecer alguns comentários sobre as torcidas da Portela. A Portela, grandiosa, vaidosa, não cabe em uma só torcida, tem logo três. Nós gostaríamos de saber sua opinião sobre o papel das torcidas. O que você espera de nós, como torcedor e Presidente da Portela?

Serginho Procópio: Eu espero que as torcidas continuem nos apoiando. A gente espera estar no caminho certo, mas também, de alguma maneira, se nos desviarmos, esperamos que vocês nos alertem, para que a gente possa voltar ao caminho. O papel da torcida, hoje, não é só torcer, é fiscalizar. Foi também através da torcida que o cenário em que a Portela estava mudou. A gente respeita muito todas as torcidas da nossa escola. O que nos falarem a gente vai passar a observar. O papel da torcida não é só torcer, é também lutar junto com a gente.

Portelamor: Gostaríamos de finalmente encerrar pedindo a Serginho Procópio que defina Serginho Procópio.

Serginho Procópio: É difícil a gente falar da gente. Procuro ser uma pessoa simples, à minha maneira, orgulhoso como portelense, como todo portelense é, mas um orgulho bom, não é aquela coisa vaidosa, que chega a querer ser mais do que os outros. O orgulho portelense está aqui dentro do meu coração e isso eu vou levar para a vida toda. E eu quero deixar um grande beijo para toda a nação portelense: “Portela / Suas cores têm / Na bandeira do Brasil / E no céu também / Avante portelenses para a vitória”. É a mensagem.

Portelamor: Muito obrigado pela honra e pela grande alegria que você dá a nossa torcida, pela oportunidade que você nos dá de conhecer um pouco mais, não só o Presidente da Portela, mas o sambista, o artista, e o que pensa o cidadão Serginho Procópio.

Serginho Procópio: Eu é que agradeço a você, a todos da Torcida Portelamor por essa entrevista. Estamos aí, juntos, e quero avisar que vamos continuar caminhando, em busca desse título.