Quatro baluartes

Paulo Oliveira

Lembrar e agradecer. Esquecidos destes verbos, por conta da vida que nos arrasta para a espiral do cotidiano, por vezes perdemos algumas datas especiais, que não somente dizem respeito à história e importância dos sujeitos rememorados, mas principalmente porque a lembrança é uma dos mais belos atributos humanos: são parte essencial daquilo que chamamos de “nossa vida”. Os portelenses, mesmo os mais jovens, sabem da importância da memória em nossa escola. Ser portelense é ter ciência de um passado inscrito na história da cultura carioca, fluminense e nacional, construído com muita luta e muito empenho, garra, amor. Amor à causa do samba, da cultura popular. A Portela é um museu de reminiscências, e nele, mesmo que não tenhamos vivido a época de conquistas e glórias, aprendemos a reverenciar nosso passado. Talvez seja esse o segredo de uma escola que ficou tanto tempo sem levantar um campeonato, mas cuja torcida cresceu e se espalhou, inclusive para fora do Brasil. Mas isso são conjecturas de apaixonado. E paixão não tem lógica, muito menos medida. E, é claro, esta crônica não poderia deixar de ser despudoradamente apaixonada.

Neste ano, a festa da memória portelense está sendo intensa, por conta de quatro datas especiais. Em 1º de junho de 2018, Vilma Nascimento completou 80 anos, com direito à homenagem na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de onde veio uma Moção de Congratulações. Ela, que já foi eleita Cidadã Samba em 2016 e teve exposição na sede da Portela, em 2017 (“Vilma Nascimento – o mito”), chega imbatível ao título de maior Porta-Bandeira do carnaval. Quem a viu no Encontro das Baterias, de 06 de janeiro de 2018 (ver foto abaixo), dificilmente reconheceria uma senhorinha prestes a completar oito décadas de vida. Rainha que não perde a majestade, ela adentra por duas décadas do século XXI sem deixar a coroa cair. O “Cisne” da Passarela é um dos orgulhos portelenses e sua contribuição à arte da dança vai além do muro azul e branco. Vilma tem lugar de honra no panteão das grandes Porta-Bandeiras. Bravíssima!

Pode ser que muita gente que não saiba quem é Hildmar Diniz, mas, se formos falar de Monarco, hoje não vamos terminar. O mestre chega aos 85 anos em plena atividade e vitalidade, com show em São Paulo, no dia de seu aniversário, 17 de agosto, sempre acompanhado de sua querida e eterna Velha Guarda. Estará nas companhias ilustres de Paulinho da Viola, que ano passado completou 75 anos, e de Criolo. Merecidas flores em vida para este mestre, um dos símbolos da elegância e da poesia portelenses. Falar de Monarco sem cair no óbvio é impossível. Com seu jeito simples, de quem não parece saber a dimensão de sua obra, uma conversa com ele é o mesmo que folhear uma enciclopédia viva, uma história do samba, título muito bem escolhido para um de seus álbuns. Monarco é um livro de memórias, passado que anda, fala e nos brinda com sua sabedoria. Sua presença na quadra da Portela e em outros terreiros é luxo só. Salve Mestre!

17 de agosto de 1935. Iluminava-se o palco da vida com um dos ícones da Portela, talvez o mais emblemático, polêmico e trágico de nossos baluartes. Negro militante, da atividade de policial e de agente da repressão, Antônio Candeia Filho renasceu para o mundo na face mais humana de alguém que lutou pela irmandade de negros e brancos, que entendia igualados pela vida, unidos na dor e no amor, na busca da verdade e da amizade. Candeia visou a esses ideais na Portela, onde fez belíssima história e, mais tarde, no Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, escola em que defendeu o “samba autêntico”, tentando reencontrar a “árvore que perdeu a raiz”, conforme escreveu outrora, junto com Isnard. Em 2018, celebramos com saudade, mas também com orgulho e admiração, os 40 anos de sua partida: a luz de Candeia se apagou para nós em 16 de novembro de 1978, entretanto, outra luz, a de sua poesia, mais forte e mais poderosa, ilumina o céu portelense – e de todas as escolas, por que não? Candeia foi da Portela, da Escola Quilombo, do samba. Salve nosso baluarte! Salve Antônio Candeia Filho! Incandeia, Incandeia, nosso candiá!

Por fim, a última nota de saudade. Este ano, a Portela homenageia sua intérprete maior, nossa estrela que se foi tão cedo. Clara Nunes completaria 76 anos em 2018. São 35 anos de sua precoce partida, em 02 de abril de 1983. Clara nasceu em 12 de agosto de 1942. Foi uma mulher de personalidade forte, de carreira intensa, e é reconhecida com uma das mais importantes intérpretes da música brasileira. Clara foi do samba, mas passeou por todos os ritmos. Gravou os compositores do subúrbio e os da intelligentsia, sem distinguir uns e outros, daí a modernidade de sua arte. Quebrou inúmeros recordes, desmentiu a ideia de que mulheres não vendiam samba. Foi ídolo de gerações, fenômeno midiático, sem primando pela qualidade do repertório, em álbuns reverenciados até hoje. Clara foi moderna. Agora, é eterna. Na Portela, fez sua segunda casa, amorosa morada de uma artista popular. A homenagem em 2019 é uma carta de amor à Mineira, Mestiça, Guerreira. Salve Claridade!

Quarto baluartes. Quatro momentos de nosso passado e presente de glórias. Maré de lembranças, lembranças de tantas voltas que o mundo dá.* Que tenhamos o privilégio de lembrar; que tenhamos orgulho de lembrar e, principalmente, que agradeçamos por ter o que lembrar! Isso é a vida em seu melhor, é amor, isso é Portela!

Salve Vilma, Salve Monarco, Salve Candeia, Salve Clara!

Avante, Portela!



* Citação de “Memórias do mar”, canção de Vevé Calazans e Jorge Portugal, gravada por Maria Bethânia no álbum Mar de Sophia (2006).