Monarco

Monarco lançou em junho de 2014 seu novo CD, Passado de Glória – Monarco 80 anos. Esta entrevista se deu no dia 20 de setembro de 2014, em meio a muitas celebrações da carreira e da vida deste memorável sambista portelense. Dois dias após essa conversa, Monarco foi agraciado com o Prêmio Contigo de Melhor Disco de Samba de 2014. Um título merecido, “flores em vida” para homenagear este compositor que abrilhanta há oito décadas de vida o jardim musical portelense. Os portelamorenses Paulo Oliveira e Jorge Anselmo participaram do encontro, em que o compositor fala de sua vivência no samba, de seu novo trabalho e relembra os velhos tempos de Portela. Que a entrevista nos revele um pouco mais dessa personalidade do samba, hoje Presidente de Honra de nossa querida Portela.
Com a palavra, nosso mestre.

Portelamor: Monarco, bom dia. Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecê-lo por essa gentileza, por essa alegria que você dá a nossa torcida, com essa entrevista. Queremos dar os parabéns pelos seus 81 anos de vida (17 de agosto de 2014) e começar nossa conversa falando desse momento especial de sua vida: o senhor é o Presidente de Honra da nossa querida Portela; a escola fez um belo e emocionante desfile este ano; e também este ano o senhor está lançando um novo CD, com canções inéditas, que o jornal Folha de São Paulo chamou de “acontecimento”. Como o senhor vê esse momento de sua vida, de sua carreira?

Monarco: Eu vejo um momento bonito. Sonhos que estão se realizando. Era um sonho meu fazer um disco com músicas antigas minhas, que estavam no baú, um sonho meu que está se realizando. Eu tinha muitas músicas guardadas no meu baú, muita muito antiga. Tem um samba aí, o da última faixa, o “Crioulinho Sabu”, que é de 1942. Eu morava em Nova Iguaçu, ainda. Esse samba tem 72 anos, é bem vovô já. Tem outras parcerias minhas, com o Quinho, de 1955; tem samba de 60 anos e alguns caçulinhas, de três, quatro anos, mas a maioria é daquele baú mesmo. Fui conversando com meu filho [Mauro Diniz], que topou ajudar. A produção foi dele, com a ajuda da Natura, que patrocinou o CD, abraçou a ideia e ajudou a pagar estúdio, aquela coisa toda. Daí, eu parti para o estúdio e gravei esse disco, sem aquela intenção de “parada de sucesso”, de estourar,  música de trabalho, tocar no rádio, nada disso. Eu fiz para registrar essas coisas. Consegui fazer, estou feliz. O disco, inclusive, já foi até indicado pela revista Contigo e está disputando o prêmio de melhor disco de samba. Não fiz para competir com ninguém, fiz espontaneamente, mas acabou entrando no agrado. Também está indicado ao Prêmio da Música Brasileira, do Maurício Machline, que faz aquele evento grandioso, que homenageou Noel Rosa, Tom Jobim, Cartola... (Não, Cartola ainda não foi não). É um injustiçado, já devia ter sido homenageado também. Então, eu estou feliz com meu disco e a vida vai seguindo.

Portelamor: Monarco, sua história com a Portela vem de longe. Seus biógrafos contam que o senhor entrou pra ala de compositores da Portela em 1950.

Monarco: Não. Aí houve uma espécie de um desencontrozinho, porque nos anos 1950 nós ainda não tínhamos ala de compositores. Eles [os biógrafos] talvez quisessem dizer que eu entrei para o grupo dos reconhecidos ali, daqueles bambambãs, a partir de 50, 51, que foi quando eu fiz o “Retumbante vitória”, que mais tarde o João [Nogueira] gravou com o título de “O passado da Portela”. Eu fazia umas bobagenzinhas, aqui e ali, mal acabadas, que não foram a lugar nenhum, mas quando eu fiz esse samba, o pessoal lá na Portela mandou eu cantar. O falecido Natal [Natalino José do Nascimento, famoso Presidente da Portela], o João da Gente, Alcides [Alcides Dias Lopes, o ‘malandro histórico’ da Portela] fizeram aquela farra: “Tá vendo aí? Tem que aproveitar esses garotos. Vai cantar logo mais no ensaio”. Eu fui ao ensaio, cantei lá na Portelinha [antiga sede da Portela, ainda hoje localizada na Estrada do Portela, 446, em Madureira/Turiaçu]. Tinha a jaqueira, eu cantei e o samba serviu de esquenta na cidade. Então eu entrei para esse grupo. A Portela teve ala de compositores a partir de, se não engano, 1954, ou 1955. Foi o pessoal da Aprendizes de Lucas [Escola de Samba criada no bairro de Parada de Lucas, no Rio de Janeiro] que batizou a ala de compositores. Em 50, nós não tínhamos ala de compositores; tínhamos os compositores, mas não havia a ala. Esse nome, Ala de Compositores da Portela, foi dado a partir de 50 e poucos, por ali, 1954. Mas aí, eu entrava para o grupo dos reconhecidos: eu, Candeia, que é do mesmo tempo meu, Picolino, compreendeu? Nós começamos a ser acreditados para participar ali, no meio daqueles compositores reconhecidos: Manacéia [Manacé José de Andrade], Alcídes, Chico Santana [Francisco Santana], Boaventura [Boaventura dos Santos], Chatim [Tompson José Ramos], compositores do primeiro time.

Portelamor: Seus grandes incentivadores nessa época, quem foram?

Monarco: Foi Alcídes. Alcídes Dias Lopes, “o malandro histórico”. Esse foi o meu primeiro parceiro dentro da Portela. Quando eu fiz esse samba, que entrou para o terreiro, que as mulheres cantaram, que a Portela um dia cantava, o Alcídes estava com uma primeira parte, me mostrou, lá na feira de Oswaldo Cruz, numa quarta-feira. Disse: “Monarco, eu estou com um corinho, assim...”, ele falava (quando era uma primeira parte, ele falava corinho): “Eu tô com um corinho aqui e gostaria que você ouvisse, se você gostar, você bota a segunda”. Eu disse, “Mas é uma responsabilidade grande, Alcídes, eu botar a segunda parte. “Não, você está com a cabeça fresquinha...”, ele disse, com aquele jeito dele, e aí cantou:

Você gostou de mim porque quis
Já sabia que eu era, todo mundo diz
Hoje quer me culpar dizendo me ter amizade
Sabe que o malandro quando ama deixa saudade

Aí eu botei a segunda parte, fomos para o terreiro e o samba estourou lá. Foi sucesso no terreiro, na comunidade, ali mesmo, no morrinho. Mais tarde, o João [Nogueira] gravou esse samba, “Amor de malandro”. Daí, eu peguei e comecei a fazer música com o Alcídes, também. Depois veio o Chico Santana, que me mostrou também uma primeira [primeira parte de um samba], o “Lenço”. Veio depois Alvaiade. Então, eu comecei a me tornar parceiro daqueles bambas, de todos ali, que eram reconhecidos. Quando eu era garoto e eles passavam, eu ficava de olho comprido com os colegas, apontando “Olha o Alcídes, olha lá o Alvaiade! Esses camaradas aí, não sei o quê...”. Depois, fui me tornar parceiro deles, foi uma felicidade... Não tenho nem palavra para agradecer.

