Passeando com Casquinha 1

Paulo Oliveira

Escrever os fatos diversos do dia a dia, suas alegrias e tristezas, muitas vezes depende do capricho do destino, dos acontecimentos que se impõem, especialmente no mundo dinâmico do samba. Crônicas quase ou já acabadas vão ficando para trás, algumas esquecidas, pois passou o tempo de mostrá-las. A princípio, eu trataria do enredo da Portela 2019 e do samba que se materializa na obra eleita de Jorge do Batuke, mas a morte de Casquinha foi como um trem que nos atropelou. Daí, tudo para, pois é tempo de se refletir sobre a perda, a herança, a memória. O cronista, imerso na obra de Casquinha, nestes dez dias que separam a morte do mestre desta crônica, aprendeu muito e o resultado das lições não caberá em uma, duas ou mil laudas.

Da perda, surgiu “Imponência Portelense”, novo projeto da Portelamor, dedicado ao samba de Oswaldo Cruz e Madureira e que traz de forma organizada pérolas de nossos compositores. Casquinha inaugura o projeto. Quanto a isso, não posso esquecer de saudar o Consulado da Portela de São Paulo, pois muitas letras que pesquisei já estavam transcritas lá. Como diferencial, ouvi e cotejei as letras com as gravações, tentando entender o traçado das formas e alguns pecadilhos de transposição das canções para o papel e vice-versa, alterações nos originais feitas por alguns intérpretes. Mas não é desse trabalho que irei falar aqui.

Como em toda grande obra, as canções de Casquinha, com sua aparente despretensão, vão costurando um universo muito particular, expresso no gosto pelo samba sincopado, por melodias que abrigam rimas inesperadas e delineiam narrativas saborosas que até podem soar banais. Mas também não se trata de fazer análise literária, isso é para os estudantes, que encontrarão na obra do mestre inéditas teses a desenvolver. A audição de 50 canções do seu Otto trouxe à memória antigas tardes de alisamento de cabelos, minhas primas e seus alaridos em casa de minha avó, em Turiaçu; as agruras do dia a dia de menino criado por mulheres e que não se tornou um “desajustado”, como disse recentemente um inominável membro da caserna/caverna, ele sim, desajuste em pessoa; os namoros e amores conquistados, perdidos, abandonados, sofridos, encenados nos portões, varandas e quintais das casas de subúrbio; a revolta contra a opressão da pobreza, do desemprego e da fome; e a esperança dos que lutam diariamente e ainda assim seguem em frente, buscando nas pequenas coisas esteio e razão para prosseguir na lida.
Com Casquinha, lembrei o cabelo duro das primas nas “sessões de henê”, que em tempos de politicamente correto soa mal, se lemos armados sua “Cabelo danado” (Casquinha):

Nega, vou te fazer um apelo:
Quer ser dona do meu lar?
Cuide mais do seu cabelo
Neguinha, meu bem
Nega, vou te fazer um apelo:
Quer ser dona do meu lar?
Cuide mais do seu cabelo

Tive um trabalho danado
Fui a uma feira em Caxias
Comprei um pente de ferro pra nega
Fiquei radiante de alegria
Ao ver o pente, ela disse:
“Perdeste tempo, meu bem,
 Meu cabelo é tão enrolado,
Que parece com a mola do trem”

No final da canção, a amada finalmente dá um basta nas pretensões do eu-lírico equivocado que, ao lhe conceder voz, dela ouve:

A nega ficou enfezada e me disse:
“Eu não sou de trapalhada
Nem quero ser comparada
Com a tal preta aloirada
Peruca tu sabes meu bem
Que é artificial
Prefiro usar meu cabelo
Sem tempero
Bem ao natural”

Também em seus versos vemos a revolta do trabalhador sem trabalho, do pobre sem futuro, que nos traz à memória o passado de nossos próprios percalços no subúrbio, naqueles tempos amordaçados, mas que não calaram o poeta:

O crioulo no morro está invocado
O crioulo no morro está no miserê
Desce o morro não encontra trabalho
Nem encontra o feijão pra comer
(“O invocado”, Casquinha)

E, finalmente, é em sua lírica amorosa (qualquer amor já é um pouquinho de paz, um descanso na loucura, já dizia Guimarães Rosa) que se encontra um refúgio, mesmo quando o amor dói, pois para Casquinha a dor significa a vida vivida e as paixões são expressão do humano em nós. O lirismo dos versos pode mesmo vir da traição e do perdão:

Se ela errou, quantas vezes errei também
Nenhuma satisfação dava a ninguém
Se existe alguém por ai, que jamais errou
Atire a primeira pedra, pois nunca pecou
(“Outro recado”, Casquinha/Candeia)

Há tristeza nos versos do poeta, mas também consciência de que não amar é perda maior:

Leva um recado
A quem me deu tanto dissabor
Diz que eu vivo bem melhor assim
E que no passado fui um sofredor
E agora já não sou
O que passou, passou

Vai dizer à minha ex-amada
Que é feliz meu coração
Mas que nas minhas madrugadas
Eu não esqueço dela, não
Leva um recado
(“Recado”, Casquinha/Paulinho da Viola)

Casquinha também exaltou a Portela e o nosso pavilhão. Foi lírico, foi sarcástico; crítico e doce; bem humorado; e sensual, malandro, desbocado. Mas isso é para outras crônicas.

Não encerrarei o texto como os que, pensando exaltar o artista, o comparam aos ditos “grandes” poetas. Frases como “não fica nada a dever” a fulano ou sicrano carregam preconceito de quem não vê que artistas populares não deveram e jamais deverão nada. Se débito houver, será com os parceiros de lutas, dores, alegrias e amizade, com quem constroem, na solidariedade peculiar ao mundo do samba, um universo poético-musical próprio, singular.

Na obra de Casquinha, transfigura-se uma escrevivência: vida que se confunde com o texto; texto corrigindo os defeitos da vida, ainda que muitos de seus versos tratem justamente de nossa existência torta, de nossa assimétrica sociedade, nossas agruras e derrotas. Casquinha nos torna dignos de nossa humanidade.

Muitos de nós deixamos o subúrbio, mas o subúrbio não nos abandona, é nossa fortaleza. Mestre Casquinha fará muita falta, mas sua obra é o nosso consolo. Obrigado, poeta.

Avante Portela!!!