O trem do samba e o samba da Portela

Paulo Oliveira

Em nosso texto de estreia dessa coluna ressaltamos as contradições entre uma Portela que se renova e se realimenta de suas tradições e o obscurantismo dos que atualmente conduzem nossa gloriosa agremiação. A infeliz frase de um senhor de nome Enildo do Rosário para o jornal Extra, e que se apresenta como assessor do presidente Nilo Figueiredo, traduz com clareza essas contradições: “Já cansamos de fazer carnaval em 30 dias”. Nós, portelamorenses, junto com a legião de amantes da Portela, de todas as tribos e torcidas, também estamos cansados de ver no que dá esse carnaval em 30 dias: é amador, medíocre, mas característico do galopante pensamento (?) dessa administração.

Por outro lado, se o mergulho em nossas tradições portelenses nos remetem a um universo tão rico, capaz de gerar uma das grandes festas do mundo do samba – o Dia Nacional do Samba, encarnado no espírito do Trem do Samba – os sacerdotes das trevas reinantes nos brindam com um apagão, literalmente (senhor presidente, a quadra virou boate?). Como no samba da Alcione, “o mal não pode ser maior que o bem”, e é sobre dois iluminados momentos do bem, da beleza, de que queremos tratar. Respectivamente, falaremos do Trem do Samba e do samba da Portela para 2013, o que nos faz esquecer a infeliz frase do senhor Rosário.

O Trem do Samba, evento reorganizado em grande estilo por Marquinhos de Oswaldo Cruz, que em 1995 reformulou o famoso “Pagode do Trem”, faz a ponte entre presente e passado, modernidade e tradição: Paulo da Portela (esse sim, ao contrário dos pretensiosos e vaidosos, merecia ser nome de tudo, inclusive de quadra, e deve receber todas as honras da Portela), em 1930, iniciou o encontro que, retomado por Marquinhos, tornou-se, hoje, uma das maiores festas do calendário turístico carioca, comemorado a cada 2 de dezembro.

O Trem do Samba é uma espécie de metáfora do que ocorre em nossa agremiação. Se naquele trem que remonta a nosso passado glorioso o samba não desafina, na outra composição tudo parece estar fora dos trilhos. Mas como o samba é soberano, a bela festa, que tem em Oswaldo Cruz e Madureira uma parada segura, desentorta esses trilhos e reconduz o trem a seu destino: os dois emblemáticos bairros, que são a casa da Portela, “nosso orgulho suburbano”, conforme a letra magistral do samba-enredo da Portela 2013. E como falar do Dia Nacional do Samba sem falar desse produto genuinamente brasileiro e portelense, que é a tradução de nosso amor pela maior festa da Terra?

O samba de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, André do Posto 7 e Toninho Nascimento, ao contrário desses nossos dirigentes, não desafina nem sai dos trilhos. É um oásis de água límpida em um deserto de estupidez. Não faremos aqui nenhuma maçante análise acadêmica, mas não podemos desconhecer o alcance poético dessa letra bem urdida. Simples, direto e emocionante, os compositores repetem a façanha de 2012 e nos brindam com um samba que pode ser verdadeiramente classificado como de enredo. No momento em que a festa se desloca para a pirotecnia, nunca é demais lembrar que a valorização do samba-enredo passa a ser, paradoxalmente, o que há de mais moderno e de vanguarda. E isso é o que os autores dessa maravilha vêm nos trazer: um samba que vai além da Portela, do carnaval de 2013 e do fracasso ou do sucesso do desfile. É samba para se eternizar, e ponto.

Nessa nova obra, somos conduzidos por um eu-poético a um passeio no tempo: viajamos no passado de Madureira, em jornada de tons azuis e brancos. Madureira, a homenageada, terra de bambas, por onde o poeta-violeiro canta e caminha, inicia os foliões nos mistérios do amor. Guiados pelos sons dos cânticos dos escravos, pela batucada que ecoava nos engenhos que produziu horrores, mas também nos legou beleza – a principal delas é esse nosso patrimônio imaterial que é o samba – entramos no mundo do sincretismo: das badaladas do sino da capela em dia de santo à mironga de jongueiro, reafirma-se a cultura dos morros e do subúrbio. E como esquecer o jongo, cuja matriarca e ícone, Tia Maria do Jongo da Serrinha, está aí, em plena atividade, esbanjando vitalidade e resistência, lembrando a todos, do alto de seus mais de 90 anos, que o chamado dos tambores tem que ser levado a sério, pois convidam à mistura religiosa e de raças, porta-vozes que são dos Deuses negros?

Mais adiante, os versos do poeta nos trazem o trem – sempre ele, não pode faltar – que inspirou Paulo e Marquinhos; que nos convida a uma parada no Mercadão, ponto de interseção entre religião, gastronomia, cultura e comércio, no coração do bairro homenageado. E vamos passeando pelas singelas singularidades de Madureira, seja o clube de futebol homônimo, ou a ginga do malandro que brinca no charme e, malemolente, gira na roda do pagode. Foi lá em Madureira, que em 21 de abril de 1952, dia de São Jorge, a estrela Zaquia Jorge inaugurou, na Rua Carolina Machado, em frente (olha ele aí de novo!) à estação de trem, o primeiro teatro carioca de subúrbio, e que mais tarde levaria o nome da atriz. E adivinhem qual o título do espetáculo de estreia? “Trem de luxo”, de Walter Pinto e Freire Júnior. É ou não uma viagem? É para ela o verso do samba portelense, a nos lembrar que “Foi nesse chão / que a estrela brilhou no tablado”. Vale lembrar ainda que Zaquia Jorge foi tema de uma das mais belas canções do universo do samba, “Estrela de Madureira”, de Acyr Pimentel e Cardoso, belamente interpretada por Roberto Ribeiro, Dorina, Jorge Aragão, dentre outros.

Madureira é também terra da serrinha imperial, igualmente imortalizada em belo samba de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro e belamente cantado pela eterna deusa portelense, Clara Nunes.

A “Vai como pode”, infância da memória portelense, convida a todos os que desejam participar da festa para irem do jeito que quiserem, em verdadeira elegia à sambocracia. Por fim, é na terra cantada e decantada, ali onde reside nossa amada Portela, nosso “orgulho suburbano”, que o poeta – e todos nós também – chega a seu destino, encerrando a jornada e convidando os sambistas e batuqueiros a sonhar na capital do samba: abram a roda, que Madureira vai passar!

É desses dois singelos exemplos que nosso coração ferido, mas altivo, vai se nutrindo. Envergamos, mas não quebramos. Contra os “radicais do pouco”, “montes de tijolos com pretensões à casa”, de que nos falava Álvaro de Campos, o melhor antídoto é viajar no luxuoso universo de nossos poetas. E que viva o Trem do Samba e o samba da Portela, verdadeiros orgulhos que nos fazem sonhar.

Avante, Portela!!!