Portelamor: Monarco, o senhor chegou ainda menino em Oswaldo Cruz, aos treze anos. Uma curiosidade: O senhor conviveu com Paulo da Portela, ainda que brevemente, já que ele falece em 1949?

Monarco: Não, não convivi com o Paulo. Eu via o Paulo, assim de longe, mas de chegar perto e conversar, nunca. Porque quando eu cheguei na Portela, tive uma tristeza muito grande no peito de saber por colegas que já moravam ali que o Paulo já tinha se afastado. Quando eu fui morar em Oswaldo Cruz, a primeira coisa que perguntei, na primeira reunião que eu tive com os coleguinhas ali, foi sobre o Paulo da Portela. “Ah, o Paulo da Portela, ele tá lá na ‘Lira do Amor’”, me disseram. Eu perguntei: “Mas por que? Ele não tá na...”. “Não, não tá, houve um aborrecimento assim, assado...”. Foi isso que me contaram. Aquilo pra mim foi triste, porque em Nova Iguaçu eu ouvia Araci de Almeida cantando sambas de Carnaval, em que ela dizia:

Os professores do morro
Já foram se apresentar
Foi o Paulo da Portela
Foi Nonô, foi  Mano Edgar
Se o morro não descer
A cidade vai chorar
E por isso resolvemos
A sair sem ensaiar.

Isso eu já ouvia, então quando eu cheguei em Oswaldo Cruz, eu já fiquei com aquele negócio: “O Paulo da Portela, aqui tem um tal de Paulo da Portela.”. Eu quis saber onde é que ele estava, ver ele. E um samba do Noel, dizia também

Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz.

Então, quando cheguei em Oswaldo Cruz, sabia que estava bem parado ali. Em assunto de samba, eu estava bem parado. Araci de Almeida cantando coisa de Oswaldo Cruz, outro falando do Paulo da Portela. Eu comecei a me direcionar para ver onde estava isso, e fui chegando devagarzinho, minha mãe mandando eu tomar cuidado, que aquilo não era Nova Iguaçu, eu estava em outros lugares, não era assim, eu estava chegando muito tarde em casa etc. Eu retrucava: “Mas mamãe, eu estava lá na Portela”. Aquilo pegou em mim, eu estava na Portela. Fui lá ver os ensaios, ficava no muro olhando. Lá eu via o Alcídes cantando, o Manacéia com o cavaquinho. Na minha cabeça passava aquele sonho: “será que um dia?” Eu já tinha feito em Nova Iguaçu o “Crioulinho Sabu”, com oito anos. Então, os colegas diziam: “Ah, o Monarco fez um samba, o Monarco...”. Então, eu já sentia que o dom me abraçava, aos oito anos de idade. Foi aí que eu passei a frequentar a Portela, ia “puxar corda” na cidade, na Praça XI, porque não tinha dinheiro para fazer a roupa, entendeu? Eu descia junto com o pessoal no trem, e quando chegava na Central, ali eu ia atrás, chegava lá, tinha uma corda, para isolar a escola, para o povo não invadir. A escola, o conjunto, todas tinham uma corda. Era uma maneira de eu participar, segurando a corda. E eu sabia o samba, pois eu não saía lá do ensaio. Eu ia cantando, puxando a corda e cantando, e então, desfilava. [Monarco cita os enredos, a seguir] Em 1947, foi “Santos Dummont”; em 48, foi “Princesa Isabel”; em 49, “Cabral”; 50, foi “Riqueza do Brasil”. Em 51, eu já saí fantasiado. Neste ano, eu saí da ABI [Associação Brasileira de Imprensa] e fui trabalhar no SESI [Serviço Social da Indústria], em um emprego que arranjaram pra mim. Então, podia dar aquele capricho, eu era caprichoso, fui juntando meu dinheirinho e disse: “Não, eu vou sair”. Aí, em um ensaio, de quarta-feira, eu procurei a Ala do Amigo Urso, que era a ala de Rocha Miranda, e perguntei: “Eu quero sair na ala, como é que eu posso fazer?” E me disseram: “Você tem que pagar”. “Então eu quero pagar”, falei. Toda quarta-feira eu dava dinheiro ao mineirinho, que era o responsável. Quando chegou no dia, eu saí de terno, chapéu. Eu ficava me olhando, toda hora: “Ih, rapaz, que legal!”. Era aquela felicidade! A Portela esse ano foi campeã, com o Getúlio Vargas, samba do Chatim.

Portelamor: E essa Ala do Amigo Urso? Esse nome já seria por conta da questão do Paulo da Portela? [Quando Paulo da Portela foi destratado, na Portela, teria chamado os antigos companheiros, que não o defenderam de “amigos ursos”, segundo conversa que tivemos com Monarco, antes de gravarmos a entrevista].

Monarco: Não, não tinha nada haver, porque tinha a Ala dos Impossíveis, que era da turma do Candeia, ala do outro lado do muro, da turma do muro. Tinha a Ala da Mocidade, a Ala dos Nobres e a Impossível e tinha a Ala do Amigo Urso, que era uma grande ala da Portela. Saía muita gente de Rocha Miranda, que é chão nosso. Olha como a Portela é rica. Rocha Miranda é chão;  Bento Ribeiro é chão; Marechal Hermes é chão; em Irajá tem gente que sai no Império [Serrano, outra Escola de Samba tradicional de Madureira], mas muita gente de lá sai na Portela. Sem falar em Madureira e Oswaldo Cruz, que é onde ela tem as raízes dela. E Turiaçu. Turiaçu também. Tinha uma escolinha ali, Unidos de Turiaçu, que acabou e o pessoal de lá veio tudo para a Portela. Veio a Eunice [Dona Eunice, ou Tia Eunice], o falecido Nicolau, marido da Eunice; veio o Valdo, doente, que foi pra diretoria. Era tudo Turiaçu. Então foi isso.

Portelamor: Monarco, nós já havíamos conversado sobre algumas passagens suas e da escola. Uma delas é justamente sua relação com o Paulo da Portela, que, no caso, o senhor já esclareceu, pois fica meio obscura nas biografias, dele e do senhor. Muita gente até se confunde, porque depois houve uma parceria póstuma do senhor com o Paulo.

