Europa, Pernambuco, Rio, Nova York

Paulo Oliveira

O enredo da Portela para 2018, da autoria da carnavalesca Rosa Magalhães, é uma estonteante viagem, jornada verdadeiramente épica de um povo que se espalhou pelo mundo sob as mais diversas e adversas condições. A professora sabe conjugar como poucas artistas a pesquisa acadêmica à invenção, sem esquecer aquele toque de midas que dá o sabor a mais a seus trabalhos, fazendo a obra transitar, seja pelos círculos mais intelectualizados seja pela imaginação menos compromissada dos amantes do carnaval. Ao falar de história, Rosa recria a saga daqueles nossos irmãos judeus que aqui aportaram e a conduz a patamares inusitados. Intolerância religiosa, xenofobia, destino, superação, destruição e reconstrução, sobrevivência, memória, cultura, tudo nos chama a atenção para o fato de que paira no ar a ameaça de um grande retrocesso social, político, cultural, religioso e humano. E quanto a isso, é preciso resistir. Nada mais atual e urgente, portanto, nesses tempos sombrios, o que torna o enredo portelense um dos melhores de 2018. Mas o desfile é também, e primordialmente, festa. E isso, com certeza, não faltará. Podemos falar, portanto, de uma festa da história e da memória.

São incontáveis as diásporas judaicas. A história conta que a primeira delas data de 586 a. C. O enredo de Rosa Magalhães capta um momento especial dessa história, quando em 1492 os judeus são expulsos da Espanha, passam por Portugal e depois chegam ao Brasil, onde se aliam aos holandeses, mais tolerantes, na invasão de Pernambuco. No Recife, fundaram a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel, de que falaremos em outro momento, e, novamente após serem expulsos em 1654, chegam em Nova Amsterdã, na então colônia inglesa que se tornaria os Estados Unidos da América. Como se vê, uma jornada e tanto, a desses 23 judeus que conseguiram desembarcar na nova terra. E 23 é um número simbólico para a Portela, que a genialidade de Rosa contabilizou a nosso favor, conforme dissemos, quanto à pitada de sabor que Rosa imprime em seus enredos.

Um breve passeio pela história do Rio de Janeiro dos séculos XIX e início do século XX revela que também a imigração judaica foi importante para o caldo cultural que se formou aqui, nas áreas do Centro da então capital da República. Na leva de imigração do século XIX, os judeus que aportaram em terras cariocas começaram a reproduzir formas de vivência e convivência características dos países de onde procediam. O espaço da Praça Onze e de outras áreas do Centro do Rio foram territórios encampados pelas chamadas “pequenas Áfricas”, mas também de outros contingentes populacionais, como os judeus que ali se estabeleceram.

Em comum, negros e judeus partilhavam um passado de escravidão, o olhar de desconfiança e desdém da sociedade e foram expulsos de suas terras ou escravizados. A área da Praça Onze, que hoje abriga o Sambódromo, ainda conserva elementos culturais da presença negra. Já os judeus não tiveram uma melhor sorte. Entretanto, mesmo que hoje não haja marcos culturais da presença judaica na área, a lembrança de sua passagem é resguardada pelas memórias preservadas pelos que coabitaram naquele espaço. O mais importante é frisar que naquela região as relações éticas e familiares, o comércio, a língua (ídiche), as instituições religiosas reproduziam um modo de vida em grupo: sinagogas, bibliotecas com livros em ídiche, festas, música, restaurantes, os açougues que produziam a carne kosher (ou kasher) fizeram de parte da Praça Onze um pequeno “território judeu”.

A Praça Onze foi testemunha do convívio entre culturas. A retirada da população do Centro, após o “bota-abaixo” do prefeito Pereira Passos, seguida, mais tarde, da construção da Avenida Presidente Vargas, um dos monumentos da ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas, iniciada em 1941, representou para os residentes do local uma nova diáspora, desta vez, rumo a áreas periféricas da cidade.

A construção da Avenida Presidente Vargas fez com que uma massa de negros, judeus e outros imigrantes rumassem para outras áreas do Rio de Janeiro, e no caso dos judeus foram o Catete, o Flamengo e até mesmo a Baixada Fluminense, em Nilópolis, alguns desses locais de mudança. Assim como ocorrera na Espanha, em 1492, em Portugal e em Pernambuco, os judeus cariocas tiveram uma vivência rica, mas também marcada pela diáspora local, motivada, aqui, pelo progresso, pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como na canção de Caetano Veloso. Se não houve perseguição, o fantasma do deslocamento forçado pairava, ainda que de forma mais branda.

O grande mérito de Rosa Magalhães, a meu ver, é saber tirar proveito das experiências históricas para pensar o presente, conforma “canta” a bela sinopse do enredo de 2018, em sua última estrofe:

No poema, tão bonito,
É como se a Estátua falasse
Com os exilados aflitos,
Sofridos, refugiados,
E a sua chama os guiasse
Com generosa bondade
Para o belo portão dourado
Da Paz e da Liberdade.

O poema a que se refere o cordel portelense foi escrito por Emma Lazarus, descendente dos pioneiros saídos do Brasil para a América do Norte. Na atual Nova York, pode ser visitado o primeiro cemitério judeu, em que constam as lápides com os nomes dos judeus pernambucanos.

A xenofobia, a intolerância religiosa, as guerras, a ganância e o poder desagregam, matam, exilam, separam. O carnaval, o samba em geral e as Escolas de Samba, em particular, são traços de união, pois unem, pela memória e pelo resgate histórico, o que poderia ficar para sempre perdido para a história. Ponto para Rosa Magalhães, ponto para a Portela. E que os 23 judeus brasileiros que ajudaram a fundar a cidade de Nova York, e deram o dado simbólico ao enredo, recebam a homenagem da Azul e Branco e nos deem sua aprovação.

Avante, Portela!!!