Paulinho da Viola nos horizontes do mundo

Paulo Oliveira

Escrever uma homenagem nas grades de uma crônica não é tarefa fácil. Se a homenagem for para Paulinho da Viola, ela se torna impossível. A crônica tem suas limitações, seus espaços, suas demandas. Em se tratando deste compositor imenso, essa limitação pode, no entanto, se tornar uma vantagem, pois o que quer que se diga de sua obra, de sua personalidade e sua importância para a Portela, para o mundo do samba e para a música brasileira serve como preâmbulo e imagem de seu trabalho como um todo que é. E embora à obra de Paulinho se tenha dado uma justa medida pelos estudiosos, para onde quer que se olhe, há muito ainda por se dizer sobre seu trabalho. É assim que um artista deixa de ser moderno para ser eterno, como disse outro poeta, Carlos Drummond de Andrade.

Por isso, escolho falar de Paulinho por uma lembrança que me chegou ontem, de chofre, pelo correio, um CD de 1978, o único de que eu precisava para completar minha coleção dos álbuns solo de Paulinho, intitulado simplesmente Paulinho da Viola, assim como são intitulados alguns outros CDs do compositor e intérprete. Esse álbum chegou às lojas após duas obras primas, os maravilhosos Memórias cantando e Memórias chorando (este último pouco ouvido, infelizmente), de 1976.

Como sou da antiga, gosto de ter o álbum físico. Antes de ouvir a obra, sempre cumpro um ritual, que é ver a arte da capa, ler o encarte, a ficha técnica, tudo, enfim, que precede a audição do trabalho, em si. Na primeira capa, há o desenho de um instrumento – violão, viola, cavaquinho? – sobre um fundo cuja cor sugere a madeira. Na contracapa, temos a foto de um artesão no trato coma madeira, em pleno processo de construção do objeto, a entalhar o braço do instrumento. A capa é do genial Elifas Andreato, habitual colaborador de Paulinho; as fotos, de Ivson e Paulinho da Viola. A primeira página do encarte traz uma foto de Paulinho, muito jovem, com um serrote nas mãos, ao lado de ferramentas e de um instrumento em processo de construção. Na última capa, 8 fotos menores, com fases do processo de fabricação do instrumento, até sua forma final, que, como veremos, é na verdade uma espécie de começo. Da madeira ao som.

O processo que as imagens do álbum vão nos revelando, que vai da capa ao encarte, e de ambas às letras, e das letras às canções dizem muito a respeito da matéria prima que compõe a arte de Paulinho. Como fã confesso, sinto que o resultado final, as canções que nos maravilham, são para Paulinho uma parte, e talvez não mais nem menos importante, de uma travessia, que envolve o trabalhador braçal, o operário do instrumento e da música, o estudioso, o memorialista, o poeta e o músico, das melodias e harmonias sofisticadas porque simples, ou simples porque sofisticadas. É como se ele dissesse que precisamos lembrar sempre de que o sublime na arte passa por um trabalho humano, o do operário simples e quase sempre mal remunerado e anônimo. Também, que tudo vem da natureza, do chão, daquilo que nos é dado no simples acontecimento que é o existir da árvore, que se torna madeira, e por nós é sacrificada para que o instrumento possa existir e nos propiciar o deleite e o lúdico em forma de canção. A canção é oferenda, aquilo que nos faz lembrar do sacrifício da árvore e do lavor do operário. Cabe ao poeta fazer jus aos dois.

Se eu pudesse, em uma tentativa impossível de síntese, definir Paulinho, o chamaria de “artesão”. Com isso, não posso me furtar de reproduzir aqui o belo texto, que sintetiza, a meu ver, todo esse meu falho esboço de homenagem. Falo da prosa poética que fecha o encarte, após as letras das canções, um texto tão curto quanto inesgotável, a brindar o leitor e o fã com o que poderia ser o décimo terceiro poema do álbum:

                               

Algo de muito especial ocorre então. E não à linha da superfície, como pode parecer a princípio. Para alguns desses homens, o conhecimento do instrumento se deu muito antes: quando ele era ainda madeira. Ou mais: quando era uma árvore, que descia chão a dentro até os úmidos e escuros segredos da vida – o mesmo chão que os pés do menino um dia pisou. E ainda pisa.

Como disse, para tal poeta, qualquer homenagem breve será insuficiente, mas é também uma vantagem, pois, em se tratando de Paulinho, tudo está ligado um originário, que não sabemos onde se localiza, mas se vê, ouve e sente nas canções que ele nos envia, extraídas dos rios da memória, de seus murmúrios, que brotam no chão que o menino pisou e que, porque continua pisando, eterniza esse menino no adulto, como disse um antigo poeta inglês: “o menino é o pai do homem”. E o tempo do homem é hoje.

É muito bom, nesse país e nessa época em que não mais se diz “Meu Deus!”, como pensou Drummond, que ainda possamos nos dar ao luxo da admiração e do espanto proporcionados por um artista como Paulinho da Viola. E que esse poeta venha a ser um baluarte de nossa e dele amada Portela, é desses presentes da vida, um dos modos do orgulho de sabermos que uma escola de samba está para além dos títulos e das vitórias.

Vida longa a nosso Paulo César Batista de Faria, que para nós, amantes da Portela, do samba e da boa música, será sempre e simplesmente Paulinho da Viola.

Avante Portela!

  Bibliografia sugerida
 
Paulinho da Viola e o elogio do amor
Autor (a): Eliete Eça Negreiros
Editora: Ateliê Editorial
Ano: 2016
Nervos de aço: entrevista a Charles Gavin
Autor (a): Charles Gavin
Editora: Imã Editorial
Ano: 2015

 
Paulinho da Viola              
Autor (a): André Diniz
Editora: Moderna
Ano: 2006
Paulinho da Viola
Autor (a): João Máximo
Editora: Relume-Dumará
Ano: 2002
Ensaiando a canção: Paulinho da Viola E outros escritos  
Autor (a): Eliete Eça Negreiros
Editora: Ateliê Editorial     
Ano: 2011 
 
Velhas histórias, memórias futuras: o sentido  da tradição em Paulinho da Viola
Autor (a): Eduardo Granja Coutinho
Editora: UFRJ
Ano: 2011

            

 

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