Portela, campeă de 2017: épica, lírica, dramática


Paulo Oliveira

Em primeiro lugar, o Grupo Portelamor parabeniza a Portela, pelo título memorável, inesquecível! Queremos expressar nossa gratidão eterna a Marcos Falcon, in memoriam, e à Portela Verdade, princípio da mudança. A Monarco, nosso Presidente de Honra, orgulho do samba, toda a paz e todo o amor do mundo. Um salve aos portelenses, famosos e anônimos, que contribuíram para este título honorável, talvez o mais importante de nossa história.

O que se viu no fim da tarde de 01 de março de 2017, ao final da apuração, foi o encontro mágico do portelense com seu destino: lutar e vencer, como dizia o samba imortal de Candeia. Nós, portelamorenses, estivemos lá para ver e testemunhar esse momento épico. Se um bardo fosse cantar a vitória do povo de Oswaldo Cruz e Madureira, o primeiro desafio do aedo seria o do gênero. A vigésima segunda estrela foi um momento épico na trajetória de uma agremiação que coleciona episódios grandiosos, alguns de contornos dramáticos. O fim de um ciclo se deu nas águas líricas de um rio que ficará eternizado na memória de quem, às lágrimas, soltou o grito há tanto tempo guardado de campeã.

A Portela não é escola de diminutivos e sua história é sempre melhor contada quando recorremos aos superlativos. Com 21 títulos, até 2017, foi a única heptacampeã da história do carnaval carioca, de 1941 a 1947, tendo ainda um tetracampeonato (1957-1960). O 22º campeonato, retumbante vitória, é o canto final de uma epopeia que remonta a 1984, último título da escola, dividido com a Mangueira. 1970 foi o ano do último campeonato individual. Desde então, a escola veio progressivamente declinando nos desfiles, quase sempre por conta de sucessivos erros de administrações pífias. O valente barco que cruzara as águas da história do samba via-se à deriva. Seria o ocaso da antes poderosa Portela? No entanto, sobrevivendo à turbulência, a escola se manteve fiel a suas raízes. Sua Velha Guarda se renovava e os escudeiros antigos e novos desciam da cidade e da favela para manter viva a semente de Paulo, Caetano e Rufino e defender o samba com garras de águia.

Ressurgindo das cinzas, em 2014 a Fênix anunciava uma nova era, mas em 26 de setembro de 2016, o homem-símbolo dos novos tempos, Marcos Falcon, foi brutalmente assassinado. Seria um novo fundo do poço? Não, a escola, guerreira, travou mais uma batalha épica, capitaneada por novos escudeiros, à frente de uma diretoria aguerrida que guiou o barco pela tormenta até às águas poéticas de um rio azul e branco, iluminado agora pela 22ª estrela. O campeonato de 2017 foi épico, hiperbólico, dramático... E também poético.

Confiando mapas, bússolas e elementos mágicos a um Odisseu pós-moderno, Paulo Barros, o verdadeiro mestre do carnaval atual, vimos a poesia inundar a avenida. Foi um rio de murmúrios da memória (Salve outro Paulo, o da Viola) que evocava um passado mítico. Navegantes ancestrais cruzaram a Marquês de Sapucaí e com eles toda a grandeza do samba passou por nossas vidas – e nós nos deixamos levar. Vimos cruzar o barco de Paulo Benjamin de Oliveira, Antônio Rufino e Antônio da Silva Caetano; de mestre Candeia, imenso, drama e lirismo em forma humana. Águas azuis e brancas trouxeram a eterna Dona Dodô, primeira Porta-Bandeira do título de 1935, que nos deixou em 06 de janeiro de 2015. A adorada Clara Nunes, que tão cedo virou estrela, nos abençoou com sua luz: Eparrei, Oyá-rio! Ventos fortes na avenida! Não em barcos, mas em outros momentos, nosso novo Paulo trouxe Natal, Paulinho da Viola, Maria Lata D’água, e tantos que ainda estão por aqui e outros que se foram! Se eu for falar da Portela...

VImos jorrar as conspurcadas águas de lama do Rio Doce, criminosamente destruído pelo descaso da Samarco. A escultura que chorava águas turvas e a performance de um ator deram o tom trágico-dramático ao desfile, revelando um Paulo Barros no vigor da sua essência poética e teatral. Águas que lavaram nossas faces, corações e mentes. Na Portela, poesia e drama, épica e lírica se entrelaçam. Neste ano de 2017, como em uma enchente amazônica,  um grito de alerta quer acordar o presente, tão anestesiado, para dizer que o futuro chega logo. E é preciso aprender com o passado, lição de nosso maior professor, Paulo da Portela, revivida por Paulo Barros, senhor pleno de seu ofício.

2017 abençoou a nós, os portelenses, com esta linda vitória e nós, portelamorenses, tivemos o privilégio de festejar este momento nas arquibancadas do Setor 12. Mítico, imorredouro, aqueles breves instantes nos lembraram que toda caminhada de amizade é também travessia de amor. Amor pela Portela e pelo outro. Amizade dada é amor, já nos escreveu Guimarães Rosa.

O imenso Chico Santana nos ensinou que “A Portela enfrenta derrota como vitória/ O seu passado é repleto de glória/ O seu azul e branco quando desce é pra valer/ Só a Portela sabe ganhar e perder”. Soubemos perder e ganhar, isso é normal, mas em momento algum deixamos de lutar pela “glória do samba no Brasil” (Bravo, Candeia!). Se em alguns momentos parecemos esquecidos da raiz, nos momentos de perigo recorremos aos fundamentos, pois acreditamos que nosso passado sustenta durante a procela.

Para além do tão sonhado título, a Portela existe e existirá, porque faz do samba sua religião. O samba é nossa forma de existir e caminhar neste mundo. É desse rio de memórias, histórias, dramas, aventuras e desventuras que a Portela retira a força necessária para navegar, muitas vezes, contra a corrente. É naquele mesmo chão onde um dia Paulo da Portela pisou que os portelenses de agora lançam novas sementes. E que venha o futuro!

Avante, Portela!!!