Passeando com Casquinha 2

Paulo Oliveira

Para finalizar nosso passeio, gostaria de ressaltar nesta breve crônica um aspecto importante da cultura do subúrbio, em especial, da cultura portelense e do samba em geral, tendo em vista a obra do Casquinha, mais particularmente. A meu ver, Casquinha e seus parceiros expressaram o melhor daquilo que poetas populares produzem em sua trajetória de vida. Amizades, parcerias, andanças, festas, amores, sabedoria, trabalho, respeito e amor. Não se trata de idealizar nossos humaníssimos baluartes, nem de criar em torno deles uma redoma utópico-romântica onde tudo é somente beleza e arte. Afinal, todos somos sujeitos com virtudes e falhas, com nossos momentos de grandeza e mesquinharias, nossos rompantes, nossas emoções por vezes guiando nossas ações. Se nossos preconceitos, em muitos momentos, anuviam a reflexão, a capacidade de amar e de superar essas barreiras há que se criar uma fortaleza contra as tiranias.

Esses homens puderam enxergar o mundo com mais beleza e verdade porque amaram, e amaram muito. Amaram sua Escola de Samba, a que dedicaram uma vida. Amaram uma mulher. Amaram a vitalidade e a beleza das coisas do mundo e olharam para elas mimetizando-as. E porque amavam tanto, o que criaram em termos de arte parecia brotar de uma eterna festa, uma perpétua andança. O samba, como belamente disse a professora Mônica Sacramento, cuja palestra recentemente eu assisti no Museu do Samba, é produto dessa gente massacrada, escravizada e humilhada que, com tudo isso, nos legou formas de arte inclusivas, que não segregam. Essa herança foi-nos legada através da história por meio de gestos de generosidade cuja melhor tradução encontro na palavra acolhimento.

Lendo o livro de crônicas que têm Casquinha como personagem principal, escrito por João Baptista M. Vargens, cuja leitura indico a todos e todas, vejo brotar deste poeta e um dos maiores baluartes da Portela, o ser humano que expressou sua experiência de vida no subúrbio através de verdadeiras crônicas em forma de música. O samba é a tristeza que balança, disse Vinícius de Moraes, mas é ainda uma forma de dizer à tristeza que ela não pode vencer, porque, como nos contou outro poeta, Paulinho da Viola, o samba só acaba porque o dia clareou. E amanhece todo dia.

Casquinha foi o poeta das andanças e festas, um dos cultores dessa sabedoria ancestral que ele como ninguém traduziu em forma de batuque. Foi o parceiro ideal de Candeia, conforme depoimento do próprio mestre que nos deixou há 40 anos – e que serão lembrados com muito orgulho e carinho pela Portelamor. Com Candeia, Casquinha escreveu “Celeiro de heróis”, cujos versos traduzem com mais propriedade o que esta pequena crônica tenta dizer:

Quando eu ouço falar na Portela
Onde o samba se revela
Sinto em mim grande satisfação
Quando falam de seus sambistas
Ou de uma de suas conquistas
Congratulo-me de coração
Todos sabem que a Portela na verdade
É despida de vaidade
Este orgulho sempre existiu entre nós
Para a glória do samba
A Portela sempre foi um celeiro de heróis

É deste terreno que se trata: o chão da Escola de Samba de Madureira e Oswaldo Cruz, da Portela de tantas vitórias, lutas e tradições, onde ainda hoje arde a chama que ilumina nosso pavilhão. Chama Candeia, chama Casquinha, chama, chama, chama. E é no presente do verbo que quero falar de Casquinha e Candeia, porque não há figuras tão materializadas em nosso presente quanto nossos baluartes.

A chama não se apagou, a luz da inspiração continua brilhando firme, forte, vigilante, serena, intensa. Esses sujeitos imensos deixaram para nós testamentos musicais, biográficos, de vida. Lição. E é com esse aprendizado que me despeço momentaneamente de Casquinha, para voltar a ele daqui a pouco, sempre, pois tem Candeia chegando e aí nossa crônica é só alegria e poesia:

Réu confesso
(Casquinha/Candeia/Davi do Pandeiro)

Réu confesso
Merece o perdão de Deus
Os sucessos são hoje os fracassos meus
Tentei plantar rosa flor e só colhi espinho
Não há flor mimosa na estrada que caminho
Ai se pudesse voltar a alguns anos atrás Aos tempos de rapaz
Que já não voltam mais

Não é que eu esteja arrependido
Tudo de bom a vida me proporcionou
Fui boêmio fiz muitas serenatas
Ao lado de tantas mulatas
Compus versos de amor
Mas a saudade é que me faz Sentir inveja dos meus tempos de rapaz

Avante Portela!!!