Do mar de lama de Mariana e da LIESA como metáfora do Brasil-vergonha

Paulo Oliveira

O mar de lama de Mariana, representado pela mais pungente alegoria do carnaval carioca de 2017, trazida à avenida pela Portela, invadiu de vez e soterrou a LIESA. E isso não apenas uma metáfora ou alegoria. Em consonância com tudo de podre que marca a política brasileira recente, a LIESA resolveu fazer a sua parte. E não por menos.

A entidade, que ano a ano se prostitui, e com ela prostitui o carnaval, chegou às raias do aliciamento, escancarando de vez suas pouquíssimas virtudes à cafetina platinada que determina duração dos desfiles, tamanhos das escolas e tempo de exibição. Tudo com a risonha conivência e participação de uma arregaçada LIESA. Ali, a alegria é de poucos, dos que lucram com a combalida maior festa do planeta, à qual, no fundo, desprezam. Mas não é apenas isso. Não contente com a onda de corrupção, injustiça e crimes que assolam a nação brasileira, a LIESA resolveu dar o seu quinhão em grande estilo, premiando escolas irresponsáveis, que com seus desfiles criminosos colocaram em risco a vida de dezenas de pessoas, algumas delas, em estado gravíssimo. A vida humana, definitivamente parece não ser da alçada da promíscua instituição.

Não para por aí o show de horrores protagonizado por esta senhora decadente e de ações duvidosas. Com o episódio da troca do material da Mocidade Independente de Padre Miguel, ela encerra o baile mostrando toda a sua incompetência na organização do prostíbulo, transformando de vez o carnaval 2017, a exemplo do que disse um ministro de estado (é em minúsculas mesmo) do governo Temer, em imensa suruba. E sabemos bem quem entra com o quê nesta suruba. A quase nenhuma credibilidade de que ainda dispunha a LIESA foi de vez para o ralo, mas até aí tudo bem, pois este é certamente o lugar mais apropriado à decrépita senhora.

O Brasil que muitos acreditaram passar a limpo é hoje cada vez mais um charco onde se esponjam os canalhas, é o palco da corrupção epidêmica, da cassação de direitos, do recrudescimento de ideias fascistas, preconceituosas e autoritárias. É um teatro no qual a ética se confunde com a desfaçatez, na época talvez mais descaradamente odiosa de nossa história recente. A galhofa, que é parte inerente à festa carnavalesca, é o momento da anarquia, da crítica, do desentronamento dos poderosos, em que a subversão da ordem e a denúncia de nossas iniquidades nos dá, pelo menos por alguns dias, a ilusão de que podemos afrontar nossos algozes. Mas o espetáculo farsesco representado pelos bufões da LIESA está longe de divertir. Ao contrário, ela provoca o pior em nós em relação a uma festa que, até mesmo no momento tenebroso do país, ainda nos permitia respirar.

Isso que chamamos de LIESA, entretanto, não é uma entidade imaterial, comandada por um deus raivoso, etéreo e monolíngue. A LIESA é uma reunião de 12 escolas. As chamadas coirmãs são agora co-cúmplices, coniventes, co-partícipes do crime e da aquarela grotesca em que se transformou de vez o carnaval carioca. Cada uma das 12 escolas é culpada pelas vítimas inocentes dos dois dias de desfiles do Grupo Especial. A essas pessoas, cabe recorrer à justiça comum por seus direitos, pois foram lesadas no exercício de querer ser feliz e se divertir no desfile das Escolas de Samba, sem saber que da festa seriam duplamente vítimas: da negligência de escolas irresponsáveis que quase lhes ceifaram a vida e da posterior premiação do crime, protagonizada pela LIESA.

Cada uma das 12 escolas do Grupo Especial fez e faz parte desta ópera bufa, no pior sentido, em que a festa se transformou. Não há inocentes ali.

Como símbolo de um Brasil apodrecido, este 05 de abril de 2017 entra de vez para a história do Carnaval, e pela porta da frente do baile dos horrores  da LIESA.

Que a lama de Mariana possa ser um dia retirada das quadras e dos barracões das escolas e dos covis da LIESA, e que aprendamos algo com tudo isso. Do contrário, o horror e a indignação não passarão de uma bela imagem de um desfile, em um carnaval para sempre degradado.

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