Fim de ano de encontros e amizade

Para a Nação Mangueirense, pela acolhida, pela amizade, pelos exemplos

Após um período de recesso, estamos de volta com nosso bate papo, nossa crônica do mundo do samba azul e branco, da querida Portela. Para esta coluna, havia pensado em escrever sobre o carnaval 2015, o enredo da Portela, nosso samba, ou sobre as expectativas portelenses para o desfile de 2015. Exercícios de premonição, de vidente bissexto. Mas, um evento acontecido na Vila Olímpica da Mangueira me chamou com força, e me fez escrever essa página. Foi no domingo do dia 21 de dezembro deste ano da graça de 2014. A convite da Torcida Nação Mangueirense, fomos, eu e Zé, companheiro portelamorense, receber uma homenagem, estendida às demais torcidas da azul e branco, a Guerreiros da Águia e Amigos da Águia. O que presenciamos ali foi uma felicidade e alento para todos os que amam esse universo de beleza, que é o do samba.

A Nação, capitaneada pelo Xande, é uma das torcidas amantes da Verde e Rosa. A homenagem às torcidas portelenses foi uma oportunidade de vermos como nossos irmãos de samba trabalham e como são movidos por ideais que ultrapassam em muito o universo dos desfiles e do Sambódromo. Para mim, foram três momentos, que se completam.

Vivemos ali, em primeiro lugar, a hospitalidade. Recebidos com alegria, simpatia, fomos apresentados à rainha de bateria, aos componentes da torcida, a personalidades mangueirenses. Naquele momento, sentimos que a rivalidade nos campeonatos era mera questão de torcedores e amantes de agremiações. Na verdade, o mundo do samba é de abrigo, pois a própria história de nossas agremiações indica isso. Nossa casa é nossa quadra, já dizia Martinho da Vila. Nada se fez ao longo da história do samba que não fosse com muita luta, com muita garra. E se o samba é vitorioso, ele ainda não ocupa os currículos escolares, não é ensinado nas escolas e órgãos oficiais. Porém, há a nossa escola da vida diária do mundo do batuque, que nos dá exemplos maravilhosos, como a Vila Olímpica da Mangueira, celeiro de atletas, que se somam aos bambas.

Ao chegarmos na quadra da Vila Olímpica havia dois tapetes, um verde e um rosa. Uns eram grandes sacos de brinquedos para as crianças da comunidade, o futuro da Mangueira; outros, de mantimentos, comprovando a tese de que o samba não é só alegria e prazer: ele é o “grande poder transformador”, como diz a letra de Caetano e Gil. Essa é a segunda lição. Com esse gesto de amor, mais do que uma doação, a Nação Mangueirense mostra a força solidária do trabalho de grupo, da necessidade do grupo. E é nisso que se funda uma torcida, não amor pela escola material, simplesmente, mas fundamentalmente pelo universo humano que a torna grande, imponente, vitoriosa. Cumprem um papel que antes fora de Dona Neuma, de Cartola, e de tantos anônimos que por ali passaram e passam, os que fazem o dia a dia de um chão, com certeza dos mais vitoriosos.

Finalmente, ao homenagear as torcidas portelenses, a Nação mostrou generosidade, gratidão e reconhecimento e acabou por nos dar a terceira lição, da amizade, dos laços eternos que unem todos os que são irmãos de samba. Viver a experiência da amizade foi um presente aos portelamorenses. Palavras jamais traduzem gestos, mas precisamos agradecer. Estamos esquecidos de agradecer. Lembrar e agradecer são palavras-chave do mundo do samba, feito de laços, construções e traços de união.

Hospitalidade, solidariedade e amizade. Que possamos um dia retribuir à altura, e que a lição aprendida seja compartilhada.

Ao voltar para casa, sentimos que um pouco da Nação veio conosco. E a Portela, cuja história de pioneirismo muito deveu a homens solidários e imensos como Paulo da Portela, foi, naquele dia, devidamente homenageada, na figura das três torcidas que hoje, cada uma a seu modo, aquecem o coração da azul e branco. Saímos da festa verde e rosa devidamente acolhidos, mais amados.

Nação Amor, Nação Mangueirense, Portelamor, Nação Portela. Naquele dia, “o amor se fez / do jeito que se inventou. / Toda razão perde o seu fim / se o coração for o juiz”. É isso aí, rapaziada da Nação. Nos valemos das palavras do mestre Djavan, pois elas traduzem melhor o nosso sentimento de gratidão pela homenagem.

Avante Portelamor, avante Nação Mangueirense!

Avante, Portela!


Um Feliz 2015 para todos nós!