Pelo telefone: de samba, acasos e guerreiros

Grandes ideias, grandes revoluções e grandes acontecimentos nascem de pequenos gestos, de encontros fortuitos ou mesmo de uma conspiração do destino. Sem a pretensão da comparação, mas com o intuito de relembrar e provocar reflexões, podemos dizer que a história do samba é feita destes momentos iluminados, em que uma ideia, uma decisão, uma brincadeira e até mesmo um erro germinam, transformando o presente e inaugurando um futuro. O fato é que, sem troca, sem encontros, não teríamos esse legado, que fez com que uma arte inicialmente tida como marginal fosse reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil. Os amantes do samba e da Portela sabem que foi por conta de uma turma de visionários que a escola se tornou uma potência cultural, muito além do carnaval, dos desfiles e campeonatos. Para os que cultuam a história do ritmo, “Pelo telefone”, de Donga (Ernesto dos Santos) e Mauro de Almeida, polêmicas à parte, é considerado o primeiro samba gravado. Registrado em 16 de dezembro de 1916, foi o grande sucesso no carnaval de 1917. Há certo consenso de que, na verdade, a obra já havia coletivamente sido arquitetada na casa da famosa Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), na Praça Onze, reduto de celebração religiosa do Candomblé, onde sambistas e demais artistas populares se reuniam. A discussão em torno deste samba se deveu a questões de autoria: seria uma obra conjunta, que Donga e Mauro apenas adaptaram? E como fruto de uma criação ou trabalho coletivo, não seria de direito dar os créditos necessários aos demais sambistas e compositores que partilharam essa criação? Como se vê, sambas comprados, parcerias duvidosas, obras compostas em quintais e mesas de bar e tantas outras que foram percorrendo caminhos sinuosos são acontecimentos comuns no processo histórico de consolidação desta arte.

Acresce que no samba e no carnaval, muitas desses registros se perdem, e ficam dependendo da memória dos sujeitos criadores e das experiências vividas, passadas de conversa em conversa, de geração em geração, informações que muitas vezes se perdem no tempo e se apagam quando os atores se vão. Com a história recente do carnaval, isso não é diferente. O fenômeno das torcidas organizadas comprova a necessidade de fixarmos nas páginas da história do carnaval o que muitas vezes passa despercebido, mas que impacta os rumos do samba. As torcidas organizadas têm uma história e ela começa com aqueles pequenos gestos e encontros com que abrimos nossa crônica. Em 1999, Jorge Anselmo, um dos pioneiros idealizadores das torcidas organizadas, teve a ideia de levar para a concentração da Portela uma faixa, em que se lia “Avante, Portela!” Vale lembrar que Jorge Anselmo foi inspirado pelo espírito de torcedor que nutria por outra paixão sua, o Flamengo. À época, Jorge fazia parte da Torcida Raça Rubro-Negra e a princípio não era desejo seu criar uma torcida organizada no samba, mas esse movimento de paixão torcedora de certa forma o animava. Daí que o fortuito passa a agir, repetindo a história, como acontece com frequência no mundo do samba. Surgia, destes movimentos e destas paixões, ainda que não intencionais, o embrião de um caso de amor que mudaria a forma de se compartilhar o sentimento de devoção e respeito pelas escolas de samba do Rio de Janeiro.

Vários nomes foram cogitados, naquele início de jornada: Fiéis da Águia, por exemplo, não agradou, pois se confundia com a paulistana “Gaviões da Fiel”; Raça Portelense não era consenso, e foi descartado. Em uma conversa telefônica, entre Jorge Anselmo e Marcelo Moura, surgiu o nome Guerreiros da Águia, e o martelo foi batido naquele mesmo dia. Em 25 de outubro de 2003 estava criada a primeira torcida organizada do carnaval carioca, e ela era da Portela.

Em fins de 2003, a Guerreiros já fazia sua primeira aparição na mídia. O jornal O Dia, de 17 de fevereiro de 2004, já chamava a atenção para a debutante. Na revista Ensaio Geral, da Liesa, de 14/12/2004, a Guerreiros da Águia seria reconhecida como a pioneira da Sapucaí. E assim foi se consolidando mais uma bela e pioneira história na Portela, fruto de apaixonados que em momento de iluminação e sem grande ciência do imenso passo, abriram novos caminhos para nosso carnaval. Nas palavras dos desbravadores Guerreiros, a torcida nascia com a proposta de “prestigiar e demonstrar o amor que sentíamos por esta fantástica escola de samba, com história sem igual e pioneira por natureza”.

O site oficial da Torcida Guerreiros da Águia, criado por José Alves, em 06 de agosto de 2004, foi a primeira de uma série de iniciativas que expandiram o desejo e o sonho de conectar portelenses apaixonados, de todas as partes.

A Torcida Guerreiros da Águia inovou na forma de participação dos portelenses nos desfiles. Nos ensaios técnicos, ela incrementou o tom de festa nas arquibancadas. Na quadra da escola, agrupou amantes abnegados. Trouxe o torcedor para o contato mais íntimo com sua escola do coração e deu voz aos que queriam expressar seu carinho pela agremiação. A Guerreiros estabeleceu um padrão, abrindo caminho para que outras torcidas surgissem na Portela. Mais além, criou outro canal de comunicação e interação entre os amantes da Portela, seja na festa nas arquibancadas, na presença nos ensaios ou nos desfiles oficiais, ou ainda nos aniversários anuais, regados a muita cerveja, comida, samba e amor pela escola de Oswaldo Cruz e Madureira.

Jorge Anselmo e Marcelo Moura escreveram uma página bela no livro de ouro da azul e branco e com isso coloriram ainda mais a Sapucaí de azul e branco, com a festa das camisetas, bolas e bonés, tudo isso coroado pelo amor incondicional à Majestade do Samba.
Embora a vida tenha traçado caminhos diversos aos membros da Torcida, a Guerreiros da Águia cumpriu e cumpre seu destino, pois é a prova viva de um sonho que se renova, cada vez que a escola pisa a avenida, seja nos ensaios ou no desfile oficial. A criação da Guerreiros faz jus à lição de Paulo, de Clara, de Natal e de tantos anônimos que passaram pela escola. Sob a bandeira da Torcida Guerreiros da Águia, e agora de tantas outras que vieram e virão, mantém-se acesa a chama acesa e representada naquela primeira faixa de 1999, em que, sem grandes pretensões, mas premonitoriamente, se lia:

Avante, Portela!!!