Histórias que a História não conta

Paulo Oliveira
Para seu Monarco

Em tempos sombrios nas terras do carnaval, nada melhor do que falar de bom samba, do ritmo em sua plenitude. Depois de ter assistido, em um festival de cinema, o belo e emocionante documentário Guardiões do samba, eu o revejo, agora em DVD. Como a crônica tem seus caminhos próprios e o seu tempo é o agora, gostaria de partilhar com os portelamorenses e com os amantes da Portela, em geral, a profunda emoção em mim causada pela obra.

O filme dirigido pelos irmãos Eric Belhassen e Marc Belhassen traz no elenco os bambas Monarco, Xangô da Mangueira, Tia Zélia, Ney Lopes, Claudio Camunguelo, Nelson Sargento, Nadinho da Ilha, Luiz Carlos da Vila, Nélson Sargento, e Walter Alfaiate, dentre muitos outros. Além dessas figuras proeminentes, há participação das tias da Portela e da Mangueira, de músicos de várias escolas, em um raro encontro, propiciado pelos diretores e pelos pesquisadores que fizeram deste filme um belo e triste registro. Belo, pelo elenco de bambas já destacado, filmados em rodas de samba memoráveis; triste, pelas constatações de nós da plateia ao final da projeção.

O filme, exibido por aqui em 2015, no espaço restrito de um festival, levou quase 9 anos para chegar até nós, e nesse intervalo vários sambistas do elenco partiram, sem ver a obra acabada. Quase todos oriundos do subúrbio pobre, essas figuras magistrais dedicaram toda uma vida a essa arte que ganhou o Brasil e o mundo, fazendo a festa das contas bancárias de emissoras, do governo, das empresas de turismo etc. Na contracorrente, os protagonistas do samba vivem modestamente, alguns na penúria material que de tão característica parece naturalizada. A maioria desses artistas não recebeu “flores em vida”, conforme a bela lembrança de seu Monarco quando, merecidamente, conquistou o Prêmio Contigo de Melhor Disco de Samba de 2014. Há que se registrar a morte de Walter Alfaiate, Tia Zélia, Xangô, Nadinho, Luiz Carlos, Cláudio Camunguelo, que foram cantar e encantar lá em cima, sem antes ver (e se ver) o documentário pronto. E aqui ficamos nós, os tristes.

Ao final da projeção, a lembrança dos nomes de cada um dos integrantes que partiram dava uma dimensão político-poética ao filme, ao recordar à amnésica terra brasilis, herdeira de uma língua que Olavo Bilac chamou de “ultima flor do Lácio, inculta e bela”, que um país sem memória é deficiente de futuro.

Por isso, esta crônica breve é também uma justa homenagem aos diretores do filme e ao músico, professor e pesquisador Henrique Cazes, que tão bem cuidou da produção musical do documentário. Para além dos elogios pelo resultado final, precisamos agradecer de coração o presente recebido. A emoção é sincera.

Com o filme, um pouco da memória desses ilustres personagens ficará registrada e aos novos pesquisadores cabe fazer com que a chama não se apague. E que nós, não somente os portelenses, mas todos os amantes do samba, possamos difundir em nossas casas, nas quadras das escolas (de ensino e de samba), como faz tão bem o Departamento Cultural da Portela, com o projeto Cine Samba Candeia, esse Guardiões do samba. E que não tenhamos que esperar 9 anos para que um produto dessa importância chegue até nós. Que autoridades, distribuidores, promotores da cultura se toquem.

Os dois rapazes franceses produziram o documentário sem incentivo de leis estaduais, municipais ou federais. Cumpriram com paixão um dever que nem era o deles. Já a política cultural de terra arrasada é o que nossos representantes vêm nos legando. Triste Rio, parodiando Gregório de Matos.

Não posso finalizar a crônica sem mandar um grande e especial abraço a seu Monarco, com todo o afeto e agradecimento pela oportunidade de vê-lo e ouvi-lo. O Prêmio Contigo e o Prêmio da Música Popular Brasileira para o álbum comemorativo dos 80 anos deste gigante portelense, mais que merecidos, são um capítulo feliz nessa história de heróis e heroínas, quase sempre anônimos que, esquecidos pela nossa história oficial, no entanto, são os verdadeiros Guardiões do Samba, onde quer que ele se manifeste.

E um abraço especial à Portela e aos portelamorenses, companheiros incansáveis na luta pela memória e pela preservação do legado portelense, fundamental para que as novas gerações sintam o orgulho, como nós sentimos, de pertencer ao reino de Oswaldo Cruz e Madureira.

Avante, Portela!!!