Um mundo todo azul

Paulo Oliveira

Quando Antônio Caetano idealizou o enredo “O samba dominando o mundo”, talvez não imaginasse as glórias amealhadas pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela ao longo de sua tão rica história. Com samba de Paulo da Portela e tendo Dodô e Manuel Bam-Bam-Bam como casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, aquele mítico desfile de 1935, com o qual a Portela se sagrou a campeã do primeiro desfile oficial no Rio de Janeiro, seria sucedido por uma série de êxitos fenomenais, inovações e revoluções que mudaram a face do carnaval carioca. Mas a história azul e branca não é somente feita de páginas magistrais, ela também é marcada por momentos dramáticos. Definitivamente, a escola de Paulo não é afeita a diminutivos. Se a Portela fosse uma figura de linguagem, ela seria uma hipérbole. Esse é um aspecto que nos faz pensar a trajetória recente de nossa agremiação.

Estamos, desde 1984, sem conquistar um título no carnaval, mais um elemento altissonante de nossa trajetória. O que é, deveras, um capítulo dramático na atual conjuntura da agremiação poderia pressupor consequências graves, como o esquecimento de nossa história, a fuga de torcedores e fãs, a não renovação de nossos quadros artísticos, dentre outros efeitos da falta de títulos e protagonismo. De fato, muitos desses efeitos adversos acometeram algumas escolas, mesmo aquelas tradicionais, que não sobreviveram à crise. Mas, como dissemos, a Portela não se caracteriza por diminutivos. Ela é a Fênix hiperbólica das escolas do Rio e consegue viver da luz própria que gera, para si e para o mundo do samba. Não só se reestrutura, não somente se supera e derrota suas adversidades, mas estranhamente, ou mesmo, magicamente, consegue se renovar, renovando, em consequência, os rumos do samba e da festa de Momo.

No rol de elementos extraordinários que escreveram tantas páginas belas, alguns acontecimentos recentes nos remetem com alegria àquele pioneirismo que marcou os corações naqueles idos de 1935. Pois a escola, que há três décadas não sobe ao pódio do carnaval carioca, vês-se multiplicando suas torcidas, renovando seu cartel de adoradores, e acaba de ganhar representações em estados brasileiros e até mesmo no exterior. Falamos dos Consulados, cujo simbolismo é grande e se incorporam à história da Portela como mais um capítulo de seu pioneirismo e vocação para o futuro.

No dicionário, o verbete consulado é definido como um departamento público em outro país e que tem como missão representar os interesses da nação e proteger seus membros no exterior. No consulado do samba, idealizado pela Portela, os interesses da escola são representados através da preservação simbólica de suas cores, ideias e ideais, de seu patrimônio cultural, por meio da conservação, disseminação e valorização de sua história, cultura e obra. Mas, ao contrário da burocracia, que marca as repartições públicas, o consulado portelense espelha liberdade, espalha amizade, aproxima pessoas distantes, congrega raças, culturas e povos, fazendo com que o samba invada o mundo com seu canto de amor. Esse movimento está levando a Portela a alturas outras, a outros lugares, nos revelando uma escola capaz de se reinventar, a despeito de sua performance nos desfiles. E é esse o grande mistério do samba portelense, que aqui queremos compreender.

Em nossa leitura, esse vigor de Fênix têm sua origem lá atrás, na construção do terreno, do que costumamos chamar de chão, onde está plantada a tradição azul e branca. São esses elementos, representados nas figuras de Paulo da Portela, Dona Dodô, Manuel Bam-Bam-Bam, Antônio Caetano e em tantas outras que vieram depois, que estruturaram as bases sólidas que nos garantem um presente e um futuro. Esse presente se realiza com Monarco, Paulinho da Viola, com a Velha Guarda e tantos outros mestres e mestras portelenses de quem, se formos falar, um a um, hoje não iremos terminar.

A alma portelense anima as pioneiras e as novas torcidas; movimenta os grupos que vem descendo da cidade, da favela para abraçarem a escola; faz surgir os consulados que foram e estão sendo criados, levando às alturas e a outras terras a mística da águia. É o samba conquistando o mundo. E a águia vai traçando seu caminho, mostrando que, independentemente de resultados em desfiles, as raízes firmemente fincadas no solo fértil são o verdadeiro patrimônio da escola, o que garante presente e futuro. Não esqueçamos que tudo vem, entretanto, daquele passado construído com suor e com as lágrimas, de tristeza e alegria, de nossos baluartes e que encantam os eternos apaixonados, sejam torcedores ou simpatizantes, que viram um rio azul branco passar por suas vidas, marcando para sempre seus corações.

Um mundo todo azul é a janela que essa rapaziada esperta que assumiu a escola está abrindo a todos os que desejam navegar nas águas de nossa história. Esses maravilhosos consulados e as apaixonadas torcidas testemunham o frescor e a força de juventude dessa senhora vigorosa chamada Portela, uma escola sonhada por sujeitos imensos, que do alto de sua simplicidade, genialidade e amor semearam no chão de Oswaldo Cruz e Madureira um belo jardim, onde brotam histórias tão poderosas que o tempo só faz aprimorar. Como cantou Monarco, em recente samba, “a Portela espera que cada um saiba cumprir com seu dever”.

Que tenhamos a sabedoria dos nossos antigos e o arrebatamento da juventude para continuarmos nossa jornada de beleza.

Avante, Portela!

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