A azul e branco na hora da verdade: flashes

Uma nova Portela

15 de fevereiro de 2014 ficou marcado em mim como o primeiro dia do resto de nosso carnaval azul e branco. O ensaio técnico foi o primeiro teste para a nova Portela, a Portela que se quer verdade. Algo de bom e de grande já se anuncia, após poucos meses dessa nova fase. Vejo uma Portela que restaura o orgulho de seus membros, que enfim abandonou a ideologia do “estamos cansados de fazer carnaval em um mês” para demonstrar garra, competência. Sem sustos. Tudo como se deve, em uma escola cuja história é a de luta e glórias. Os títulos podem e não podem vir, faz parte do jogo. O que não podia e não pode mais haver é a conformação dos portelenses à ideologia do “já esteve pior”, que imperava até bem pouco tempo. Vamos em frente: a torcida apoia e espera um belo carnaval e isso já se sente, anda nas ruas, nos becos e nas bocas. Ensaio técnico correto, torcidas presentes, escola cantando o samba, belo enredo, bateria competente. Com um barracão à altura de seu chão, Portela é sempre escola de chegada.

Papo de torcida, I

O dia 15 de fevereiro também marcou a estreia da Portelamor no setor par do Sambódromo, o setor quatro. No ensaio, o encontro e reencontro com os amigos criou um espaço de confraternização, inclusive com os desconhecidos da arquibancada. Com saudade, quero registrar a lembrança dos que já não estão mais conosco nesse momento bom, na tarefa amorosa que é torcer pela Portela. Aproveito para parabenizar mais uma vez nosso querido Fábio José de Melo, que comemorou seu aniversário conosco e é o mais novo colaborador desse site. Sua presença enche esse site de orgulho. Portelamor é isso: quem ama, cuida; quem ama, ama.

Nosso samba de 2014, I

O dia 15 de fevereiro foi também o do teste ao samba 2014. Não é um samba fácil de cantar. A letra e os recursos sinuosos o tornam perigoso. Mas a beleza de sua composição, por sua vez, o torna insuperável. Lembremos que a Portela sempre foi uma escola de riscos, que se arriscava. E por isso mudou a cara dos desfiles, ao longo de sua história. Então, que venha o bom samba, e bom samba não significa samba fácil.

Nosso samba de 2014, II

Como nos dois últimos anos, em 2012 e 2013, o refrão principal do samba portelense é imbatível e o deste ano, além de seu poder de síntese, revela-se propulsor de múltiplos sentidos: “Vou de mar a mar, mareia / Vou de mar a mar, mareia, mareou / Iluminai o tambor do meu terreiro / Ò santo padroeiro / O axé da Portela chegou”. O casamento de melodia e letra é magistral e celebra, junto com os sambas de 2012 e 2013, uma espécie de casamento poético, marca que nossos compositores vêm imprimindo nos últimos três anos. Além do jogo sonoro (“mar a mar”; “mar amar”); das repetições de sons de vogais, consoantes e sílabas, as conhecidas aliterações (“mar, mareia, mareou, tambor, terreiro, padroeiro, a, chegou”, e por aí vai), encontramos ainda aquele sincretismo que evoca santos e orixás (o terreiro, no toque do tambor, iluminado pelo santo padroeiro São Sebastião, e com muito axé), o que, em época sombria, de intolerância, nos lembra oportunamente que somos filhos dessa mestiçagem, portanto, impuros, belos e caóticos, e, sem idealizações, fomos temperados nesse caldo de imperfeições, fraquezas e forças. O refrão ainda remete com maestria à Avenida Rio Branco, com suas duas pontas, de mar a mar, avenida que legou à história os mais importantes, e também obscuros; os mais belos e outros, contrariamente, terríveis, momentos da história do Brasil: a Revolta da Chibata, as Diretas Já, as Passeatas de Junho, o Bota-abaixo, o tráfico negreiro, enfim, é caminhando e cantando e seguindo a canção que a cidade purgatório da beleza e do caos vai seguindo seu destino, sobrevivendo aos desamores de seus dirigentes. O samba não deixa de ser também uma metáfora desses novos tempos portelenses. Ele dialoga com os versos clássicos de outra pérola azul e branco: “teu destino é lutar e vencer / ò minha Portela / Por ti darei minha vida / ò Portela querida”. Enfim, a metáfora do mar recobre seus versos: o mar – que tanto infelicitou nossos irmãos de África que por ele aqui aportaram ou nele pereceram, no brutal holocausto que foram a escravidão a ignomínia da diáspora de todo um continente aviltado – é também metáfora do caminho, que por outro lado, nos legou o semba, que resistiu e teve sua mais completa tradução por aqui, na forma do samba de enredo, repositório de memória e de riquezas ancestrais. Um luxo, só nosso. Viva os compositores da Portela. Axé. O samba agradece.

Papo de torcida, II

A sugestão de meu amigo e presidente (não adianta ele mandar tirar o presidente do texto, que não tiro), Jorge Anselmo, materializou-se de forma muito positiva no dia 15 de fevereiro. Dias antes, vimos a estrutura de ferro do tripé e não imaginávamos que ficaria tão caprichado, e em tão pouco tempo. Parabéns ao carnavalesco, à diretoria, a todos os profissionais do barracão. Que mudança de tom, que bela Portela. Estamos atentos, na torcida, felizes.

Final feliz

A noite de 15 de fevereiro não podia terminar melhor: entre amigos, com bom samba, tripé porreta, aniversário do Fábio, novo colunista da Portelamor, amigo querido, com bolo, cerveja, no ritmo do bom ensaio da Portela, ou seja: alto astral, porque competir é bom, mas carnaval é principalmente alegria da massa, prazer do convívio e felicidade de estarmos juntos, em comunhão, nós, os apaixonados e amorosos torcedores da imensa nação azul e branco. Que a águia venha com tudo, nesse março que se aproxima.

Avante, Portela!!!

Paulo César Oliveira é professor da UERJ e do Abeu - Centro Universitário (Uniabeu). Pesquisa literatura e é colunista bissexto (mais apaixonado) deste site.

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