Novos e altos voos da įguia

Paulo Oliveira
Com a definição do enredo e a proximidade da escolha do samba de 2016, começa efetivamente o carnaval de 2016 na Portela. O belíssimo enredo do carnavalesco Paulo Barros é suficientemente criativo e inspirador para que sonhemos com uma safra de sambas notáveis, para se repetir a nota 10 dos últimos carnavais. Esse momento ímpar na recentíssima história de nossa amada azul e branco faz-nos esquecer o ambiente de terra devastada que há pouco tempo imperava na escola. Aquela obscura lembrança deu lugar a uma nova atmosfera, que ilumina o rosto do portelense. Os que de fora assistimos, aturdidos, à progressiva decadência da escola, mal cremos na força de fênix renascida, sentida no desfile de 2014, em que o Gigante era o símbolo maior do novo momento, e confirmado em 2015, na figura da Águia Redentora, já eternizada. Essa alegria se deve a um eficiente trabalho de reconstrução, consciente, competente e árduo, que em pouco tempo colocou a escola novamente no prumo.

Na feijoada de julho 2015, o show da Velha Guarda e da convidada Mariene de Castro foram o ponto alto de mais uma festa que é parte do calendário do samba no Rio de Janeiro. A nova quadra revela surpresas, como o cuidado com o espaço, a organização eficiente, a segurança e o prazer de desfrutar de uma atmosfera cordial. Samba, amizade, cultura, boa música se casam com o aconchegante ninho portelense. O que se vê é uma Portela forte, unida, como diz seu Monarco, pronta para voar alto e feliz, voltando a ocupar seu merecido lugar.

Esse conjunto de acontecimentos, nos leva, claro, a poetizar. Já podemos sonhar, como propõe o novo enredo, com um desfile em que modernidade e tradição, inovação e respeito à história se casem de forma harmônica. Pensar a viagem proposta por Paulo Barros é também uma oportunidade para reafirmarmos os fundamentos dessa instituição chamada escola de samba. Assim como nos processos de colonização as cidades foram sendo construídas e se desenvolveram em torno da igreja, da praça, da administração, as escolas de samba se desenvolvem em conúbio com o povo de seus arredores. Em cada uma das escolas, a comunidade do entorno é seu elemento mais importante e vivo, um conjunto amplo, entretanto harmônico, de atividades humanas, artísticas e espirituais ali congregadas. Se o samba convoca, pelo canto, o congraçamento, a comida completa esse entrelaçamento. A arte do samba, tecida em cada canção, entoada pelo grupo é comunhão, no sentido da própria religiosidade, e reunião, na Santa Ceia da comida partilhada. A comunidade acolhida percebe o sentido da casa e da família, fundamento das escolas que promovem uma outra colonização, a do bem, regida pelos princípios da arte e da convivência e não apenas guiada pelo mercantilismo. A ideia de educação, dado no nome “escola” de samba ganha relevo: elas são locais de irradiação de saber, de difusão cultural e congraçamento. As escolas de samba podem ser espaços de novos e melhores aprendizados de convivência. Por isso, o resgate da Portela significa também resgate de toda uma comunidade, que para lá ruma, “descendo da cidade e da favela”, “para defender as suas cores”, como fieis na santa missa, na capela, que lá também foi erguida (e salve Dona Dodô).


Em tempos de crises, econômicas, políticas, morais e éticas, o exemplo de uma comunidade cultural conduzida com dignidade por seus dirigentes é um alento para os que desacreditamos nas mudanças. O mundo do samba, especialmente o mundo portelense, nos ensina que as escolas estão para além dos desfiles grandiosos na Marquês de Sapucaí. Elas são organismos vivos que encenam diariamente a aventura humana no que ela possui de mais terrena. Lá, aprendemos que a arte é produção coletiva e solidária, um fazer cotidiano que pode ser expresso tanto na culinária quanto na letra de uma canção ou em na harmonia de um samba, e mesmo, na prosa miúda em uma roda de amigos.

Há uma seiva bruta a correr nesta árvore chamada escola de samba, e que deu frutos, mas ela não pode esquecer a raiz, como alertaram Candeia e Isnard. Os novos frutos da árvore portelense serão colhidos em breve. Pois a azul e branco voltou a ser “tão bela, orgulhosamente a Portela”, e se afirma como nobre habitante desse lugar divino feito de som, poesia, vitalidade, memória e história, que é o jardim das escolas de samba.

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