O meu, o seu, o nosso Candeia

Paulo Oliveira

Este cronista que vos escreve nasceu em Turiaçu, bairro coladinho em Madureira e bem pertinho de Oswaldo Cruz. Jovem aluno da UFRJ, quando perguntado sobre onde morava, apontava Madureira, para evitar perguntas ou brincadeiras do tipo “onde fica Turiaçu”, “é em Nova Iguaçu?” Ainda não entendia à época que todo lugar, qualquer lugar, importa; e que toda história de vida é relevante. Imaturo, sorvia a biografia dos “grandes nomes”, dos “vultos” de nossa história e ignorava a minha própria biografia, de minha família e do meu lugar. Admirava de longe a cultura do samba, da Portela, especialmente, idolatrada pela minha avó China, que não perdia um desfile da amada escola. Mesmo assim, eu achava que aquilo não era coisa séria, muito menos para se estudar. Foi na universidade que ouvi falar de pertencimento, lugar de fala, e então Turiaçu, Madureira, Oswaldo Cruz, Rocha Miranda, o subúrbio em geral tomaram forma em mim. Antes, eu era deveras raso. Esses lugares tornaram-se fundamento, alicerce do que sou e faço hoje.

Com o Grupo Portelamor, tive e tenho a oportunidade de retomar o tempo perdido, de voltar àqueles lugares, ainda que sem sair da casa onde moro hoje, distante da Portela, e no entanto, onde me sinto tão perto dela. Por isso, e por muito mais, sou grato a esses portelamorenses que me ensinam a cada dia o sentido da amizade, da verdadeira casa. Essa crônica, em lembrança aos 40 anos da partida de Mestre Candeia é também uma homenagem à amizade e à crença na vida, que aprendo a cultivar todo dia com esse grupo querido de abnegados que se chama Portelamor. E ninguém melhor do que o quilombola Candeia, no calor de sua eterna chama, para me guiar nestas linhas apressadas.

Antônio Candeia Filho, ou simplesmente Candeia, nasceu no mítico bairro de Oswaldo Cruz, em 17 de agosto de 1935. Em 16 de novembro de 1978, com apenas 43 anos de uma vida intensamente vivida, Candeia nos deixou. O Mestre foi músico, cantor, compositor, escritor, agitador cultural, militante do samba, além de pai, amigo e defensor da cultura brasileira, da emancipação do povo negro e do pobre. Ouso dizer que ouvir Candeia é essencial nesses anos de 2018, mas isso é pouco: é preciso ouvir Candeia sempre, assim como fizemos, na Portelamor, quando escolhemos o mestre para dar continuidade ao projeto de resgate da obra de nossos baluartes. Como sempre, o grupo abraçou algo que era para ser modesto e faz de singela homenagem um trabalho de amor à herança cultural da Portela.

Candeia é nosso segundo homenageado do projeto Imponência Portelense. Quis o destino que Casquinha, nosso primeiro homenageado, nos deixasse neste ano de 2018. E Candeia, este outro imenso portelense não poderia ser melhor companheiro de Casquinha. Vale lembrar que Candeia elegeu Casquinha seu parceiro ideal e o que os dois nos legaram com essa parceria soa mais imponente quando ouvimos suas inesquecíveis criações. As histórias de ambos se tocam, se confundem, pois foi uma parceria de amizade e arte para toda a vida e essa corrente não se quebra. Casquinha está agora em companhia do amigo, quem sabe os dois a compor lindos sambas ou se desafiando nas rodas de partido alto.

Este trabalho com as mais de 150 canções recolhidas da obra de Candeia é um aprendizado que nenhuma disciplina universitária me deu. Com Candeia, aprendi que o tempo é tão relativo quanto aquilo que fazemos com ele, pois é difícil imaginar que alguém, apesar de todas as adversidades da vida, pudesse ter realizado tanto. Candeia formou-se nas rodas de samba e nos terreiros de Oswaldo Cruz. Aos 17 anos, tornou-se o mais jovem compositor a ter um samba escolhido por uma grande escola de samba para representá-la na avenida e o samba era simplesmente o que disputaria o lendário carnaval dos 400 pontos, de 1953. A Portela sagrou-se campeã e o samba “As Seis Datas Magnas”, de Candeia em parceria com Altair Prego, obteve nota máxima do júri. Candeia estreou neste que é ainda hoje considerado o maior desfile da Portela de todos os tempos e, para muitos, do carnaval carioca.

Candeia ganharia mais quatro concursos na Portela. Tornou-se policial civil linha dura na década de 1960 e, sem abandonar o samba, lançou cinco álbuns e participou de vários discos de inúmeros compositores. Axé – Gente amiga do samba, lançado postumamente, é considerado um dos mais importantes trabalhos da história do samba. Com Isnard, Candeia escreveu o livro Escola de samba: a árvore que esqueceu a raiz, publicado no ano de sua morte. Criou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, em 1975. E fez muito mais. Se for falar de Candeia, reza o dito portelense, hoje não vou terminar.

O Candeia que homenageio aqui é o que me ensina, cada vez que volto a suas canções, o valor do pertencimento ao lugar. Com ele aprendo que orgulho não é soberba, imponência não é tirania. Orgulho, ensina o mestre, é saber-se dono de si, de seu tempo e de seu lugar, é fazer de templo um botequim, é ensinar aos nossos que não se deve humilhar nem se deixar humilhar por ninguém, que todas as raças já foram escravas e, mesmo tendo sido escravo, o negro não criou uma arte de exclusão: o samba é cultura de acolhimento e é desse tipo de orgulho que se trata. Imponência não quer dizer subjugar o outro, mas afirmar-se como sujeito de uma nobreza que vem de muito antes, de uma ancestralidade que nos forma e conforma, nos torna o que somos: imponência é estar frente a frente com o ódio e vencê-lo pelo amor.

Candeia amou o samba; amou seus seguidores, que hoje o reverenciam como raiz forte de uma árvore de doces frutos. Se um tiro o impediu de andar, ele seguiu, a sorrir e não a chorar. Sua poesia criou asas fortes e voou. Se seu tempo no mundo foi curto, ele o preencheu com a intensidade dos apaixonados, com a intuição de quem sabia que sua passagem por aqui era breve demais, e por isso Candeia tinha a urgência dos aflitos. Esse orgulho e essa imponência, Candeia nos ensina a ter, basta ouvi-lo, abrir os olhos para ver o mundo Candeia se construindo em nós.

Candeia reafirma minha crença em mim, nos meus ancestrais, no meu lugar, no meu passado. E digo com certeza que Candeia pode, melhor do que qualquer manual de autoajuda, nos ensinar como sermos melhores. Ele nos ensina a SER. Esta crônica é derramada, despudoradamente idealista e romântica porque com Candeia não há meio termo. Eu quero um Brasil urgentemente Candeia. Precisamos de um Mundo Candeia e quem sabe então uma multidão um dia à utopia vai brindar.

Não, o surdo não disse “fim” com a marcação, pois sambas são pés que passam, fecundando o chão. E não estamos sós, porque temos a arte. Obrigado Mestre Candeia!*

Avante Portela!!!


* Nesta crônica há várias citações de canções de Candeia. Não as identificaremos. Deixaremos esta doce tarefa aos ouvintes do Imponência Portelense – Candeia.