Monarco: Justamente. O Paulo vivia na batalha, na batalha de confete [Brincadeira de carnaval, que reunia blocos e agremiações], que já acabou. A Dona Clara [lendária figura do subúrbio, famosa nos anos 40] tinha, Bento Ribeiro tinha, aqueles blocos tinham. Aí eu ia, era moleque e ia atrás daqueles blocos. Eu dizia: “Ih, o Paulo tá lá!”. Até por sorte minha, num samba meu eu digo:

Paulo e Claudionor, quando chegavam na roda de samba(...)
Todos Corriam pra ver.

Entendeu? Isso aí é verdade, uma verdade. Que quando o Picolino falou: “Ih, o Paulo da Portela tá ali!”, eu corri pra ver. Ele no meio e todo mundo atrás, eu olhei aquele sujeito falante, simpático. Falava: “Ih, rapaz, é o Paulo da Portela!” [Aqui, Monarco faz uma pequena digressão, pensativo] E na cidade, quando eu vinha do trabalho, eu soltava do bonde ali na Central, tinha a Confeitaria Palace e a Estrada de Ferro, onde a malandragem ficava bebendo. E o Paulo ficava assim, encostado na parede, e aquela turma rodeando e ele conversando. Aí eu passava, olhava, ficava olhando ele e pensando: “Aquele ali é o Paulo da Portela”. Mas nunca cheguei perto dele para conversar. Com os outros, eu conversava: com o Cartola [Angenor de Oliveira] eu conversei muito; com o Carlos Cachaça [Carlos Moreira de Castro], na Portela, aqueles antigos; com seu Caetano [Antônio Caetano], o homem que inventou a águia, conversava comigo, assim, falava sobre o que estragou o Paulo. Seu Rufino [Antonio Rufino] dizia: “Foi a Nação [Diário comunista carioca publicado de janeiro a agosto de 1927], o que estragou o Paulo foi A Nação”. A nação era um jornal comunista. Dizem que o Paulo era da extrema esquerda. Tanto que ele fez o Cavaleiro da Esperança [Monarco refere-se ao enredo “Cavaleiro da esperança”, no período em que Paulo da Portela estava na Escola de Samba Lira do Amor]. Ele era adepto, mas dizem que ele não era do partido, era apenas adepto do Prestes. Então, Seu Rufino contava, com Seu Rufino eu conversei muito: “Ah, o que estragou o Paulo foi A Nação”. Mas o que era A Nação? Era um jornal que você botava o cupom ali dentro, tinha uma urnazinha, você escrevia teu nome e o seu candidato. A Nação patrocinou os desfiles das escolas de samba, compreendeu? Seu Rufino diz que isso atrapalhou muito o Paulo, essa coisa de ser comunista. Diz-se que numa discussão ele foi chamado de comunista. Hoje em dia o comunista está aí. Naquela época era duro, na época do meu pai era duro. Meu pai falava: “Isso vem do ventre do capitalismo!” O velho era revoltado naquela época. A polícia mandava buscar em casa. Se ela soubesse que você era comunista, naquela época, mandava buscar em casa. Hoje, não. As pessoas batem no peito: “Eu sou do partidão!” Queria ver naquela época! O Noca fala isso, “Eu sou do partidão!” Lecy Brandão fala, mas queria ver falar naquela época! Conversei isso com o velho Mário Lago. O velho Mário falava, “É, Monarco...”. Naquela época caguetaram ele na Rádio Nacional, quando houve a ditadura. O negócio do Mário não era Escola de Samba, mas era um sujeito com quem eu conversei muito, o velho Mário. Mas eu estou falando do caso do Paulo, não é? Ele era uma figura importantíssima. Sendo comunista ou não sendo comunista, para o samba ele fez muito bem.

Portelamor: Monarco, você teve muitos momentos marcantes na Portela e um desses grandes momentos certamente é a Velha Guarda da Portela. Como foi e tem sido essa convivência com o grupo?

Monarco: A Velha Guarda sempre existiu, em todos os lugares. Você vê que o Pixinguinha, mesmo com a turma, era da turma da Velha Guarda, né? Velho já era Velha Guarda. Então, quando passava um velho na rua, como Seu Caetano... Uma vez eu estava na Portela, brincando, diziam: “Ih, Monarco! O Pessoal da Velha Guarda tá lá na leiteria do Seu João”. Tinha uma leiteria (antigamente tinha as leiterias), então aí eu corria lá para ver. Fui lá para a porta, cheguei, fiquei perto do Seu Caetano, do Seu Rufino. Os caras com o violão, cantando... Então, já era a Velha Guarda. A Velha Guarda show é que foi criada, a partir de 1970, quando o Paulinho da Viola gravou um disco, que eu tive a felicidade de participar, com um samba meu, que emprestou nome ao disco. É o “Passado de Glória”. Aqui ó, está aqui, “Passado de Glória” [Neste momento, Monarco aponta para o CD Passado de glória, que levamos para que autografasse]. Isso aqui era o nome de um disco meu, nome de um samba meu.

