Um ano para esquecer e lembrar: 2013, ano 1 da Nova Portela

Começaremos nossa conversa com um pequeno verso do poeta russo Vladímir Maiakóvski:

Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o coração.
Sobre o coração levamos o corpo
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.

Se no mundo do samba já houve Hans Christian Andersen como enredo; se o deus Thor já deu suas marteladas na avenida; e depois de pistas de esqui, mangalargas e outros, acho que não fica esdrúxulo unir o poeta russo ao universo azul e branco. Aliás, é para falar desse momento, para mim, altamente poético, que trouxe os versos acima. Estamos em estado de êxtase, expectativa e esperança. Depois de eleição apertadíssima, duríssima, nossa escola finalmente vê-se ressurgir (literalmente) dos escombros nilofigueiredianos. Há que se dizer da atmosfera de alívio que se instalou após a nova diretoria assumir os destinos de nossa escola. Se tudo, até pouco tempo, era apenas promessa, e se a promessa só se realiza se cumprindo, então, o destino da promessa é o seu desaparecimento, pois, cumprida, cessa sua razão de ser. Só se realiza a promessa, portanto, matando-a.

Embaixo da camisa há um corpo e dentro dele um coração, nos canta Maiakóvski. Vestir a camisa é essencial, deixar o coração bater com força e fé é preciso, mas tudo isso é pouco diante dos desafios. E o maior desafio do homem sempre é o próprio homem. A vaidade, a opinião e o interesse são os grandes motores da sociedade, no pior sentido da realização política, não apenas a política partidária, mas qualquer outra que mova as paixões do homem em sua caminhada pela terra. No mundo apaixonado do samba, há que se voltar um pouco ao que os gregos pensavam: um certo equilíbrio é necessário para que a carruagem não saia da estrada. É tempo de comemorar. E também de refletir.

E que auspicioso ano, este de 2013. Das trevas à luz, a lição que se tira é que, por enquanto, já podemos ver um túnel. A luz que lá dentro brilhará – e cremos firmemente nisso – depende de quem a acenderá (e pagar as contas atrasadas da Light). Estamos confiantes que Serginho, Monarco, Falcon e toda a incansável trupe que a eles se aliou, no projeto de uma Portela renovada, está com a mão no interruptor. Que essa mesma luz ilumine "os caminhos da Portela, que eu guardo em meu patuá". A tarefa é árdua, mas a briga é boa e a causa, melhor ainda.

Essa Direção tem a maior responsabilidade, sem exageros, já colocada nas mãos de um dirigente portelense, se não de toda a história da agremiação, pelo menos de nossa história recente: reconduzir a águia aos mais altos voos pelo céu do carnaval. E é nesse auspicioso ano de 2013, em que, às homenagens a nossa eterna Clara Nunes – há 30 anos, em 02 de abril de 2013, a Sabiá nos deixou – e aos 80 anos de Monarco (17 de agosto de 1933 – atual), ousamos dizer que mais um capítulo da história da escola está sendo escrito, após a eleição da chapa Portela Verdade. Em crônicas anteriores dissemos que 2013 foi um ano a ser esquecido, por conta do pífio desempenho de nossa escola na avenida. Mas nesse mesmo 2013 se anunciam três grandes e especiais momentos, que fazem, ao contrário, com que 2013 seja especial.

Em primeiro lugar, o aniversário da morte de Clara Nunes, cujo nome fala por si. Clara foi, não só a grande sambista que emprestou seu carisma à Portela, mas uma das maiores intérpretes brasileiras. À Portela, Clara entregou seu coração. Confirmando o poeta Maiakóvski, sobre o coração de Clara havia um corpo e sobre o corpo as vestes portelenses. Clara foi um de nossos símbolos maiores, e carregou a Portela dentro do coração, e não fora. Com irrepreensível carreira de intérprete e por vezes de compositora bissexta, Clara foi a expressão fiel de amor à escola. Não uma fidelidade canina, à espera do afago do dono, mas uma fidelidade amorosa pela escola com que trocava carícias. Fosse viva, seria o maior dos baluartes portelamorenses. A ela, uma crônica especial será dedicada, entretanto, nesta breve escrita de alegria pelo desenho de mudança que se rabisca, Clara é lembrança essencial, pois foi quem nos mostrou como se ama incondicionalmente, e como é bom amar o amor.

Com Monarco – que é, não somente, um de nossos maiores baluartes, a completar, grandiosamente seus 80 anos, mas também, agora, nosso queridíssimo atual Presidente de honra – presente e passado se misturam, em uma ponte que nos renova o orgulho de termos uma das histórias mais belas do mundo do samba – e não somente do carnaval competitivo (A Monarco, uma crônica especial também será dedicada). Salve Monarco! Que os deuses do samba o protejam, mais e por muito tempo. Sua vida e sua carreira de compositor é a prova cabal de que a Portela não é apenas uma escola de samba, é uma academia de arte popular e de vida.

E com a nova diretoria, comemora-se o retorno da vontade de lutar e vencer, de sonhar com os voos mais altos e belos de que a águia é capaz. Nessa nova diretoria, depositam-se as esperanças dessa nação azul e branca, tão maltratada nesses últimos decênios. E que venha a festa e que a celebração seja a da união, do desapego a cargos e barganhas, às politicagens que tanto prejudicaram a escola. Que esta seja uma gestão democrática, a dar exemplo, não apenas dentro dos domínios portelenses, mas que possa também ser referência no mundo do samba. Temos muito a aprender com a história de nossa agremiação. Mais de uma vez, dissemos aqui, nesta coluna, que foi por conta dessa história que não sucumbimos às trevas.

Somos devotos de Clara Nunes Guerreira, Eparrei, oiá!; temos orado com os belos sambas de Monarco e agora depositamos nossa fé no futuro da escola nessa nova rapaziada que aí está. Um ano pra se lembrar, eu digo agora, em meu nome e dos portelamorenses, esperando ver nossa escola livre do que até pouco tempo só nos deu motivos para falar de crise, vergonha, embaraço, descaso, indignação. Queremos novos tempos e para isso é preciso muita responsabilidade. E já que iniciamos com Maiakóvski, fechemos com ele, acreditando profundamente no que vaticinam esses versos: um novo amanhã, para todos nós e para a nossa amada escola:

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro.

Avante, Portela!!!

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