Crônica de uma derrota anunciada (e as lições que tiramos disso)

Paulo Oliveira

Há um ditado, um grande lugar comum que diz que a esperança é a última que morre. Ao que o malandro do samba completa: “Mas morre!” E a esperança dos portelenses de verdade de que a atual diretoria pudesse nos surpreender de alguma forma morreu naquela manhã de 11 de fevereiro de 2013, depois do combalido desfile em que se apresentou na avenida aquele tal carnaval que os atuais dirigentes estão cansados de aprontar em 30 dias. E que nós estamos cansados de ver no que dá: um desfile patético, carros alegóricos mal acabados e sem nenhum vislumbre de criatividade. E não se está falando apenas de dinheiro, mas de desleixo e falta de originalidade. Um barracão para esquecer, com todos os problemas advindos de um grupo inepto. Nosso pretenso desafio, na última coluna, infelizmente não logrou sucesso: Nilo Figueiredo e os seus, sem surpresas, continuam os mesmos.

Em contrapartida, o desfile mostrou que aqueles elementos que a Portelamor não cansa de apontar, elogiar e saudar, como símbolos do verdadeiro espírito azul e branco lá estavam. São aqueles elementos-força, que a atual direção ainda não conseguiu destruir, embora se empenhe e muito para isso: componentes pisando a Marquês de Sapucaí com garra, cantando com raça o melhor samba de 2013; evolução eficiente; bateria de arrepiar. Tudo orquestrado por uma história e pelo respeito emocionante a uma memória que não cede à mediocridade que se instalou na rua Clara Nunes, esse outro espírito que se recusa cantar para subir, renitente, obsessor. E para despachá-lo, só com muita água-benta, sal grosso, galho de arruda, e – por que não? – uns dentes de alho, muita toalh a branca e muita prece na gira de Kardec (sem contar o auxílio das mães-de-santo de Madureira e Oswaldo Cruz, em sessão de descarrego). Brincadeiras, à parte – afinal trata-se de um site de samba, de carnaval, em que impera a alegria e o amor à Portela –  é tempo de retirarmos algumas lições desse último carnaval.

Em primeiro lugar, entendemos que o sétimo lugar foi na verdade um prêmio, por um lado imerecido, pelo que apresentou a escola em termos de barracão, mas merecidíssimo pelo que se viu de seus aguerridos desfilantes, além do samba, excelente, perfeito, pelo segundo ano consecutivo uma obra de exceção. Mas a colocação não espelhou nem de longe aquele desastre mal embrulhado e entregue ao portelense na forma de carros alegóricos pífios e mal acabados.

Segundo, o barco está definitivamente sem comandante (e cremos que sem leme, alguns acham que nem barco mais é, é jangada). Não apenas plasticamente, mas em todos os setores da escola o que se vê é o sucateamento da escola: falta luz, falta água, funcionários não recebem seus vencimentos, atraso em todos os cronogramas, fornecedores levando calotes, Polícia Federal sendo acionada, contas que não fecham, sócios que não sabemos quem ou quantos são, patrocínios ameaçados, ou seja, o que mais o senhor Nilo Figueiredo precisa para que, cabisbaixo, furibundo, macambúzio e envergonhadamente, deixe, educada e silenciosamente, a escola seguir um melhor destino? Espera um convite? Ou talvez a arrogância dos que se julgam acima do bem, do mal e das tradições da escola o impeça de ver que a humildade é uma virtude e que o reconhecimento de que a Portela está acima de vaidades pessoais e dos projetos megalomaníacos de continuidade e manutenção do poder é uma prova de amor à escola. Saberá ele que os portelenses já não o reconhecem sua legitimidade há tempos? Um ato de grandeza talvez fosse o ponto final decente que ele poderia colocar em sua trajetória na escola. Se um desastre acontecer e a chapa por ele apoiada levar a eleição, o que será da agremiação? Isolado, reinará este senhor como aquele gigante egoísta do conto de Oscar Wilde, orgulhoso de seu jardim sem permitir que nenhuma criança nele brincasse? Mas o gigante do conto foi capaz de se enternecer perante a figura de um menino, que era, na verdade um anjo. E então foi salvo. Quer o senhor Nilo se salvar? Será que há por aí algum anjo torto, um chato de um querubim, dando sopa e que possa nos ajudar?

Em terceiro lugar, fica a certeza de que é na crise e nos momentos difíceis que o amor se revela, como antídoto, bálsamo, remédio para os males. A crise da azul e branco uniu portelenses de todas as orientações em torno de um projeto de futuro. Ficaram com atual administração os que, por amizade pessoal, interesses diversos e outros motivos, ainda apoiam o que resta de uma administração sem condições até de colocar água nas torneiras – e isso não é uma figura de linguagem ou de retórica; é, literalmente, um problema de calote na CEDAE. A devastação de Nilo e dos seus asseclas acabaram por unir os portelenses em uma irmandade jamais vista recentemente na história da escola. As feijoadas da comunidade portelense se tornaram o ponto de encontro dos que sonham com uma Portela forte e que acolha todas as diferenças, diferenças que se apagam em nome do amor à águia.

Por último, fica a lição de que, cada vez mais, se impõe como Verdade o lema de nossa torcida, a Portelamor: “Tudo pela Portela. Nada da Portela”. E que os portelenses que hoje testemunham como é nefasta a conjugação entre fisiologismo e política escusa e de interesses pessoais tirem uma lição para a vida: a escola não está a nosso serviço, nem a serviço de nossos interesses. A Portela está acima de torcidas, grupos, administrações. Tudo isso passa e a escola fica, como bem vimos neste último carnaval: foi porque tínhamos as bases de uma casa fundada na tradição e no amor às raízes e à história que a caravana portelense passou, com todos os percalços, enquanto ladravam os cães da ruína.

“Posso perder, posso ganhar, isso é normal. Vinte e uma vezes campeão do carnaval”. Nunca foram tão verdadeiros os versos do samba. Mas sabemos também que a lição dos baluartes jamais foi a de elogio ao conformismo. A tradição portelense de luta se forjou com a história única de Paulo da Portela que, unindo mundos díspares em torno de um sonho possibilitou que o samba, hoje, se tornasse “Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil”. A luta dos portelenses está representada no vigor de Dona Dodô, que a cada aparição em nossa feijoada da comunidade portelense nos transporta para aquele distante ano de 1935, quando se tornou, lenda viva, Porta-Bandeira campeã. A força da Portela ecoa pelos sambas da Velha Guarda, que diariamente ouvimos nas rádios e TVs do Brasil e que faz com que a nação azul e branco seja, ainda e com todos os percalços, o celeiro de bambas que nos legou Paulinho da Viola, Clara Nunes, Monarco, Candeia, Argemiro, e tantos outros, mas tantos que não caberiam neste espaço, pois “se eu for falar da Portela, hoje eu não vou terminar”.