Portela, eu às vezes meditando
Quase acabo até chorando
Não posso me lembrar

Esse samba eu fiz lá na barraca de peixe. Quando eu cantei, o Jorge Picolé,  um escurinho que já faleceu, disse: “Bota ‘Passado de glória’”. Nem foi eu que batizei, foi ele.. Então eu botei “Passado de glória”. Foi um samba elogiado por muita gente. Ele no terreiro não rendeu muito, porque é um samba que, na divisão, tinha que ter um pouquinho de paciência, ao cantar, não podia correr. Mas, graças a Deus era um samba sério, compreendeu? Falava do Cartola, falava do Ismael [Silva]. Era uma espécie de samba-enredo, entende? Teve até quem chamou ele de hino, mas não, hino já temos. O hino portelense é do Chico Santana, “Avante Portelenses, para vitória...”. Já tem, entendeu? Mas é um samba que o Silas [de Oliveira], inclusive, enalteceu. Silas, meu camarada, Silas de Oliveira me disse: “Monarco, foi feliz. Você dividiu bem, você foi feliz aqui”. O Silas era inteligente. Então, eu tive essa felicidade de fazer esse samba e, como se diz, de fazer um samba que entrou pro hall daqueles inesquecíveis. Samba da Portela! Aliás, eu até pulei a pergunta. Ah, a Velha Guarda. Então, o samba emprestou o nome ao disco. E nesse disco gravamos samba de Heitor dos Prazeres, que andou por lá na época da fundação; do Paulo, [Monarco cantarola um trecho] “Cocorocó, o galo já cantou / Levanta...”; do Manacéia, Chico Santana, Alvaiade, Caetano. Isso foi o que o Paulinho garimpou. Ele ia todo domingo para lá [Oswaldo Cruz e Madureira]. O sonho do Paulinho era fazer um disco pra registrar aquelas coisas bonitas. A Portela é uma das escolas que tem um dos maiores acervos musicais, hoje. A Portela, pode crer no que eu estou dizendo. Talvez, nem a Mangueira tenha esse acervo. A Mangueira teve muita coisa do Cartola, também do Carlos Cachaça, do Padeirinho e daquela turma, mas a rapaziada que veio depois não criou muito. E a Portela teve essa sorte, nós continuamos sendo atuantes. Os velhos continuaram, o Chico [Santana] fez o “Saco de feijão” [Monarco cantarola]: “Meu Deus, mas para que tanto dinheiro...”; Manacéia fez [Cantarola, novamente] “Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado”, “Meu carro de boi atolou no lamaçal...”, por aí. Então, o pessoal da antiga era a Velha Guarda, mas eram atuantes. E o sonho do Paulinho era registrar essas coisas. Numa pelada em que estava ele [Paulinho da Viola] o João Araújo, uma turma, o Paulinho manifestou esse sonho. Aí, um daqueles caras disse: “Ô Paulinho, você quer fazer isso? Já tá. Corre atrás e vai garimpar o repertório e vamos fazer isso”. Paulinho ficou cheio de felicidade e subiu para Oswaldo Cruz. Ele tava escolhendo as músicas e eu nem sabia que a minha música estava escolhida. Depois é que ele disse: “Olha, Monarco, tem um samba teu que tá no disco. É o “Passado de glória”, que é a última faixa do disco”. Dali surgiu a Velha Guarda Show, mas a Velha Guarda sempre existiu, pelos velhos: “Essa aí é a Velha Guarda, hein! Essa é a velha guarda!”. Mas a Velha Guarda Show, a Portela ainda teve esse privilégio, de ser a pioneira.

Portelamor: Monarco, você também angariou experiência em outra escola, a Unidos do Jacarezinho. Como foi esse período?

Monarco: Olha, isso aí eu não anoto na minha história, não. O Jacarezinho foi um local em que eu fui morar, ali tive muitos amigos, mas não abandonei a Portela, continuei desfilando. Em 1973 eu desfilei na Portela, em 1970 eu desfilei na Portela, aliás, em 1971. Continuei desfilando na Portela. O Jacarezinho foi uma escola que eu ajudei, porque eu fui morar lá, entendeu? Naquela época eu estava meio triste, havia uma separação. Já tinha me separado da minha mulher, estava viúvo, meio chateado. Aí fui morar no Jacarezinho. Faço parte da história deles, por muitas vitórias que eles têm, mas não atrapalhou minha vida com a Portela não.

Portelamor: Então hoje, Monarco, após tantos acontecimentos, o que significa para o senhor ocupar essa Presidência de Honra da Portela?

Monarco: Eu nunca almejei isso. Já na época do Carlinhos Maracanã eles me convidaram para esse negócio de Presidente de Honra, mas eu falei que já era uma honra para mim ser Portela. Então, agora, eles me convidaram para ser Presidente da Portela. Eu virei pra eles e disse: “Eu não tenho condições de ser Presidente da Portela porque eu não gosto de reunião, eu não gosto de assinar papel, eu pouco frequentei os bancos escolares, não tenho lá uma educação muito grande assim, de estudo, para ser presidente de uma Escola de Samba de uma grandiosidade que é a Portela. Não quero, eu disse”. Eu estou lutando agora porque eu amo a escola e não quero a escola passando por aqueles momentos por que passamos. Mas, e Presidente de Honra? Eu falei: “Presidente de Honra, se vocês querem me dar essa homenagem, é uma espécie de, vamos dizer, as flores em vida, né?” Eu até aceitei, porque se eu não aceito nada, não aceito isso, aquilo, vão dizer que o cara não quer ser nada, então, alguma coisa eu aceitei: ser Presidente de Honra da Portela. Sinto-me honrado e estou aí, mas não almejava essas coisas, não. Eu, na Portela, não quero ser nada, eu quero é amar ela, e ir até o fim, ser fiel a ela e estar vigilante. Tinha um jornalista que falava isso, eu gostava dessas palavras: “Vigilante contra os perigosos desvios”. Tanto desvio cultural, quanto desvio financeiro. Para isso aí eu estou lá, entendeu?

Portelamor: O que nós podemos esperar para o Carnaval 2015?

Monarco: Vai ser um Carnaval lindo. A Portela, a partir do ano que passou, já vem lutando para estar ali, no lugar que ela merece. O lugar da Portela é estar entre as três, ou quatro, por ali. Sendo primeira ou não, segunda ou terceira. Mas a Portela não é Escola de tirar em décimo lugar, nono. Alguma coisa de errada estava acontecendo. Ela, organizada, unida, é difícil de ser vencida. Ela tem uma estrutura de Escola de Samba, tem um chão grandioso, tem grandes sambistas, tem tudo que as outras têm e, ainda, tem até a honra de ser uma das pioneiras das Escolas de Samba do Brasil. Apesar do jejum, ainda é a escola que tem o maior número de títulos. Agora, não brigamos com ninguém, não debicamos de ninguém, aonde a Portela chega ela é respeitada, seja na Mangueira, seja na Beija-Flor, seja na Mocidade. Somos madrinhas, com muita honra de Ilha, de Pilares, de várias escolas aí, pelo respeito que nós temos e pela disciplina que o Paulo nos deixou.

Portelamor: Monarco, esse é nosso último bloco, sobre o seu novo álbum, Passado de Glória, que é o grande motivo de nossa entrevista: 80 anos, com muitas comemorações. Como foi o processo de criação desse novo trabalho?

