Clara Nunes ancestral: um mito revisitado

Paulo Oliveira

Conta-me uma amiga, brilhante professora, brilhante poeta e pensadora, que Clara Nunes era uma força no palco, um Orixá, uma entidade que se manifestava pelo veículo da voz, comparada somente ao que hoje é Maria Bethânia. Não tive a alegria de assistir Clara no palco, e fico pensando no que deve ter sido a experiência de vê-la, pelo que experimento ao ver Bethânia. Não por coincidência, as duas se cruzam na fé que comungam. A comparação que se faz das duas cantoras às entidades do Candomblé (e da Umbanda) não é imprópria, imerecida, nem é apenas frase de efeito: minha amiga captou a essência deste “ser de luz” que foi Clara. Não sendo eu um romântico do século XIX, mas, entretanto, sendo humano, sempre me emociono ao ver em vídeo os shows e clipes antigos da mineira filha de Ogum com Iansã. Não raro, eu, que sou pouco afeito às lágrimas, custo a contê-las. Para mim, isso se deve ao fato de Clara ter traduzido em sua figura e em sua música um feixe de luz e emoções intensas. Como todos podem ver, escrito belamente em nosso site Portelamor, quem ama tem saudade – e pode até chorar. Clara nos emociona, não somente por conta da luz que emanava: ela era uma mulher do bem. Poderíamos ainda falar de um “dom”, vindo não se sabe de onde, nem de que esfera – dom no qual acreditávamos existir (eu ainda acredito) ao ouvi-la e vê-la – mas, para mim, o fato é que a mineira portelense exalava humanidade e verdade.

Clara foi uma entidade em presença, Orixá entre as gentes, uma aparição tão concreta que, depois de sua morte, conferimos a ela uma aura que vai além da existência física, ultrapassa o evento de sua passagem, ocorrida tão prematuramente. Há um “para-além” do corpo físico de Clara que não se explica, assim como um segredo, que só pode ter sentido se permanecer não revelado. E é assim que os mitos se constroem; é assim que cada um de nós constrói uma Clara particular, a “nossa Clara”; e é assim que Clara fala a nós, de formas diversas, em línguas e linguagens distintas, as maiores delas sendo a música, o samba, o amor pela Portela. Mas a pergunta essencial é: em que consistem essa humanidade e essa concretude? Como falar de um mito e de uma presença tão poderosa que se manifesta invisivelmente em nossos corações e mentes? Socorramo-nos com o poeta português Fernando Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”.

Ih, pronto! Já vem a poesia! Mas é isso mesmo, lo siento. Porque não se pode falar de fenômenos como Clara Nunes sem recorrer ao poético. A razão não daria conta de tudo, nem a filosofia: são duras demais para explicá-la. Vejamos: por caminhos desencontrados, a Sabiá só poderia desembarcar na Portela, estava escrito. Rejeitada na Mangueira, encontrou na Portela mais do que uma casa, foi lá que se ergueu o mito, nosso mito. Foi lá que pranteamos sua passagem. Foi na Portela, filha ilustre do carioquíssimo subúrbio de Madureira, que se eternizou a mineira guerreira, hoje o nome (justíssimo) da rua onde se situa a quadra da azul e branco. Uma honra para nós, portelenses, habitarmos a Rua Clara Nunes.

Mas Clara, o mito, também é reconhecida como Clara, a cantora. Não a cantora de samba, somente; não cantora étnica apenas, mas Clara Nunes, uma das maiores e melhores vozes que a MPB produziu. E com um repertório irrepreensível, que vão da MPB mais popular até a mais (com todas as aspas e senões, por favor) “sofisticada” das canções. O espaço de duas páginas seria insuficiente para falar dessa trajetória musical e de um repertório tão vasto e importante. Escolheremos alguns exemplos e com eles julgamos suficiente essa nossa lembrança da dimensão artística de Clara.

Em primeiro lugar, foi na voz dela que o “hino extraoficial” da Portela ganhou mundo e corações. Pode ser que haja portelenses que não conheçam, não se lembrem ou não saibam de cor o hino oficial da Portela, mas é raro quem não cante os versos de “Portela na Avenida”, com passagens antológicas, como “Portela / é a deusa do samba e o passado revela / E tem a Velha-Guarda como sentinela / E é por isso que eu ouço essa voz que me chama”. Imortalizada na voz de Clara, a canção é presença obrigatória nos “esquentas”, nas quadras, nas festas das torcidas. Com essa canção, Clara será eternamente lembrada e cantada e a escola do coração para sempre homenageada por sua voz maior.

Em segundo lugar, lembramos seu apreço pelo samba, pelos sambistas, do morro ou do asfalto, que levou para seus discos – quase sempre sucessos incomparáveis de vendagem (reza a lenda que, quando o Fantástico, da Rede Globo, colocava um clipe dela no ar a audiência subia). Essa generosidade e essa preocupação em levar ao público a herança e a tradição popular do samba fez de Clara uma das embaixatrizes dessa arte que já foi marginal e graças a artistas como ela é hoje símbolo cultural nacional e patrimônio imaterial da humanidade. Nesse quesito, Clara se junta a Paulo da Portela, a Monarco – outro aniversariante – a Cartola, a Candeia, Nélson Cavaquinho e tantos “irmãos de samba”, como cantou outro irmão, Paulinho da Viola, também gravado por Clara. Houvesse uma Academia Brasileira do Samba, uma cadeira deveria levar o nome de Clara, que, como Beth Carvalho, Alcione e tantas outras carregam ou carregaram a bandeira do samba e a defendem com a espada de Ogum. Essas mulheres tão fortes carregam raios e trovões, Eparrei oiá! Clara foi abençoada por esses raios.

Por último, a voz segura, nítida, de timbre inconfundível deu sentido e lugar à herança religiosa africana, privilegiando as tradições culturais desse povo vilipendiado pela história no abominável episódio da escravidão, que se perpetua ainda hoje nas favelas, nas exclusões sociais e culturais diversas e que ainda estão por aí, de forma patente ou latente, ou ambas. Clara cantou o grito forte desse povo: “Canto pelos sete cantos / Não temo quebrantos / Por que eu sou guerreira. / Dentro do samba nasci / Me criei, me converti / E ninguém vai tomar / Essa minha bandeira”. Bandeira que levantou e conduziu até sua trágica morte. Cantou as angústias e os sofrimentos das raças que nos formaram e formam: “Ninguém ouviu um soluçar de dor / No canto do Brasil”. Índios, negros, trabalhadores, o canto das três raças é o canto de Clara, emprestando sua voz aos excluídos, despossuídos e pilhados: “Esse canto que devia / Ser um canto de alegria / Soa apenas como um soluçar de dor”.
Clara entregou sua voz àqueles que não a tinham e que, por meio da música da mineira puderam ouvir seu grito ecoando nas rádios, TVs, toca-discos e hoje em CDs e nos meios virtuais. Ouvir Clara Nunes é aprender um pouco da história do Brasil, de nossa cultura, das lutas e desejos desse povo, haste fina de uma planta, “que qualquer vento verga, mas nenhuma espada corta”, já disse Paulo César Pinheiro.

A Sabiá hoje alça voos em outra esfera. Está certamente cantando em outras paragens, encantando com sua voz, seu sorriso e sua presença. Nós, que não a temos mais fisicamente, no entanto a sentimos, com os corações encharcados de lembranças e com nossas vidas banhadas nessa luz traduzida em forma de som, de voz, de canção. E para isso, basta somente colocar um CD de Clara Nunes para tocar. E fechar os olhos. E lembrar...