Balanço do balanço (ou o que será o amanhã na terra do bispo doido?)

Paulo Oliveira

Depois de um longo recesso, a coluna está de volta. E estreando em site novo da Portelamor, repaginado, com bastante informação sobre a Portela, sobre o carnaval, diversão, utilidade pública, brincadeiras para os miúdos e muito mais. Tudo para as comemorações dos 7 anos da outrora torcida e hoje Grupo Portelamor, que acontecerá em 20 de fevereiro de 2018. O site é fruto de muita doação pessoal do Zé e do Jorge Anselmo, que contagiam todos nós e nos levam também a ocupar um espaço neste universo eletrônico do amor azul e branco.

O título de nossa crônica-retorno pode remeter a um enredo satírico e daria um material interessante, não fosse o desfile de horrores que são nossos governantes, esmerados em tratar o samba, o sambista e o carnaval pelo viés da galhofa. Digamos que o enredo do carnaval 2018 está mais para Halloween e Pelourinho. Na última coluna publicada, em tom altissonante e indignado, falávamos do samba do bispo doido em que se transformou o carnaval de 2017, sob o olhar conivente da LIESA. Vidas desperdiçadas, desfilantes e plateia em risco no Sambódromo, premiação da irresponsabilidade de algumas escolas, um bispo fujão, manual de julgador trocado, tapetes voando e outros puxados, enfim, um carnaval para esquecer, não fosse o título da Portela, a três décimos de gabaritar o desfile. Redondinha, a campeã comemorou o merecido título na quarta-feira de cinzas mesmo, como se deve.

A caça às bruxas promovida pelo bispo-dublê-de-prefeito no campo da cultura tem muitas frentes, uma delas o carnaval. O Torquemada tupiniquim, como todo maluco esperto (ele não rasga dinheiro), perdoa o pecador, desde que pagas as indulgências, muito bem-vindas, por sinal. Mesmo com corte de verbas, ataques ao carnaval de rua, aos blocos, à cultura, de modo geral, vamos caminhando, cantando e seguindo o cortejo bufo de nossa pátria amada, salve, salve, esperando que tudo acabe em samba, e não com o samba. Acusa-se a chicotada, mas com uma LIESA genuflexionada, no final talvez até agradeçamos pelas lambadas.

Mas, com tudo isso, o povo vencedor segue em frente. Temos samba! E com o samba, começa de verdade a temporada de Momo. A Portela escolheu seu hino de 2018, para o oportuno e atualíssimo enredo “De repente de lá pra cá e dirrepente daqui pra lá”, e que, sugestivamente, fala de... intolerância, xenofobia, resistência. Melhor impossível. Estamos diante de um tema que, mais do que contar a saga dos judeus expulsos do Brasil, cuja atuação foi determinante para a fundação da cidade de Nova York, serve ainda como metáfora deste medievo que assola o Rio de Janeiro e o país. A disputa do samba, este ano, surpreendeu, não pelo vencedor exatamente, mas pelas excelentes obras que foram sendo eliminadas ao longo da disputa e acabaram fora da finalíssima.

A emocionante gravação do coro portelense na Cidade do Samba é prenúncio de que vem coisa boa por aí. Se a atmosfera é nebulosa, “vamo simbora povo vencedor”, pois a luta continua, conforme um samba nosso, da antiga: “Hoje a alegria do palhaço/ Na tristeza dá um laço/ E faz minha escola cantar”. Há quem prefira um outro: “Briga, eu, eu quero briga/ Hoje eu venho reclamar/ (O que que tem, o que que há)/ Esta praça ainda é minha/ Eu também estou fominha/ Jacaré quer me abraçar”. Seja como for, estamos vivos e com a faca no dente.

Que os deuses do panteão portelense nos protejam e nos ajudem a fazer mais um belo e emocionante carnaval. Se em 2017 choramos a lama de Mariana, que 2018 possamos varrer a sujeira de nosso Rio de Janeiro esquecido e não empurrá-la para debaixo dos tapetes.

Avante Portela!!!!