Monarco: A criação, veja bem. As músicas já estavam feitas. Eu tinha o sonho de fazer um disco. Não precisava nem de patrocínio, eu tenho certeza de que tinha pessoas, que diziam que iriam dar força para mim, para eu correr atrás que iam me ajudar. Mas um rapaz ouviu eu falar sobre isso, aí correu, sem me falar nada, levou o projeto para a Natura e a Natura encampou, o abraçou e ele foi feito. Graças a Deus, já está sendo aí elogiado pela crítica da música e tal. A Rádio Globo já ligou aqui para casa, me parabenizando. Tem a parceria minha com o velho Mário Lago, que era um sonho, é uma parceria póstuma. Era um sonho meu fazer um samba com ele em vida, mas não fiz e agora surge essa parceria. Gravei um samba de 1942, coisas que eu tinha vontade de fazer, e que eu fiz. Então, foi um sonho realizado, estou muito feliz com esse disco. Já foi indicado para dois prêmios. Foi um disco feito assim, voltado para a dignidade, sem pensar em estourar, em Globo de Ouro, em Faustão, nada disso. Disco para ser cantado por aí. Já fizemos três shows, dois em Buriti, um em São Paulo, que o disco já nos proporcionou. Levei a Velha Guarda comigo, ela participou. Participou do disco a  Marisa Monte, a Beth Carvalho, a Velha Guarda, o Diogo Nogueira, um menino de São Paulo, o Tuco Pellegrino, um garoto muito estudioso, muito pesquisador, que zela pelas coisas, pelo acervo da Portela. Tem o Mauro Diniz, Marquinho Diniz, meus filhos; Juliana, minha neta; a minha querida Velha Guarda; Zeca [Pagodinho], de quem eu não podia me esquecer. Quando eu falei para ele, ele disse: “Tô dentro, tô aí, eu vou, tá?” Ele mesmo escolheu a música: “É essa aí, essa aí”, que era um samba que ele já ia gravar, do falecido Ratinho [Alcino Correia Ferreira]. Martinho também ia, Chico também ia, Cristina (eu já ia me esquecer, ia fazer uma injustiça, com a Cristina, irmã do Chico, Cristina Buarque, que também participou). Então, foi um disco com eles. Eu tive até que cantar com eles, meu filho tomou conta disso, porque ele que é o produtor, e me disse: “Papai, se chamar eles para cantar o senhor quase não vai participar do disco, então o senhor vai cantar junto com eles”. Então, eles cantaram a primeira, eu cantei a segunda e vice-versa. Em todas as músicas eu estou presente e eles fazem aquela participação, com carinho, fizeram com amor. Então, eu acho que o disco vai ser comercializado, distribuído pela Universal, e brevemente o Brasil todo vai ter o disco aí nas prateleiras. Foi um sonho meu que se realizou.

Portelamor: E tem novamente a participação da Marisa (Monte), não?

Monarco: Marisa! Quando eu falei pra ela, ela disse: “Não, eu quero sim, eu quero”, e aí escolheu a música, me disse, “Olha, eu gostaria de cantar essa aqui”. Essa música que ela gravou comigo é uma parceria minha com o falecido Quinho, é sobre a estação primaveril. Quinho era um grande letrista que tinha na Portela. Quando Paulo morreu, várias homenagens foram feitas para o nosso professor. Teve um samba lá do pessoal da Praia do Pinto, do falecido Aníbal, que foi até sucesso no Carnaval (Monarco cantarola): “Paulo da Portela não morreu / Apenas desapareceu”. Isso na rua, rapaz... Mas para mim, a maior homenagem foi esse samba do Quinho. A homenagem que ele fez para o Paulo, para mim, foi a mais bonita, quando ele diz que Paulo morreu como um passarinho:

Linda passagem é a tua história
Entre ecos de mil vozes
A tua alma foi a glória
Tua passagem
Deu-se igual a um passarinho
Cantou momentos antes
Para ir tombar em seu ninho
A negra nuvem
Toldou de vez o luar
Os anjos mandaram a chuva
Te prantear

Isso para mim foi a maior homenagem que existiu. Não tocou no rádio, não foi gravado, mas para mim, dentro de mim, foi a homenagem mais feliz, mais sincera, do que todas as outras que vieram. Cartola fez, Padeirinho fez, o pessoal do Estácio fez. Todo mundo compôs sambas em homenagem ao Paulo. Ele era muito querido em outras escolas de samba, mas essa homenagem do Quinho... Voltando à parceria minha com ele, “Estação primaveril” é um samba de 1955. Ele fez o samba e tinha a segunda parte, mas a segunda dele era muito truncada. A primeira era linda e a segunda também era muito bonita, a letra, mas eu não conseguia cantar. Aí eu peguei e disse “Eu vou botar uma segunda parte nesse samba para eu cantar”. E aí fiz, depois levei para as filhas dele ouvirem. A primeira parte, que é dele, é sobre a Primavera [Monarco canta]:

Primavera
És a estação de amores
Tua aurora saúda teus bosques
Com perfume e flores
Brilha no horizonte
O astro matutino
Canta a passarada alegremente
Garbosa o hino
Natureza
Invenção sublime do Senhor
Tu és vida, tu és o romance
Tu és o amor

Aí eu botei a segunda parte. A Marisa Monte gravou comigo, fizemos um bom dueto. Para mim esse disco, e eu gosto de todos os anteriores, foi o maior disco da minha vida.

Portelamor: O senhor já respondeu a uma outra pergunta, que era justamente sobre esse processo de parcerias dentro do disco, sobre os convidados. Mas há uma curiosidade nossa. Alguns de seus críticos e biógrafos dizem que sua obra é marcada por dois temas muito recorrentes, que são o amor e a história do samba. O João Baptista Vargens, muito seu amigo, diz também que o senhor é um grande contador de histórias e nesse novo trabalho podemos dizer que essas histórias estão ali presentes, estão sendo contadas. O senhor pode dar algum detalhe que o senhor considere curioso ou pitoresco, sobre alguma dessas histórias que estão incorporadas nessas letras?

Monarco: No disco tem um samba que eu fiz há uns 10 anos. Tem dois sambas sobre a cultura da Portela, sobre as coisas que não estão sendo mais criadas, que estão em extinção, de que não se fala mais. Eu tenho um samba nesse disco aí que fala do Zé Kéti, que foi um grande compositor da Portela [Monarco cantarola um trecho de “Momentos emocionais”, de seu novo álbum]:

Eu vi Portela em teus dias de glória
E participei da história
Dos antigos carnavais
Eu conheci Arlete e Eliete
As pastoras que brilharam
Nos desfiles triunfais
O mestre de harmonia era Zé Kéti
Com a Portela tu me deste
Momentos emocionais

Isso é uma coisa que a Portela viveu. Ninguém conta isso. Os compositores da Portela, hoje, não vão por esse caminho, querem fazer samba-enredo. Mas eu me preocupo muito com isso. Há um outro samba no disco que é antiquíssimo, também. Esse samba é de 1954, 55 [Monarco canta “Não reclame pastorinha”, de seu novo álbum]:

Não reclame, pastorinha
Breve serás a rainha
E a Portela seu jardim em flor
Sempre belo e florido
Eu, seu poeta querido
Farei lindos versos de amor

Se eu for contar minuciosamente
Vou ter que me lembrar de João da Gente
Lembrar de Rufino, Natalino e outros mais
A minha velha Portela de muitos anos atrás
Ontem mesmo estive lá
Fui matar saudades dela
Passei meu fim de semana
Cantando e sambando
Na minha Portela.

