Flânerie, andanças ou a arte de bater pernas nas ruas de Oswaldo Cruz e Madureira

Paulo Oliveira

Esta crônica nasceu de uma conversa com um colega professor em um bar-botequim de São Gonçalo, durante almoço. Obviamente e infelizmente, sem uma cervejinha gelada para acompanhar. Falávamos da flânerie, um termo metido a besta que João Baptista Vargens espertamente traduziu por “andanças”, em seu livro sobre o Casquinha da Portela. A flânerie dos poetas franceses fazia parte da paisagem parisiense do século XIX e ilustrava a modernidade que se anunciava naquelas ruas: os cafés, as casas de espetáculos, as livrarias, o comércio, o burburinho nos bulevares, o alarido da vida noturna, o ópio, o absinto. Eu dizia a meu colega de trabalho que em Oswaldo Cruz e Madureira, à moda do mundo do samba, também havia a tal flânerie. Sem os bulevares, claro. Entretanto, a Estrada do Portela, a Rua Carolina Machado, a linha do trem faziam as vezes das vias urbanas de Paris. Os botequins, a macumba, as rodas de samba e capoeira, o samba de quintal equivaliam aos redutos da boemia francesa ou pelo menos eu gosto de pensar assim, pois a poesia e a arte surgidas em Madureira e Oswaldo Cruz consagraram um tipo novo de sujeito, assim como a poesia francesa do século XIX: o homem das ruas suburbanas.

Quando eu era menino ainda, depois da escola e do “dever de casa”, eu ficava na janela a espiar a rua e os colegas que se juntavam para brincar. Era na Rua Leopoldino de Oliveira, em Turiaçu, onde eu morava com meus avós. Da sala, minha avó China (Dona Guiomar, para os não íntimos) dizia: “Já está esticando o pescoço!”. E quando eu saía, sorrateiro, ela reclamava: “Já vai bater perna, menino?!”. Não sabia a vovó que “bater perna” no subúrbio equivalia a uma arte que a escola do coração dela (e futuramente do meu), a Portela, consagraria como um modo de vida e de fazer arte. O João Baptista Vargas, que não é bobo nem nada, viu a flânerie traduzida nas andanças dos poetas portelenses, nossos dândis suburbanos. Vovó também havia sacramentado o fenômeno, na “bateção de perna”. Ambos estavam certos, certeiros.

Nas ruas de Oswaldo Cruz e Madureira e adjacências o botequim fez-se templo. Era preciso ir, andar, rir para não chorar, como disse o eterno Candeia. Os poetas do subúrbio não só esticaram os pescoços para a rua, mas depois viriam a cobri-lo, em sinal de majestade e elegância em prol da vitória do samba. Nas esquinas, no muro da estação, nos bares e quintais a poesia se anunciava e crescia forte feito tronco de jaqueira. A boemia até dava problemas em casa e ai de quem não voltasse com um samba para mimar a companheira aborrecida com as “fugas” dos passeadores. O fato é que sem as andanças os encontros não seriam possíveis, as amizades não surgiriam, já que, concordando com o poetinha Vinicius de Moraes, nunca se viu uma amizade nascer em uma leiteria.

Por isso, quando vejo a Portela botando seu bloco na rua com projetos de andanças pelas ruas de seu bairro só posso me orgulhar mais ainda dessa escola. Só se pode conhecer Oswaldo Cruz e Madureira e os bairros que os circundam andando pela alma encantada de suas ruas. E se as andanças eram privilégios dos homens, também as cabrochas, há um bom tempo, vem batendo suas pernas por aí: porque é preciso andar. Já dizia o samba “Benjamin”, do Josias, que a Guiomar (olha o nome da vovó aí!) era proibida de ir ao samba pelo Benjamin. Mas o amor falou mais alto e Benjamin acabou caindo no samba junto com a amada.

Estava eu no Samba da Ouvidor há pouco tempo quando ouço uma voz que me chama. Era a Teresa Cristina, portelense de fibra. Uma vez, na feijoada do Bola Preta, na nova sede, na Rua da Relação, e eis que lá está a Dorina, andarilha. No Cariocando, a Eliane Faria solta a voz, guerreira. E tem Moça Prosa, Tia Surica, a Mônica Trepte, incansáveis. Mulheres e andanças. Olha aí Benjamin! A Guiomar fez história. Se eu for falar das mulheres da Portela, hoje eu não vou terminar.

Seja em uma conversa num boteco de São Gonçalo, num papo de barzinho em Madureira, nas terras azuis e brancas, ou nas ruas parisienses o fato é que tudo sempre pode acabar em poesia. A rua é o nosso lugar. “De qualquer maneira, meu amor, eu canto”, disse mestre Candeia. E deixe-me ir. Vou bater perna porque o dia lá fora tá lindo!

Avante Portela!