Envelhecer e rememorar: amigos, saudades e melancolia

Paulo Oliveira

Na sexta-feira, 11 de maio de 2018, ao sabor do controle remoto, deparo com a reprise de uma entrevista dada por Zeca Pagodinho a Charles Gavin, no Canal Brasil, em 12 de maio de 2017. Há mais de um ano, portanto. O programa se intitula “O som do vinil”. A conversa saborosa com os artistas parte de obras já consagradas no antigo formato dos Long Plays. Coube a Zeca Pagodinho falar de seu álbum Samba pras moças, de 1995. A certa altura da entrevista, o bom humor do cantor e compositor dá lugar a um sentimento de saudade, que embarga sua voz. Seu corpo reproduz um estado de espírito que chamamos de melancolia. Vinícius de Moraes disse em uma canção que o samba era a tristeza que balança e esse estado de tristeza, que por vezes resulta na melancolia, é considerado pelo senso comum como uma espécie de condição atávica dos sambistas, em sua maioria negros e mestiços, e diz respeito à constituição do ritmo, sua história de sobressaltos, desencantos, abatimentos, mas cuja alegria contagiante do batuque, do movimento, impele o corpo à vida, à alegria, à superação, portanto.

O motivo da tristeza na reflexão repentina de Zeca era a lembrança dos amigos não mais presentes ou que só se viam em algumas ocasiões, levando o sambista a falar da saudade do tempo que passou. O tempo será, então, o motor da entrevista. Não ver mais com frequência os amigos, ser consciente da idade que chega, tudo é parte de uma nova fase de vida, mais tranquila talvez, mas também mais saudosa, sem ser saudosista. O samba também é visto por esse viés, como fixação daquilo que se viveu, espécie de memória, um canto de lamento e saudade, próprio de um povo que encontra nele uma possiblidade humana de resistência e convívio. É do caráter da espécie musical a parceria, o ajuntamento, a solidariedade e a reunião cuja finalidade é a própria reunião. O samba dos quintais, o samba dos subúrbios, das quadras e casas carrega esse aspecto que transcende a forma das composições e o que o olhar acadêmico quer fixar em um gênero. As histórias que o samba conta se multiplicam.

Quando eu e Jorge Anselmo fomos fazer a primeira entrevista grande para a Portelamor, com seu Monarco, estávamos com ele em uma padaria, perto da casa dele, quando peço para o mestre autografar meus CDs de suas obras. Em um destes álbuns, particularmente, o olho do sambista se fixou. Tratava-se de um conjunto de dez fotos, de Pixinguinha, Sinhô, Ismael Silva, Bide, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Silas de Oliveira, Paulo da Portela e Cartola, seis desses compositores presentes no disco Uma história do samba. Os demais fazem parte de uma memória afetiva que os torna presentes nas manifestações poético-musicais de Monarco.

Por alguns breves instantes, o mestre portelense ficou em silêncio, talvez meditando sobre aqueles sujeitos imensos, ele mesmo, Monarco, um sujeito imenso, para nós que amamos o samba e, especialmente, o samba portelense. Após a pausa, Monarco me contou que talvez não tivesse mais aquelas imagens. Este ano de 2018 veio-me à recordação aquele momento e resolvo presentear o mestre com as imagens emolduradas, por conta de seus 85 anos de vida e serviços prestados ao samba.

As lembranças de Zeca e Monarco me fazem também, no aqui e agora da crônica, lembrar de que também nós vemos pouco os amigos queridos, o que é uma pena, pois a amizade é um bem inestimável e passar a vida sem amigos é como morrer de sede em frente ao mar, como cantou outro poeta. O samba, a amizade, o desejo de compartir provoca em nós o nosso melhor. Aprendemos essa lição com nossos mestres, alguns deles ali reunidos no CD de Monarco. E vamos guardá-la até o derradeiro dia.

Para os queridos portelenses Zeca e Monarco, a melancolia impulsiona, não paralisa. Ela só pode ser superada se posta em movimento, no processo divino que faz existir o samba. E se bem que muitas vezes seja obscuro, tudo pela estrada do samba, o ritmo vem seguro, vencendo estrada e muro, chegando onde em sono seus amantes moram. Ao acordar, vemos que nós mesmos somos parte desta destinação que nomeamos “o” samba. E dessa condenação à amizade que se chama Portela, pois a Portela só pode fazer sentido se for amizade. E amizade dada é amor. *

* Nesta crônica há diversas citações e paráfrases de escritores, que não identificamos para efeito de leitura.