Isso aí tem a ver. João da Gente foi a maior voz da Portela do tempo dos versos da Praça XI, quando não tinha microfone. Seu João era respeitado também por todas as Escolas. Então, eu conto isso aí e ninguém liga mais para isso. Se eu fosse cantar esse samba amanhã, lá na Portela, ia ter pessoas capazes de virar as costas, porque não sabem o valor que teve João da Gente, que teve Natalino, que teve Rufino. Eu zelo muito por essas coisas, porque acho que isso tem um valor imensurável, a gente lembrar dos bambas que fizeram a história da nossa Portela. Para poder o jovem, daqui a pouco, perguntar: “Ah, mas quem foi o João da Gente?”. Aí é que está. Eles não criam nada, infelizmente, eu sou obrigado a falar assim, não criam nada. Eles só querem saber de fazer o samba-enredo. Agora, eu me preocupo em falar na Eliete, na Arlete, na Dagmar, na Dodô. Eu tenho um samba em que tem um trecho que eu falo [Monarco canta]:

(...) cantando versos para as meninas
Eliete, Vicentina, Bernardina e Dodô.

Eles não sabem quem foi Dona Bernardina. Dodô está viva, com a gente, até agora, graças a Deus. Eu me preocupo com essa cultura, com essa história bonita da Portela e dos nossos velhos, que fizeram a história dela, então, eu boto isso no meu samba. É uma maneira de eu enaltecer, de eu me lembrar deles. Aí eu faço meu samba, não precisa servir para ninguém. Não é para gravar, não é para vender, não é para vender milhões de cópias. É para eu guardar dentro do meu coração, comigo. Para amanhã, se tiver uma brincadeirazinha no quintal, eu cantar isso. Por isso eu gosto desse garoto de São Paulo, o Tuco [Pellegrino]. Ele canta isso lá em São Paulo. Ele faz rodas com as meninas e canta. Estiveram no meu aniversário, fizeram uma roda de samba ali no Centro e cantaram essas músicas. Não tem valor financeiro, para a coisa de parada de sucesso. O Carlos Cachaça contava uma coisa [que eu gostava de escutar aquele velho falar]: “As coisas honestas nesse país não dão Ibope”. Esse meu samba não dá Ibope, mas dá Ibope pra mim, e eu não quero Ibope, eu quero é ter a certeza de ficar com meu interior feliz, pois criei alguma coisa, falando da Portela, entendeu? [Monarco cantarola um trecho de “De Paulo a Paulinho”]:

Antigamente era Paulo da Portela
Agora é Paulinho da Viola.

Na segunda, que é minha, eu falo:

Paulo, com sua voz comovente
Cantava ensinando a gente
Com pureza e prazer
O seu sucessor na mesma trilha
É razão que hoje brilha
Vaidade nele não se vê
Oh Deus, contemplai esse menino
Que a Portela do seu Natalino
Saúda com amor e paz
Quem manda um abraço é Rufino
Pois Candeia e Picolino lhe desejam muito mais.

 

Então, quem foi Candeia? Eles não sabem. É a história da Portela. Eu me preocupo com essas coisas. Infelizmente os garotos não criam nada disso. Nem aqui, nem na Mangueira, nem em outro lugar. Eles querem é samba-enredo, dinheiro...

Portelamor: Monarco, há duas canções, dois sambas, nesse CD, que são muito curiosos, para qualquer pesquisador e para os amantes do samba. O primeiro é a parceria com o Mário Lago e o outro é o que encerra o CD, que é um samba que o senhor fez aos oito anos de idade. Poderia falar um pouco sobre eles?

Monarco: Eu vou ser enredo lá em Nova Iguaçu, de uma escola de samba que se chama Império do Cabuçu. Esse ano eles vão fazer. Eu morei em Nova Iguaçu, e eles querem fazer, eu não pedi nada a ninguém, eles querem fazer, então façam. Foram lá na Portela, conversaram com o Falcon, com todo mundo. E o “Crioulinho Sabu” é justamente essa história. Eu tinha oito anos de idade, eu andava com esse crioulinho, que era o Sabu, que não tinha família, andava largado, e com o Luiz. Então andávamos eu, o Luiz e o Sabu. Um belo dia, surgiu na minha cabeça essa coisa, não percebo porque aconteceu isso. A Liga da Defesa Nacional, nem sabia, mas existia isso. Algum adulto deve ter proferido essas palavras e aquilo entrou na minha cabeça. Às vezes você fala alguma coisa perto de uma criança e a criança guarda. Então, aquilo ficou na minha cabeça, a Liga da Defesa Nacional. Aí veio então:

A Liga da Defesa Nacional
Vai contratar o crioulinho Sabu
Para cantar lá no Rio Grande do Sul

Eu queria era rimar, não queria saber:

Também vai contratar Monarco e Luiz
A garotada vai pedir bis.

Depois, uns 40 anos depois, eu fiz a segunda. Eu olhei aquilo e me lembrei: “De quem é mesmo?”. O Lolote ainda é vivo, disse: “Ô Monarco, tu fez um samba! Todo mundo gostou!”. Aí eu me lembrei do samba e fiz uma segundinha. Tu vê que essa segunda já vem mais elaborada.

Vai pedir, quando aqueles guris
 Subirem ao palco da plateia feliz
Ficará na memória do Rio Grande do Sul
E será uma honra para Nova Iguaçu

Olha que já está mais bem elaborada. Eu já me aperfeiçoei nessa altura, depois de 40 anos. Mas a primeira letra é bem ingênua. Eu estou rimando crioulinho Sabu com Rio Grande do Sul. Eu estava mandando de qualquer maneira, mas a minha ideia era fazer, sei lá, e nasceu.

Portelamor: Isso que o senhor está dizendo que fez aos oito anos, rimar nomes, alguns de seus biógrafos, de seus críticos, dizem que é uma característica muito marcante sua.

Monarco: Justamente, eu adoro isso. Meu velho pai era um poeta, esquecido. O Cartola tem um trecho de um samba que fala em “pote esquecido”. Mas as rimas dele [do meu pai] eram rimas fortes, rimas ricas. “Rimas ricas”, era assim que ele falava, meu velho pai. Ele fazia versos, fazia as coisas dele, escrevia num caderninho, em folhinha papel, mas não eram rimas quaisquer.

Portelamor: O senhor guarda ainda esse caderno?

Monarco: Guardo. Ele morreu e deixou para mim. Dos filhos, para quem ele deixou, foi para mim. Ele deixou as ferramentas para o Nilton, que é o filho do meio. A intelectualidade do partido, da política, ele deixou pro mais velho.

Portelamor: Isso nunca foi publicado?

Monarco: Não, eu nunca liguei para isso, não. Eu musiquei uma letra dele, esse menino o Tuco [Pellegrino] musicou outra e tenho lá guardadinho, que ele me deu amarradinho, com barbante, no jornal, as poesias dele. Eu herdei a parte poética do meu velho pai. Uma vez eu fiz uma entrevista pro Jornal do Brasil: “Monarco, filho de um mineiro bom de Ubá”. Meu velho é de Ubá, a terra de falecido Ary Barroso.

