Portela na Lapa: projeto confirma pioneirismo da azul e branco


Paulo Oliveira

Quando Paulo da Portela, nos idos da década de 1920, fundou a escola do coração, e que seria parte eterna de seu nome, talvez não imaginasse que estaria inscrevendo sua biografia e o da agremiação em uma série histórica que ultrapassaria os limites do nascente carnaval das escolas de samba. Para Marília T. Barboza e Lygia Santos, Paulo foi o traço de união entre duas culturas e fez muito pelo samba, de todas escolas e não somente de sua Portela, sendo o grande embaixador dessa cultura que acabou se tornando um patrimônio da humanidade. Paulo foi o grande empreendedor da cultura do samba, inspirou o Pagode do Trem, sucesso do calendário carnavalesco da cidade. Pioneiro que era, foi compositor, cantor, dirigente de escola que mais títulos conquistou no carnaval carioca. Um desbravador. Sua memória é guardada por nós como um diamante azul e branco, a inspirar cada momento de nossa trajetória vencedora.

Quem esteve na noite do dia 16 de fevereiro de 2017, na Lapa, no espaço aconchegante do Bistrô (Avenida Mem de Sá, 126), foi testemunha de um evento inesquecível e que certamente deixaria Paulo da Portela muito feliz. Protagonizado pelo Departamento Cultural da Portela e sob a direção entusiasmada, no sentido originário da palavra (estar-se investido do Deus), da rapaziada liderada por Rogério Rodrigues, estiveram reunidos o Presidente atual da Portela, Luiz Carlos Magalhães, o grande pesquisador João Baptista Vargens, o ilustríssimo Presidente de Honra da Portela, Monarco, ao som da moçada do Grupo Praça Onze (excelentes) para contar, cantar e ouvir as histórias retiradas das inesgotáveis páginas de glória da Portela. Foi uma reunião de bambas que deram um tom nostálgico da noite, mas nos lembrando de que a Portela é uma escola do presente e que mira o futuro com esperança, determinação, paixão e coragem. Heranças de nosso eterno Paulo, o da Portela.
Foi essa a fórmula infalível que tornou possível reviver a façanha do mítico Paulo, que idealizou levar, naqueles já distantes tempos, a escola do subúrbio de Oswaldo Cruz, com seus samba, suas canções, suas histórias, seus dramas e sua poesia, ao Centro da Cidade, fazendo a ponte entre a área nobre da cidade e a chamada roça de então. Hoje alijadas deste espaço fundamental, que é o Centro do Rio, as escolas irmãs encontrarão no projeto cultural da Portela na Lapa uma fonte de inspiração para novas empreitadas, o que só confirma a vocação pioneira da águia, em seu destino inelutável, de voar para além de seus muros e de sua quadra, tomando as iniciativas necessárias para manter a glória do samba. Apesar dos detratores, que confundem o papel da escola de escola de samba com desfile, títulos e campeonatos, a Portela se confirma como uma agremiação de objetivos maiores.
Há mais de quarenta anos sem conquistar um campeonato sozinha, a Portela se renova, se revigora, cresce e aparece, mesmo nas adversidades. E esse é o mistério do samba de Oswaldo Cruz: apesar dos pesares, mantém uma das melhores alas de compositores do carnaval carioca, confirma a excelência do samba de quadra ali produzido, honra seus baluartes, recebe e acolhe cantores e compositores, novos e antigos, que ali vão beber da inesgotável fonte e, encantados, acabam jurando amor eterno à escola. Além disso, é dona de uma Velha Guarda que é a grande referência de samba bom, de cultivo à memória e à história, enfim, se formos falar da Portela, nem amanhã vamos terminar.

Por isso, os Consulados da Portela vão nascendo e se espalhando, e ganharam até mesmo a terra do sol nascente, o Japão, aliás, país de grande importância na história da agremiação, vide, por exemplo, a criação da bandeira da azul e branco, inspirada na japonesa.

Podemos lembrar ainda do projeto Ninho de Águias, do Cine-Samba Candeia, do Portela de Asas abertas, ao qual se junta, no coração da Lapa, esse novo centro de difusão daquela arte sonhada e cultivada por Paulo.
Além da boa conversa, da cerveja gelada, da boa música, o espaço contou ainda com uma exposição, intitulada “O Axé da Portela Voltou,  agora na Lapa. Sob as bênçãos de Dona Dodô”, justa e bela homenagem à eterna Porta-Bandeira do mítico campeonato de 1935, orgulho da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e que foi alçada ao posto sob as benções de Paulo da Portela.
Com o auxílio luxuoso do Grupo Praça Onze, a festa portelense foi pontuada por belas e inesquecíveis composições de Paulo da Portela, Chatim, Manacéa, Alcides, Candeia, do próprio Monarco e de tantos outros bambas. Mais uma vez, a escola mostra porque, nas palavras de Luiz Antonio Simas, desfila porque existe. Com uma animada rapaziada e as presenças de torcedores da Nação Portelense, da Guerreiros da Águia, do Grupo Portelamor, dos incansáveis Fábio Cazes, do Samba da Ouvidor, e da Jacque, do Moça Prosa, que sacode a Pedra do Sal, o que vimos foi um encontro feliz em prol do samba.
Foi desse jeito que a Lapa testemunhou o orgulho do portelense com sua história e viu a filha pródiga retornar a esse reduto tão caro a Paulo da Portela. Quem viveu, viu. Quem não viu, pode esperar para abril uma nova edição do evento.

 

Avante, Portela!!!

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