Portelamor: Monarco, há oito canções em parceria. Três com seu filho, o Mauro. Como é esse processo de composição, letra e música com seu filho?

Monarco: As minhas parcerias, antigamente, eram com os velhos. Eles foram embora, eu fiquei sem os parceiros. Aí, fiz música com o Ratinho e com o Mauro, meu filho. O Ratinho morreu, então, hoje, quando eu tenho uma primeira eu mostro para ele: “Mauro, eu tenho uma primeira, você quer ouvir meu filho?”; “Canta aí, papai. Canta e deixa aí”. Aí eu boto no gravadorzinho dele lá. Passa lá um ou dois anos, três ou dez, sei lá. “Sabe, você deixou um negócio comigo lá. Eu botei uma segunda”; aí eu digo: “Canta, eu quero ouvir”. Então a gente grava. Eu consegui fazer com o Mauro umas quinze ou vinte músicas. Então, desse baú, nós gravamos “A grande vitória”, bem nova, e eu dei a primeira para ele. Isso é uma alfinetada, quando eu fiz o Nilo ainda era presidente: “A Portela espera / que cada um saiba cumprir / com seu dever”. Vocês estão cumprindo com o de vocês, se fantasiando, correndo atrás. Mas eles também têm que cumprir com o dever deles. [Monarco canta um trecho de um samba]:

A vontade impera
E o portelense não se cansa de dizer
Que esse ano é o ano da consagração
Oswaldo Cruz e Madureira
Sentem emoção
E o grito da garganta vai sair
E a grande vitória, finalmente vai surgir

Quando eu cantei pela primeira vez, ele [O Nilo] foi virando as costas e foi embora. Acho que ele sentiu, quando eu canto “A Portela espera que cada um saiba cumprir com seu dever”, porque o folião, o portelense, o desfilante está cumprindo, carinhosamente, o seu dever. Mas quem não está cumprindo são eles, os donos do dinheiro que está entrando: eles não estão cumprindo. Então eu dei essa alfinetada neles.

Portelamor: O senhor escreve em uma de suas composições justamente isso, sobre nosso dever para com a Portela. O senhor cumpriu e vem cumprindo o seu dever com um brilho raro. Será que a profecia dessa canção vai se cumprir em 2015?

Monarco: Vai! O sonho do portelense, nesse samba, vai ficando, até vencer. Ele nasceu e está aí. O sonho do portelense é ganhar um carnaval. E eu tenho fé em Deus que a Portela agora está lutando para isso, porque teve anos aí que ela estava entrando e já sabia que não ia disputar nada. Eu, conversando com o Anísio [Abraão David, Presidente de Honra da Beija-Flor] uma vez, fiquei triste. Estávamos na rua da Assembleia. Conversa vai, conversa vem, aí o Anísio falou uma coisa para mim, que eu fiquei triste: “Monarco, a Portela não está disputando mais nada, infelizmente”. E ele tinha razão, porque não estava mesmo. E eu peguei e retruquei, rebati ele: “Anísio, não está. Porque ela não está organizada. Ela está sendo dirigida por pessoas mal-intencionadas. Porque a Portela bem dirigida, organizada, disputa carnaval sim. Porque ela tem tudo o que as outras têm. Nós temos um chão que, se não fechar portas, a Portela desfila com cinco mil pessoas. Esse ano eu chamei a atenção do Falcon, sobre as camisas: “Ah, eu tenho calça branca, me dá uma camisa aí”. Que é isso? Portela não é escola disso! Para quê? Para ficar lá dentro, olhando para arquibancada? Nós queremos pessoas cantando o samba, fantasiadas com a roupa, cantando o samba da escola. Não é porque mora lá não sei onde, que diz: “Você tem vinte camisas para mim, aí?”; “Ah, passa aqui e apanha”. Não, não. Eu falei: “Falcon, não deixa”. O que teve de camisas foi lá para o fim, para o fim de tudo. Quando passou a escola, eles vieram, aí sim. Mas ali, no meio da escola, atrapalhando, dando beijinho para a arquibancada? Nós não queremos isso, nós queremos ver o pessoal vestindo a farda, apostar e cantar, como a escola cantou esse ano. E quem tem salvo a Portela, graças a Deus, ainda é o samba-enredo que a Portela tem cantando na avenida. Aquele “Madureira sobe o Pelô” [“Madureira sobe o pelô, tem capoeira...]”... Teve presidente de escola de samba que disse: “Monarco, eu com um samba desse não perco o Carnaval”. Mas o que adianta, abrir os envelopes de samba-enredo: dez, dez, dez. Quando vai para o negócio de alegoria, sete, nove vírgula não sei o quê... O que salvou a Portela foi o samba-enredo.

Portelamor: Monarco, estamos quase terminando. O senhor até já respondeu, mas eu vou fazer de novo essa pergunta, porque ela foi importante. Quando eu estava ouvindo seu CD e lendo suas biografias, percebi justamente essa relação da poesia, que vem já de berço. E o papel da poesia nessas composições, qual seria? O senhor estudou poesia, estuda poesia?

Monarco: É predominante, pois é aí que está o lirismo, que está a poesia, que está a vestimenta. A pessoa ouve e sente que tem algo a ver. A gente fala das flores, das desilusões amorosas, com sentimento, tem que ter sentimento. Não é você pegar uma letra bem elaborada e tudo e jogar aquilo, sem música nem nada, só rimado. Ter que ter de tudo um pouco. As minhas letras são simples, mas elas vêm com uma melodia, com sentimento. São coisas feitas assim, coisas ingênuas, sabe? Sem o grande português assim, deslumbrando... Mas graças a Deus, eu tenho certeza que meu samba, quando vai ao ouvido de alguém, leva uma alegria, alguma coisa a mais, compreendeu? Ou que seja até tristeza, e tudo, mas uma tristeza bonita. Noel já dizia, né? [Monarco canta um trecho de “Feitio de oração”, de Noel Rosa e Vadico]:

E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração

Se não passar por aqui [pelo coração], ele não tem graça. Você vê aí que eles estão com um samba tocando na rádio, toda hora. Canta, canta, daqui a pouco tu procura e ele some. Tem samba aí que há cem anos se canta [Monarco canta mais um trecho de um samba da antiga, de Candeia, Alcides Lopes e Manacéia]:

Eu vivia isolado do mundo
Quando eu era vagabundo
Sem ter um amor

Alcídes era um cara de uma vida de boêmio, aí encontra uma namorada, gosta, casa... E a mulher canta junto com ele. Então, tem sentimento. Isso é um samba de 1946, 47. Já se vão lá mais de 60 anos. Então, você vê que tem samba aí que parece que tem um prazo de validade, sabe? Chega ali e já pode descartar. Pode ter vendido ali, num jabá. Na Portela, temos um acervo de coisas lindíssimas que estão quietinhas lá, mas amanhã ou depois, elas vão sozinhas. A música, quando é boa, vai sozinha. Canta aqui, canta ali, outro escuta aqui, escuta ali. Daqui a pouco, quando você vê, ela está aí. Está entrando e ficando, eternamente, por aí. Então, tem que ter o lirismo, tem que ter a poesia, tem que ter as rimas ricas, os versos fortes, tem que ter. Se não, não fica.

Portelamor: E para o futuro, o que o seu baú nos reserva?

Monarco: Eu tenho muita coisa, e continuo fazendo. A válvula de escape da minha vida é compor, é fazer meu samba, compreendeu? Então, eu continuo. Tem muita coisa guardada, muita coisa, dava para eu fazer ainda uns 3 ou 4 CDs de músicas minhas, que tenho guardadas. E continuo fazendo. Às vezes faço uma primeirinha e boto num canto ali e deixo, mostro para um amigo. Tem umas que já vem me chamando para eu acabar, eu sinto. Aí eu vou... Às vezes você dá uma primeira parte para uma pessoa acabar e a segunda parte não vem como você queria. Aí, de repente, eu boto até outra, e explico à pessoa: “Você não entendeu a minha mensagem, não leva a mal”. Então, eu boto outra segunda. Eu tenho um samba gravado, não vou citar o nome, porque ele é um grande compositor, mas ele não foi feliz, acontece isso, que a Beth [Carvalho] gravou: “Obrigado pelas rosas que me deste, amor”. Eu fiz esse samba em homenagem à Dona Ivone. Eu estava cantando no teatro Opinião, tinha saído do hospital, aí ela chegou com o Nelson Cavaquinho, com um apanhado de flores, me entregou aquelas flores, eu fui e depois fiz esse samba. Aí dei para uma pessoa botar a segunda, ele botou, e não foi legal. Eu mandei com a segunda dele, fiz uma fita e acabei mandando, por aí. Aí depois eu cutuquei, e disse: “Vou botar uma outra segunda nesse samba”. E botei, sem ele saber nem nada. Fiz uma outra fita e mandei. Ligaram pra mim, pessoal lá da produção de arte: “Escuta, o que houve com essa música, assim, assim e assim? Você já me mandou essa música, mas o que houve que ela está rendendo mais?” “Ah, eu fiz outra segunda”, eu falei. “Ah, eu logo vi. Pode vir cá para baixo que vai gravar agora. Traz a letra para mandar para a censura, que a Beth vai gravar”. O Gerson [ex-jogador da seleção canarinho] uma vez falou: “Pô, o cara dá um passe açucarado para o outro e recebe uma melancia no peito?”. É a mesma coisa. Eu fiz uma segunda de um jeito e o cara apronta uma segunda cheia de muitas letras, mas cadê a melodia? Não entendeu meu lance, foi para outros cantos. Então, eu faço músicas, hoje, com meu filho, o Mauro. Porque eu tenho a autoridade de dizer pra ele: “Teu pai não gostou. Faça outra que essa daí não valeu. Não, não é isso meu filho, você faz melhor do que isso, que eu sei”. Aí ele vai, compreende e faz. E aí eu digo: “Ah, viu? Eu não disse que tu fazias melhor?” Eu mesmo me critico às vezes, eu faço umas coisas que digo: “Não, não é isso”. Eu fiz uma samba para o Jacarezinho, em homenagem ao Geraldo Pereira. Estão fazendo agora um documentário com o Geraldo [Pereira], até o sobrinho-neto dele veio atrás de mim, e eu fui lá com ele ajudar. Então, eu gostava muito do Geraldo, eu fiz uma homenagem a ele, fiz o samba. A escola desfilou e ganhou o Carnaval. Mas no final do samba, antes de ir para o concurso, para escolher o samba e tudo, assim que o samba nasceu, a segunda parte, no fecho dela, eu não gostava: “Não é isso!” [Monarco canta um trecho]:

Já lembramos vultos da nossa história
Que estão cobertos de glória
Nessa terra alvissareira
Hoje o artista foi feliz
Lembrou-se de uma raiz
Da música brasileira
É o orgulho da nossa Estação Primeira
Se divertia nos bailes das gafieiras
E hoje nós cantamos com prazer,
Para enaltecer
O nome de Geraldo Pereira

Aí, na segunda parte, tudo bem. Quando chega no final, eu ficava:

E o Jacarezinho, contendo lei e carinho
(...) de coração
(...) faz essa grande emoção

Não é isso não, esse acabamento. Aí, bateu:

E o Jacarezinho enaltece o escurinho
Que tinha a mania de brigão

Então, era isso que eu queria, porque ele [Geraldo Pereira] escreveu:

O escurinho era um escuro direitinho
Que agora tá com essa mania de brigão
Parece praga de madrinha
Ou macumba de alguma escurinha
Que lhe fez ingratidão

Então aí, eu coincidi direitinho, compreendeu? “O jacarezinho enaltece o escurinho / Que tinha a mania de brigão”. Aí eu ganhei o jogo. Quando fomos lá para disputa, os que estavam disputando comigo diziam: “Filho da puta, como é que tu conseguiu fechar esse samba?” Então, é isso aí, às vezes eu me critico a mim mesmo, e faço melhor. E também quando vem com uma segunda ruim para mim: “Pô, não leva a mal não. Faz outra que essa... Eu te dou uma açucarada e tu me joga uma melancia no peito?” É isso aí.

Portelamor: Monarco, chegamos ao fim de nossa entrevista, infelizmente. Queremos agradecer muitíssimo essa honra e esse privilégio de conversar com você e de podermos também ajudar a divulgar seu trabalho, no nosso site, para nossa torcida e para todos os amantes do bom samba. Muito obrigado, de coração.

Monarco: Eu que agradeço a vocês, muito obrigado.

 

Entrevista concedida na manhã e no início da tarde do dia 20 de setembro de 2014 a Paulo Oliveira e Jorge Anselmo, da Portelamor. O encontro se deu na Rua 24 de maio, a princípio, mas a entrevista foi gravada na casa de nossa amiga Beth (Elizabeth Gomes da Silva). Agradecemos muitíssimo a ela pela gentileza, o que nos propiciou mais comodidade na entrevista.

Agradecemos ao Eduardo Zaqueu de Oliveira Moreno, pela transcrição, edição do vídeo e do áudio.
Agradecemos a Monarco, nosso entrevistado, por sua gentileza, afabilidade, nobreza, que faz jus a tudo o que seu nome artístico evoca.